Pages

O hortícola que era criança por fora e velho por dentro

.
.
.



Este deixou que, os muitos anos que tem, lhe adoçassem o Coração, enquanto o corpo se cobre de rugas e mazelas em todos os cantos… é bem disposto e, em ar de brincadeira desafiante perguntava-me hoje isto…

“Diga-me cá uma coisa:
Se um grupo de crianças se senta à volta de uma mesa com um baralho de cartas, o que fazem elas?
E se, em vez de crianças, for um grupo de velhotes?
Dizemos sempre que as crianças brincam mas os velhotes disputam partidas. Mas não fazem eles todos o mesmo?”

E aquilo pôs-me a pensar…
E os outros… entre uma e outra idade?



Às vezes é assim…
Era uma vez um homem que tinha um terreno de cultivo.
Esse homem, como tantos, era criança por fora, mas muito velho por dentro.
Primeiro cavou bem fundo, depois “alimentou-a” adubando-a na medida certa. Providenciou rega para que todo o terreno recebesse água. Foram chegando os momentos certos para plantar, semear esta e outra hortaliça dispondo-as sabiamente conforme cada espécie… plantou também algumas árvores de fruto. Ao fim de alguns anos pode finalmente recolher o fruto do seu trabalho, do seu cuidado, do seu carinho. E então pensou:
“Vou guardar o fruto do meu trabalho para sempre”.
Estranho pensamento… então, tão sábio horticultor não sabia que guardando para sempre o fruto do seu trabalho entre as suas mãos ele acabaria por apodrecer?
Passou um dia, passaram dois, e lá pelo povoado um e outro iam sabendo da colheita boa que havia acontecido naquele terreno. E começaram a bater à porta do horticultor para lhe comprarem os frutos do seu trabalho e carinho desmedido.




A princípio, o horticultor negava-se a entregar assim os seus frutos… mas depois, bastante contrariado, e tantas vezes mesmo zangado quando apreciavam e teciam elogios ao que havia produzido, mas lá foi vendendo tudo.
Com o dinheiro da venda dos produtos pode comprar outro campo, bastante maior, um desafio mais arriscado. Começou a cuidar desse novo terreno… mas ele deixou que a tristeza o dominasse, e o cuidado e atenção com este campo já não era o mesmo.
Era tão velho por dentro que se foi deixando morrendo aos poucos, embora vivesse por fora, e todos os dias chora amargamente ter ficado de mãos vazias das hortaliças e frutas que havia já há tantos anos acabara por vender a quem delas precisava.
É assim que vive hoje, triste, só e a morrer.
E se me perguntares porquê… não sei.
Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça.



.
.
.
.

1 comentário:

Sc. disse...

Paz e Paz Amigo.
Lindo texto , verdadeiro "mapa de caça ao Tesouro".Vida é um Desafio ,Vivê-la em Plenitude é o Dom de Deus que ganhamos ao nascer e com o Batismo.
Sentimento único é o Viver pelo Bem.
Paz .