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Olhei para ver...


Olhei para ver atrás de mim
pedaços que fui sem nunca ser

Olhei para ver que ali não estava
pedaços que fui e agora não vejo em mim

Olhei para ver
Vi com as cores do tempo que as não tem
vi as mãos de uma criança a moldar o pão que eu sou
pão que eu sou e vejo hoje em mim
Nessas mãos vi-Te e amei-Te
Vejo-Te e amo-Te
segredaste-me que essas mãos não são Tuas… são minhas

meu Amor
meu Rei
meu Tudo
meu sem o seres que Te quero Dono meu sem nunca o quereres ser
a não ser pelas lógicas sem lógica do Amor

meu Amor
meu Rei
meu Tudo
Dono das minhas mãos de criança
que moldas comigo o pão que eu sou…

7... Yeshuah... conta-nos uma dessas parábolas





Não há outra intenção senão a de ajudar a entrar na lógica do já presente Reino do Abba a acontecer. É o que significa parábola… ajuda-nos a aproximar-nos e a mergulhar num Reino que não é uma outra vida que virá depois, mas um jeito de viver a partir do mais íntimo da vida de cada pessoa, agora…

Se fosse hoje, e na nossa cultura, talvez Yeshuah começasse assim:
- O Reino de Deus é como esta história que vou contar:
Era uma vez um dono de uma terra, que saiu, logo ao amanhecer, para contratar trabalhadores para a vindima…
(Mt 20, 1-15)



Além destas histórias terem cenários da vida que todos viviam ou conheciam bem, como a cultura deste povo tem um jeito de pensar especialmente diferente do que estamos habituados, com muita facilidade atribuem a personagem e realidades, um forte significado simbólico.
Assim, o proprietário de uma terra, ou vinha, assim como a personagem do pai ou do rei noutras parábolas, era associado espontaneamente, pelas pessoas que o escutavam, ao próprio Deus.
A imagem da vinha é associada a Israel.
Uma vindima, tal como uma colheita noutras parábolas que conta, ou também os banquetes, fazem lembrar os últimos tempos.

Um dos factos desconcertantes desta história é que o dono do terreno, como qualquer outro proprietário deste tempo, viveria em alguma grande cidade, e o costume seria de apenas visitar a vindima enquanto estivesse a decorrer. A função de procurar e contratar trabalhadores era dada a um administrador e a situação comum era, logo pela manhã e unicamente neste momento, este contratar o número já pensado de operários necessários.

Yeshuah, nesta parábola, conta como é o próprio dono que fala directamente com os que quer contratar, ao amanhecer…
… volta a sair à praça a meio da manhã, buscando mais alguém que esteja sem trabalho.
… sai novamente no início da tarde.
… novamente a meio da tarde volta a sair à praça.
… e, por incrível que pareça, no final da tarde, sai novamente e encontra ainda ali quem procura que os contrate…
“- Porque estão aqui todo o dia parados?
- É que ninguém nos contratou.
- Venham também para a vinha.”


Parece que nunca se cansa de “sair” em busca de quem busca dignidade para viver, em busca de quem lhe dê trabalho e por ele um denário para que possa levar pão para a família.
Andamos uma vida inteira sempre em busca de alguma coisa, muitas vezes sem perceber que é Alguém que buscamos e esperamos que nos busque.
Este dono da vinha busca sem se cansar por quem o busca, sai de si vezes sem conta à minha procura… à tua procura.

Durante todo o resto da parábola não se fala sobre o trabalho da vindima.

Mais parece que não procurava tanto quem nela trabalhasse… mas quem nela ENTRASSE… tal como noutras parábolas em que Yeshuah fala do banquete.

É desconcertante o final da história que vira do avesso todas as nossas lógicas.
Segundo a nossa lógica, se trabalhamos muito, merecemos uma retribuição, se trabalhamos menos, merecemos menos. Se estudamos muito, se temos umas quantas licenciaturas, mestrados doutoramentos temos direitos que outros não poderão ter… se somos mais inteligentes, ou se temos muita esperteza merecemos mais do que outros… se rezamos mais missas ou mais terços temos mais herança de céu do que outros que só sabem amar, por exemplo…
… mas as “lógicas” do Reino nada têm a ver com merecimentos ou recompensas por uma boa folha de serviços prestados…

Yeshuah continua…
“Ao entardecer, o dono da vinha diz ao seu administrador:
«Chama os trabalhadores e paga-lhes o dia de trabalho, começando pelos últimos até aos primeiros»”

É que com os primeiros contratados havia-se acordado o pagamento de 1 denário.
Os últimos, os que haviam chegado ao fim do dia, todos os vêem receber 1 denário… os primeiros calam-se e esperam pela sua vez, porque esperam agora receber mais, por mais terem trabalhado, tendo suportado o peso de todo o dia e de todo o calor. Ao chegar a sua vez é 1 denário o que recebem.
Murmuram contra o dono da vinha, ao que este responde:
“Amigo, não estou a ser injusto contigo.
Não combinámos que receberias 1 denário?
Então, leva-o e vai.
Eu quero dar ao último o mesmo que te dei a ti.
Não posso fazer o que quero com aquilo que é meu?
Ou vês-me com olhos maus só porque eu sou bom?”

É, Yeshuah. Sento-me aqui contigo enquanto nos falas… ainda agora nos contas esta parábola, ainda nos deixas a pensar…

6... Como falas, Yeshuah?...


Terá cerca de 32 anos e decide quebrar aquela união vital, tão séria, tão importante na cultura do seu povo, afastando-se da povoação onde tinha nascido e das seguranças da casa da família que o havia gerado.
Teve que ser muito grande o impacto que teve na vida de Yeshuah, ter conhecido e vivido tão perto de João, o baptista.

Yeshuah terá cerca de 32 anos e vai morar em Cafarnaum, depois de se saber da morte do baptista, vai morar em casa de dois irmãos chamados Simão e André que tinha conhecido no grupo dos que escutavam João.

Cafarnaum era muito diferente de Nazaré. Cafarnaum tinha mais habitantes, possuía bons acessos a toda a Galileia e ficava nas margens do lago de Genesaré.
Terra de gente modesta, em que as famílias têm as casas ao mesmo jeito das de Nazaré, em torno de um pátio comum.
Vivem do campo, das vinhas, mas sobretudo da pesca, que era abundante nesta zona norte do lago. Os pescadores saem para o mar todas as noites e, tendo apanhado algum peixe seguem um pouco para sul, para Magdala que é um porto com grande movimento de descargas, por possuir fábricas que salgam o peixe.

Yeshuah simpatiza com estas famílias de pescadores de Cafarnaum, Betsaida, Magdala e outras aldeias… muitas destas povoações já não lhe são estranhas, talvez já as tivesse percorrido em busca de trabalho, por causa do seu ofício de artesão.
Parece que evita as cidades grandes.
É por estas pequenas povoações que passa, nunca ficando por muito tempo… é que parecia levar um fogo dentro dele, de urgência em dar a notícia boa do Deus, Pai, presente… libertador
Passa pelas aldeias porque é aqui que o povo vive mais intensamente a humilhação, a pobreza, deserdado, despojado do direito de desfrutar da terra oferecida pelo seu Deus, maltratado por todos os poderosos.
É aqui que Yeshuah sente a urgência de dar a notícia boa de que Deus defende aqueles que ninguém se arrisca ou se interessa em defender… são estes os predilectos do Abba.
É o Deus que continua fielmente a ocupar-se e a preocupar-se com o seu povo mais “pequeno”, e que deseja como ele, que viva com dignidade.

E o que dizia Yeshuah a toda a gente?… Como explicava a todos o que sentia e experimentava sobre este Deus Abba?...



Uma das maneiras que usa para falar é através de parábolas.
Parábola é um história simples, pequena, fácil de memorizar… com histórias assim, Yeshuah, faz com que quem o escuta repare em aspectos simples do dia-a-dia, comparando-os com o Reino de Deus já presente.
Até parece dizer que, mais que uma comparação, tudo o que vemos todos os dias nos revela como o Reino já está presente, já acontece, já está a germinar.
Até parece dizer como é preciso entrar neste movimento em que tudo à nossa volta nos diz que o Reino está aqui, mas é preciso saber descobri-lo bem e apanhar-lhe o ritmo, mergulhando na consciência da presença dele, vivendo hoje e agora segundo os critérios dele.
É do coração da vida quotidiana, pisando o mesmo chão e comendo o mesmo pão deste povo que também ele é, que Yeshuah fala do Deus libertador. Faz assim “descer” o Deus de Israel até à mesa dos pobres, até ao mais íntimo e simples da vida de cada dia.

Deus “vê-Se” nas sementes, na maior das árvores, na terra de cultivo, nas colheitas…
Deus “toca-Se” nas flores do campo e nos pássaros…
Deus “olha-Se” no pai exageradamente bom com os filhos bons ou maus, e no patrão interessado em dar oportunidades para colaborar no trabalho, com um sentido e uma lógica de retribuição e de justiça tão diferente da nossa…
Deus “contempla-Se” na mulher que usa o fermento para o pão, e também naquela que varre a casa à procura do melhor que tinha…
Deus “saboreia-Se” no banquete, na festa onde há sempre lugar para todos, para onde ninguém irá com vestes de penitência, mas as vestes da alegria do perdão…
Deus “revela-Se” na preocupação exagerada de um pastor por uma única ovelha, num rebanho de 100…
Deus “descobre-Se” nos tesouros enterrados e esquecidos…

Deus não está longe, está perto, está aqui, está completamente dentro da tua vida e da minha vida… completamente comprometido em ser vida dentro da tua vida e dentro da minha vida…

Até já…