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Falta de vocações em stock


Faltam-nos vocações em stock… ó Deus bom, que tal enviares aí uma meia dúzia de pacotes de doze daqueles com etiqueta a dizer “Padres”? É que estamos mesmo aflitinhos!...

Confesso que é sempre estranho para mim, ver a minha Igreja assim “aflitinha” por falta destes seres superiores que parecem viver num outro planeta qualquer, e é preciso quase mandar encomendar ao nosso bom Deus. E já pouco falta para andarmos todos a fazer uma adaptação qualquer dos rituais da chuva, para que as ditas “vocações” nos caiam do céu como chuva.

“Pedi, pois, ao senhor da seara, que mande trabalhadores para a sua seara….”

ui... desculpem… é que esta passagem, da Notícia Boa que Mateus nos escreve, começa antes, então vamos começar por aí:
“Jesus percorria as cidades e as aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando a Boa Notícia do Reino e curando todas as feridas e doenças. Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor.
Disse, então, aos seus discípulos: «O campo cultivado é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, ao senhor do campo cultivado para que envie trabalhadores para o seu campo.»”
Mt 9,35

Jesus percorre, ensina, proclama, cura, contempla, compadece-se, pede para que outros vivam o mesmo percorrer, ensinar, proclamar, curar, contemplar, compadecer, e consequentemente o mesmo pedido. Até parece um desabafo, no momento, plenamente humano de Jesus como que a dizer, sozinho não consigo chegar e salvar o mundo inteiro embora o deseje tanto.

A semente foi lançada… o tempo da colheita está próximo, está aqui, e a seara madura precisa de trabalhadores para todos os trabalhos que a colheita exige.

Sabes o que vejo?
Jesus a entrar em qualquer praça, em ruas, em escritórios e gabinetes, em estabelecimentos de ensino, entra nos transportes públicos ou pessoais, entra em centros comerciais, entra em tantos lares e, mais ainda, entra nas “sinagogas” de hoje e enche-se de compaixão, pois a multidão que mais vê é “cansada e abatida, como ovelhas sem pastor.”

Até tenho vontade de te propor aqui um desafio. Se tens o hábito de celebrar a eucarística, essa festa que é reviver as tantas refeições de Jesus com os seus, em que o sinal mais forte é partir e repartir o pão e o vinho sobre a mesa à volta da qual TODOS estão sentados… propunha-te então o seguinte:
Repara nas expressões de todos aqueles que estão à tua volta, principalmente durante o alegre canto do Aleluia… um cântico que certamente todos intuímos que seja de júbilo, aproximando-se aquele momento tão especial de proclamar e escutar a Boa Notícia escrita por aqueles que tocaram Jesus e o olharam nos olhos.
Repara nas expressões dos rostos que te rodeiam… contempla-os a todos...
Eu reparo, vezes e vezes e vezes sem conta… e nada melhor me ocorre do que isto:
compaixão pela multidão “… pois estava cansada e abatida…”
E penso naquela anedota tão cheia de verdade, que há anos me contaram, de uma mãe que levou à eucaristia a sua filhota pequena, de 4 anos… No momento certo a mãe retirou-se do seu lugar para receber o seu pedaço de pão, sinal da partilha e da sua comunhão no Corpo de Cristo… ao regressar ao seu lugar, a filhinha fica a olhar muito séria para a mãe, e pergunta-lhe: “Mãe, estás triste! Doeu muito?”

E é raro ver alguém sair, diferente... destas casas grandes, onde a multidão às vezes é incontável e sem nome, diferente… mas como entram, assim saem, às vezes até a fazer algum mau comentário disto ou daquilo.
É raro ver alguém ficar por ali à saída da mesa, a consolidar a Comunhão com quem se celebrou a festa da vida e da comunhão do meu pão partido, com quem é bom estar, sorrir e dar um abraço… estar com… realizar e viver cá fora o que se simbolizou e cantou lá dentro!

Afinal de contas… além de padres, também precisaríamos, já agora, de vocações paroquianas… porque não? O que será mais urgente, afinal? Está mais do que visto como os nossos grandes “templos” se esvaziam de ano para ano… e quem os preenche ainda? Na sua grande maioria é uma faixa etária que, há poucos séculos atrás, nem sequer existia.

Já não espaço, nem hora marcada, nem motivo forte o suficiente para ocupar aqueles bancos compridos, em casas enormes onde cabem multidões sem nome, espaços onde é difícil qualquer sentimento de pertença, onde perdura ainda um pouco de espécie de superstição… “se faltarmos à missa, vamos para o inferno”…
Porque será que esta ideia já não “entra”?

Os padres são poucos, mas os paroquianos são cada vez menos… pedi ao senhor dos templos que acabe com esta brincadeira.
É que precisamos de Famílias em que cada um tem nome, vida, Coração, olhar, sorriso, e não de “palácios” onde se junta uma multidão, desligada... às vezes até gravemente desunida dentro de si própria.

Tantos desabafos já ouvi… “o que será da nossa Igreja?… Há cada vez menos padres… como vai ser no futuro?...”
Eu acredito que o futuro há-de ser o melhor de todos!... Cada vez mais verdadeiro!

Jesus, o Yeshuah nazareno anda por aí, longe de todas as leis… longe de todas as normas, longe de todos os sistemas… longe de todas as hierarquias e cadeirais… longe de tudo o que é “oficial” e de tudo o que é “politicamente correcto”, porque a maior Lei que trás dentro dele é amar… amar… amar… e isso derruba todas as lógicas que impeçam que o amor aconteça… Porque seria ele agora diferente do que foi? Diferente daquele Jesus de quem nos falam Paulo, Marcos, Mateus, Lucas, João, Pedro?...

Quem é o nazareno escrito por quem o tocou?
Ele não usava coroas ou qualquer outra coisa na cabeça, não usava mantos de púrpura, nem sapatos finos, nem túnicas bordadas a ouro, não tinha anel no dedo para significar algum poder… Usar isto ou aquilo, agir assim ou assado "para não parecer mal"...
Quem é o nazareno que foi escrito por quem o tocou?
Quem foi… quem é?
Se acreditamos que ele está vivo, que Deus o levantou de novo, erguendo-o da morte, para o Seu Coração… Se ele está vivo, quem é o nazareno agora?

Com que “companhias” anda ele, quem são aqueles que verdadeiramente o seguem encantados, com quem se compadece ele, contemplando a multidão, pois vê como está “cansada e abatida, como ovelhas sem pastor”?
O que é verdadeiramente a seara…? …o campo semeado, à espera de braços fortes e fracos, pequenos ou grandes, negros, brancos, vermelhos, amarelos, braços de mulheres ou homens ou jovens ou crianças ou gente amadurecida pelos anos vividos, braços de trabalhadores… braços de gente empenhada com o Coração a arder de vontade de dizer que o Reino está aqui?

É isto que pedimos ao dono do campo semeado
Ao Deus do Campo da Festa da Vida,
Ao Abba da Casa da Comunhão feliz…:
- Dá-nos gente com um nome e com um Coração apaixonado pela Tua Casa
e que fale dela, actue por ela, viva e se alegre por ela,
que se compadeça e cure
e contagie de vida verdadeira e cheia de sentido as multidões cheias de gente sem nome e de Coração triste, “doente” e ferido!...

No rosto de Jesus



No rosto de Jesus vemos o rosto mais divino do ser humano.

No rosto de Jesus vemos o rosto mais humano de Deus.

No rosto de Jesus vemos o ser humano novo, renascido da nova criação reconciliada consigo mesma e com Deus.

No rosto de Jesus todas as palavras são a mais profunda realidade que ele próprio vive e acredita… não fala de Teologia, com termos e linguagem teológica… só o escutamos falar de vida… da chuva, do sol, do vento, dos pássaros que não semeiam nem colhem, da sementeira e dos espinhos, sabe como brincam as crianças… de dentro da vida fala, vivo, de dentro da vida anuncia o que vê e vive, o Reino a nascer reflectido em toda a Criação em formação…

No rosto de Jesus vemos um mestre, não ao jeito dos rabinos do seu tempo, ou dos “rabinos” de qualquer tempo que criam e interpretam Leis e normas e ritos muito de acordo com os vazios das suas artes sem sentido e somente para os que gostam de ocupar os melhores lugares da sociedade… em que a vontade de Deus que anunciam é mais a sua que a de Deus…

No rosto de Jesus vemos um mestre não de leis escritas, mas de vida vivida, na vontade do Abba buscada e encontrada em cada rosto, em cada situação, e certamente também das leis como caminho somente, como meio tantas vezes tosco do grande desejo de fidelidade do Coração humano diante do Amor, como caminho mas não como um fim que se esgota em si.

No rosto de Jesus percebe-se o Coração inteiramente humano e livre. Um homem para quem as leis já não lhe chegam, e até o poderiam impedir de amar mais, e por isso as supera a todas.

No rosto de Jesus saboreia-se a evidência da verdade mais profunda de todas as coisas

Muros de papel...



Viver é uma arte muito complicada…
… é complicada por ser tão simples.

Muitas vezes vivemos grande parte deste tempo a desejar o que não somos
Outra grande parte a desejar o que não temos
Outra grande parte a não acreditar no que somos
Outra grande parte a não acreditar no que nunca teremos
E quando chega o momento de sonhar, pensamos ser mais seguro esconder-nos atrás de uma máscara qualquer…
Máscaras que fazem de nós o que não somos, nem queremos… mas o que os outros querem
Quase sempre se pode morrer de “sede” e “fome” atrás desses muros com olhos em que nos transformamos, com um sorriso desenhado de modo tosco. Achamos quase sempre que há-de ser qualquer coisa fora de nós a derrubar esse muro… mas o passo a dar é sempre nosso.
Como?...
A resposta está dentro e não fora. Do lado de dentro parece um muro de aço impenetrável e sem solução…
Só depois de o derrubar é que se vê o quanto era fraco, afinal, esse muro de papel… sem consistência…
Um muro… uma máscara feita de papel
As máscaras de papel são ridículas, vistas do lado de fora… muros de papel são absurdos quando são tão fáceis de derrubar em segundos.

E morre-se de “fome” e “sede” por causa de máscaras de papel.

Abba nosso…
Que fazemos nós da Tua imagem?
Que fazemos nós do Teu reflexo?

Porque teimamos em “criar-Te” à nossa imagem, desenhar-Te à nossa semelhança? Quando somos nós que nos parecemos contigo… tal como os filhos se parecem com os pais…

Abba nosso…
Que fazemos nós da Tua imagem?

Temos tanta sede de verdade… da Tua Verdade… de Ti
Temos sede de Ti
Temos sede da água viva que, de dentro de cada um de nós, derrete todas as máscaras alegres ou tristes, ou não sei quê…
Temos sede de nos parecer conTigo
Queremos ser a mais profunda verdade do que somos… uma Família.

Uma Família conTigo…
… aí, onde o final do “filme” é o que nós já sabemos:
É onde o Amor vence sempre.