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Sempre... por ti...






“Nalgum lugar perdido vou procurar sempre por ti…
… por mil caminhos que são mastros e horizontes”
o teu passo será sempre a vela que me leva
o teu fogo que a faz voar para longe do que não sei
aí verei estrelas sobre os mares e dentro deles
outras estrelas mais vivas
mais tuas

Nalguma “Nazaré” te hei-de procurar sempre
Nalguma “Cafarnaum” te hei-de seguir esse passo
Nalgum lugar perdido…
até que o sonho se esconda de vez
porque olhar-Te um pouco será ver-Te sempre
onde o tempo não tem nunca fim
quando o fim acaba para nunca terminar
de olhar-Te um pouco… para ver-Te sempre

Nalgum lugar perdido não me cansarei de procurar-Te
enquanto me parece dormires
sonho o que já não sonharei
contigo…

5... A mensagem do baptista cativa Yeshuah...



O que marcou tão fortemente a vida de Yeshuah, a ponto de tomar a decisão ou assumir a consequência tão séria de se desvincular do seu grupo familiar, de ele mesmo não formar também uma família, não se casando?
Como deixou ele até o ofício de artesão aprendido com o seu pai José, afastou-se da sua mãe e dos seus irmãos, afastou-se de Nazaré onde nasceu e cresceu, onde começou a aprender a ser pessoa?

Talvez tenha sido numa dessas saídas da povoação, em busca de trabalho que se terá cruzado ou terá ouvido falar de alguém cuja vida o deixou fascinado. Foi João, conhecido como “o Baptista”. Yeshuah nunca tinha conhecido mensagem tão cativante como a deste profeta do deserto.
Quem era este João Baptista cuja vida fez Yeshuah dizer mais tarde que tinha sido mais que um profeta, era o maior entre os filhos de mulher?

João era de uma família sacerdotal rural, seria de esperar que seguisse o caminho de seu pai no serviço e culto no templo de Jerusalém. Não segue nenhum mestre, abandona a terra sagrada de Israel e toma rumo em direcção ao deserto para fazer ouvir a sua mensagem.
João denuncia a crise do seu povo: o pecado e a rebeldia de Israel.
Aponta corajosamente o facto de que o povo eleito chegou ao seu fracasso total, não realizando o projecto de Deus.
Denuncia o próprio templo já corrompido também, e que por isso de nada servem nele os sacrifícios de expiação pelo pecado.
João sente que é urgente passar por um novo rito, um novo sinal de purificação total, não ligado ao culto do templo.
João anuncia a necessidade de voltar ao deserto, procurar a conversão, o arrependimento e o perdão para um início, um novo começo de uma eleição e uma aliança nova para este povo fracassado.

Em Yeshuah este jeito de ver as coisas causa um fortíssimo impacto. Ele está dentro da vida de todos os dias das gentes mais humildes do povo de que faz parte. Encara João como um homem audaz que coloca Deus no centro e no horizonte de toda a busca de salvação. Tudo fica relativizado e perde importância… o templo, os sacrifícios, as interpretações da Lei, o orgulho de ser pertença de um povo eleito… nada disto está a salvar o povo do sofrimento e desigualdades sociais que vive. Há uma coisa urgente e decisiva a fazer: converter-se a Deus e acolher o seu perdão.

João leva tão a sério o que quer anunciar, que é no deserto, escolhido cuidadosamente, que proclama a sua mensagem e exerce o sinal que grava na memória e no Coração do povo a mudança, a conversão, a preparação de um caminho novo que irá começar: a imersão nas águas correntes e abundantes do rio Jordão, que é também local de passagem de uma importante via comercial de Jerusalém para as regiões do Jordão, em frente a Jericó, lugar por onde, segundo a tradição, os antepassados do seu povo teriam entrado pela primeira vez naquela terra prometida por Deus.
João torna-se então no novo guia que conduz Israel, liberto da escravidão do Egipto, pelo deserto e o introduz na terra da promessa.
A água é o sinal perfeito que marca esta renovação… lava, purifica, refresca e dá vida.
Os banhos são um ritual muito comum daquele tempo mas, usam-se para isso tanques ou piscinas em redor do templo de Jerusalém, ou no mosteiro de Qumrãm, lugar onde praticavam essas purificações várias vezes, durante o dia, e em que cada um se lavava a si próprio.

João parece ser o primeiro a atribuir a si mesmo a autoridade de praticar este rito de purificação numa outra pessoa. Então o povo começa a chamá-lo de “o baptista”, e fala do seu rito como sendo “o baptismo de João”.
Ser baptizado por João nas águas correntes do Jordão é acolher e aderir a sua mensagem e meter-se dentro desta renovação de Israel.
O facto de ser uma imersão na água do rio, feita por João, torna-o assim um mediador de Deus que oferece o dom da purificação a Israel.

Assim se começa a formar o novo povo da Aliança, não com um rito de iniciação para formar mais um grupo a acrescentar aos já existentes grupos religiosos… em vez disso, quem foi mergulhado por João na água, uma única vez, converte e compromete toda a vida, volta para casa para viver de modo renovado, preparado para receber a chegada da salvação de Deus.

João actua à margem do templo, e isso escandaliza os sacerdotes e todos os religiosos de Jerusalém… estes não aderem ao seu anúncio.
Quem acolhe a mensagem do baptista são as gentes das aldeias, as prostitutas, os cobradores de impostos e todas as pessoas de conduta duvidosa, todos aqueles a quem os religiosos apontavam o dedo como impuros e à margem da Lei.

João sentia ter uma missão que não era definitiva. Ele sentia a urgência de preparar o povo para a chegada da salvação de Deus. Ele esperava, provavelmente, um homem com uma missão mais importante que a dele, um homem a quem ele não seria digno de desatar a correia das sandálias. João não sabia bem quem seria, mas haveria de ser o mediador definitivo de Deus.

Em algum momento Yeshuah se aproximou dele, fascinado por esta mensagem viva de uma renovação, e aderiu a este sonho, fazendo-se mergulhar nele, por João.
Junto com alguns discípulos e colaboradores, Yeshuah terá permanecido no deserto com o baptista, aprofundando a sua mensagem. Este é o momento que provoca uma viragem completa na vida de Yeshuah. Foi aqui que conheceu os irmãos André e Simão e um amigo deles, Filipe, que eram da povoação de Betsaida.

João Baptista coloca a sua própria vida em perigo ao denunciar a vida desregrada de Herodes, ainda que este o temesse pelas multidões que cativava, e talvez até o admirasse pela sua ousadia e verdade. Ainda assim Herodes o prendeu e mais tarde mandou executá-lo com medo que ele fomentasse alguma rebelião.

O desaparecimento de João causa um grande impacto entre o povo.
Yeshuah reage de maneira surpreendente. Não deixando o fervor de esperança que animava João, radicaliza essa mensagem até extremos que não se poderiam imaginar.
Dá à perspectiva gerada por João um horizonte novo.
Já não vive um tempo de preparação, mas uma nova era.
Já não é tempo de penitência, mas sim de acolher o Deus da Vida.
Yeshuah oferece a todos, gratuitamente, aos que haviam mergulhado nas águas e também aos que não tinham mergulhado nas águas do Jordão, uma notícia boa… excelente.
Proclama, numa nova linguagem, longe da austeridade do deserto, num estilo de vida festivo: O Reino de Deus já chegou, está próximo, está aqui!

4... Yeshuah, o que te ensinaram, em Nazaré, sobre o teu Deus...?



Chamava-se aliança àquele ritual da circuncisão porque era um momento que marcava o momento da entrada do menino no povo da Aliança. Este ritual era praticado religiosa ou socialmente por outras culturas, mas, o povo hebreu tem-no como sinal que não se pode apagar, que identifica a sua pertença a um povo, sinal também da fidelidade à Aliança que Deus estabeleceu com todo o povo.
Circum - cisão… cortar em redor… resultava literalmente numa aliança de carne num povo que tão humanamente inteiros veneravam o seu Deus.

Ao oitavo dia depois de nascer, José levou o Yeshuah menino para ser circuncidado.

Em Nazaré não havia templo, tal como não havia templos ao Deus de Israel em nenhuma povoação pequena ou grande. Para o judeu só havia um único templo onde se podia adorar o seu Deus, era no templo santo de Jerusalém, onde pensavam que Deus habitava de forma invisível e misteriosa. O templo de Jerusalém era, para os judeus, o coração do mundo.
Em Nazaré sabiam-no bem, por isso, no momento das orações, dirigiam o olhar em direcção a Jerusalém. Foi assim que Yeshuah aprendeu também a fazê-lo.
Mais tarde, em vez disto, Yeshuah levantará os olhos ao céu, significando assim a proclamação de que Deus não está encerrado em nenhum lugar, nem é pertença exclusiva de nenhum povo, é o Deus dos céus, é o Deus de todos e está em toda a parte.

Em Nazaré, como em qualquer outro lugar do país, os Sábados eram muito diferentes de todos os outros dias da semana.
Ninguém se levantava cedo.
Os homens não trabalhavam no campo.
As mulheres não coziam o pão.
E o momento mais especial do dia era o da refeição que era sempre melhorada.
Era um dia de alegria e de encontro com os familiares e os vizinhos.
Havia também o encontro na sinagoga onde todos, homens, mulheres e crianças podiam escutar a Palavra de Deus.

As Escrituras, escritas em hebraico, eram lidas ao mesmo tempo que um tradutor as ía traduzindo, parafraseando o texto em aramaico. Em seguida qualquer homem adulto podia tomar a palavra e comentar o texto.

Numa tão pequena povoação, a sinagoga, seria um lugar muito humilde de encontro, talvez uma simples casa com outras finalidades, como por exemplo, poderia ser um lugar de encontro para encontrar meios de apoiar quem, na povoação, necessitasse de ajuda.
Yeshuah, mais tarde, será criticado pelos mais rigurosos perante a Lei acusando-o de não respeitar o descanso do sábado, curando enfermos.

Além dos dias de Sábado, eram dias de festa também aqueles em que se celebravam as bodas. Durante vários dias os familiares e amigos dos noivos acompanhavam-nos alegrando-se, comendo, cantando e dançando.

Celebravam-se também as grandes festas religiosas.
Em Setembro, celebrava-se a Festa do Ano Novo.
Dez dias depois, celebrava-se o Dia da Expiação, dia em que de modo especial se ofereciam sacrifícios no templo pelos pecados do povo.
Aos seis dias, celebrava-se uma festa da qual as crianças gostavam muito, associada talvez, na sua origem, a alguma Festa das Vindimas. Esta festa é celebrada no campo, durante os sete dias que ela durava, as famílias iam viver em cabanas, lembrando as tendas do deserto quando Deus tirou o seu povo do Egipto.
Na Primavera, celebrava-se a Festa da Páscoa, também durante sete dias, em clima de felicidade e orgulho por pertencer a este povo predilecto de Deus. Na véspera do primeiro dia era degolado um cordeiro e ao anoitecer cada família se juntava para o comer e recordar a libertação da escravidão do Egipto, e a passagem pelo deserto até a esta Terra Prometida.
Cinquenta dias depois, já perto do Verão, era celebrada a Festa do Pentecostes, chamada também de Festa das Colheitas, momento em que se recordava a Aliança e o dom da Lei entregue no Monte Sinai.

Eram sempre dias especiais, os dias de festa, sempre a celebrar o seu Deus, mas os judeus piedosos, espontaneamente, em qualquer momento do dia, elevavam o seu Coração a Deus para O louvar com uma oração tipicamente judia que tinha o nome de bênção que começava “Bendito és, Senhor…” seguido do motivo da acção de graças.

Depois do Sábado ou dos dias de festa, tudo voltava de novo ao trabalho duro e monótono de cada dia.
Mesmo em cada dia, os judeus confessavam, duas vezes por dia, a sua fé no Deus único, criador do mundo e salvador de Israel com quem fez aliança.
Usam uma fórmula que é mais um convite ao qual todo o judeu se sente interpelado a viver enamorado pelo seu Deus único.
Esta característica da fé num único Deus do povo judeu é especialmente diferente de todas as grandes culturas dominantes. Israel acredita num único Deus. Os outros povos como os babilónicos, os egípcios, os gregos e os romanos acreditavam em vários deuses.
Estas palavras repetidas de convite a um enamoramento pelo seu Deus único, Yeshuah as escutou, saboreou, aprendeu, repetiu-as com os adultos desde criança, de manhã antes de fazer qualquer coisa e depois antes do descanso da noite.
Era chamada de Shemá que em hebraico é exactamente a primeira palavra... Escuta...
Desde pequeno as memorizou e as gravou no Coração.

ESCUTA, ISRAEL:
O SENHOR É O NOSSO DEUS.
O SENHOR É UM.
AMARÁS O SENHOR, TEU DEUS,
COM TODO O TEU CORAÇÃO,
COM TODO O TEU SER QUE VIVE E RESPIRA,
COM TODAS AS TUAS FORÇAS
.”

Yeshuah, desde pequeno, repetiu todos os dias estas palavras…

Recordo o que já num post anterior eu havia falado como, para o povo hebreu, o ser pessoa inteira é Ser Coração, ou seja, a pessoa é inteiramente capaz de decidir dentro de si a formação de si própria e a formação de Comunhão com aqueles que lhe estão próximos, construindo assim Comunhão com o seu Deus.
Ser pessoa inteira é Ser Respiração, ser Sopro com a Ruah alento de vida que o próprio Deus exala para que o ser humano viva e respire da mesma via do seu Deus. É por este respirar que o ser humano é capaz de se formar e se relacionar com o seu Deus.

Yeshuah, desde pequeno, repetiu todos os dias, esta oração…