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Se assim, por mim, alguém passa

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És o meu Mar…
Se me deixo moldar por Ti, docilmente, em pequeninos grãos me faço
Se resisto à doçura da tua água fico pedra dura que nada quebra
e se, assim, por mim alguém passa, corre o perigo de escorregar e magoar-se

És o meu Mar…
Se olho para Ti, nenhuma onda Tua, mansa ou forte, me arrasta sem que eu queira
nenhuma água forte me apanha sem que eu me dê conta

Se deixo de Te contemplar, estar tão perto de Ti é perigoso
porque as Tuas águas podem chegar a ser violentas, se não Te olho nos olhos…
… se não Te recebo, onda após onda, que nunca páras

És o meu Mar…
Se me deixo moldar por Ti, docilmente, nunca poderei estar só
serei uma praia com mil grãos de areia
e se, assim, alguém passa por nós, seremos caminho seguro que não fere os pés
seremos lugar sereno onde, quem passa, pode sossegar e contemplar-Te
olhar-Te nos olhos e dizer:

És o meu Mar…
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|8| Porque te amamos e queremos dizer-te, Jesus, chamamos-te PALAVRA, BOA NOTÍCIA

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Ainda me lembro de, nos tempos de escola, ter aprendido como a linguagem verbal é um dos mais importantes veículos da comunicação entre pessoas.
É bem verdade que, sem nos apercebermos muito bem disso nós, seres humanos, evoluímos sempre em torno das palavras que se dizem, escrevem, se materializam em mil coisas que fazemos a partir delas.
Tanta Cultura, tanta Sabedoria, tanta Reflexão, tantos Estudos transmitidos através de gerações e gerações… até aquele simples folheto de instruções tão útil (quase sempre na nossa língua também, eheh) que consultamos quando chega a hora de montar aquele objecto que nos chega às mãos desmontado, ou aquela máquina que é preciso pôr a funcionar, sem aquelas preciosas instruções perderíamos muito mais tempo.
Parece que tudo o que fazemos, desde que nos levantamos até que o dia termina está embrulhado em palavras.
Existimos relacionando-nos uns com os outros, em permanente comunicação, e quase sempre, quer seja no emprego nas funções que exercemos, quer seja expressando com os nossos mais íntimos aquilo que vamos sentimos, usamos tantas vezes as palavras para o concretizar.
As palavras metem-se na nossa vida, às vezes com tanta profundidade que não é estranho ouvir:
“O que disseste magoou-me!”
“A notícia que me deram arrasou comigo”
“Aquele boato que espalharam sobre mim quase destruiu a minha carreira profissional”
São palavras que nos “destroem”, que fazem desabar o nosso mundo.
Ou as palavras que nos levantam de novo:
“As palavras que me escreveste naquele dia deram-me tanto ânimo, parece que ganhei nova vida”
É espantosa a força que provoca em nós uma frase:
“Que beleza tens dentro de ti!”
ou
“Já não suporto mais olhar para a tua cara”

As palavras têm o incrível poder de tornar o “ambiente” entre duas pessoas arejado ou poluído, fresco ou irrespirável, animador ou esmagadoramente cruel. Podem revigorar-nos ou encher-nos de revolta.

Já os gregos antigos pensavam muito a sério sobre a força que estava por detrás da palavra. E, acerca dela, chegaram a dizer que por detrás de tudo o que conhecemos havia uma realidade escondida aos nossos olhos, era como que o motor que fazia girar o mundo e era a causa de muitas coisas. Chamavam a essa realidade de Logos.
Era como o ritmo de uma música que, apesar de estar sempre lá, e ser fundamental para estruturar a melodia, o nosso ouvido nem sempre se dá conta da sua presença.

Os judeus antigos também pensavam nisto. Isso revela-se em duas Tradições de pensamento que podemos encontrar no Antigo Testamento.
Deus usou a Palavra para criar o mundo. Podemos ler isso no 1º Capítulo do livro do Génesis, esse poema belíssimo onde o escritor repete: “… e Deus disse:… e foi feito. E Deus viu que era bom!”
Outra Tradição começa a personificar a Palavra dizendo que ela é a Sabedoria de Deus.
“Saí da boca do Altíssimo e como uma nuvem cobri a terra (…)
Entre todas estas coisas busquei um lugar de repouso, e herança onde pudesse habitar.
Então o Criador do universo deu-me as suas ordens,
e aquele que me criou montou a minha tenda.
E disse-me: «Habita em Jacob
e toma Israel como tua herança».
Ele criou-me desde o princípio,
antes de todos os séculos,
e não deixarei de existir até ao fim dos séculos. (…)
Enraizei-me num povo cheio de glória,
na parte do Senhor, no meio da Sua herança.”
Sir 24,3.7-9.12






É espantoso fazer esta caminhada até nos depararmos com o belo e profundo poema, um hino escrito no início do Evangelho Segundo João.
Dezenas de anos depois de Jesus de Nazaré ter morrido e ter ressuscitado, a força da sua vida fez nascer aquelas palavras, talvez já longe de Jerusalém, longe de Israel, no meio da reflexão e vivência fraterna de alguma comunidade de discípulos que as escreveu.
E é assim que começa, como quem desenha um pórtico de entrada espantosamente esculpido, de palavras vivas:

“No Princípio existia a Palavra,
e a Palavra estava com Deus,
e a Palavra era Deus.
Ela estava diante de Deus no Princípio.
Através dela todas as coisas foram feitas;
sem ela nada do que foi feito existiria.
Nela estava a Vida,
e essa Vida era a Luz de todos.
A Luz brilha na escuridão,
e a escuridão não a apagou.
(…)
A verdadeira Luz que a todos dá Luz
estava para chegar ao mundo.
Ela estava no mundo,
e apesar do mundo ter sido feito por ela,
o mundo não a reconheceu.
Veio para o que era seu,
mas os seus não a reconheceram.
Mas, a todos os que a receberam,
deu-lhes autoridade para se tornarem filhos por adopção
gerados por Deus
(…)
A Palavra tornou-se Carne
e montou a sua tenda entre nós.
Vimos a sua glória,
a glória do único Filho gerado
que veio do Pai,
pleno de Graça e Verdade.
(…)
Da sua plenitude
todos recebemos Graça no lugar da graça já dada.
Porque a lei foi dada através de Moisés,
Graça e Verdade vieram através de Jesus Cristo.

Nunca ninguém viu Deus,
mas o único Filho gerado por Ele,
que é Deus e está ao colo do Pai,
esse tornou-O conhecido.”

Jo 1,1-18









E, como não se pode falar destes escritos nascidos da reflexão e vida das primeiras comunidades de discípulos de Jesus, sem ter diante dos olhos toda a História caminhada, recordada, transmitida e escrita do povo de Israel com o seu Deus, então coloco aqui as palavras que já haviam sido escritas sobre o “Princípio”.

“No Princípio, Deus criou os céus e a terra.
A terra não tinha forma e era vazia,
a escuridão cobria a superfície do abismo
e a Ruah de Deus pairava sobre a superfície das águas.
E Deus disse: “Que a Luz seja feita”
E a Luz foi feita.
Deus viu que a Luz era boa, e separou a Luz da escuridão.”
Gn 1,1-4

Dá vontade de imaginar aqueles que, de entre os discípulos de Jesus das primeiras comunidades, tinham o carisma de colocar por escrito esse modo de experimentar as coisas à maneira hebraica, o fervor de uns poucos com sangue e vida judias a correr-lhes nas veias, sangue cheio de uma História caminhada, de um Deus com o seu amado povo… estariam provavelmente sentados à mesma mesa onde momentos antes se havia partilhado o pão com aqueles a quem olhavam nos olhos e chamavam de irmãos e irmãs no mesmo Espírito-Ruah de Deus, tendo o mesmo Pai de Jesus… e começarem a escrever sobre esta Notícia Boa que os queimava por dentro, tanto que não a conseguiam guardar dentro sem a “gritar” em palavras vivas que quebrassem a força e a dureza estática do Tempo.
Verdadeiramente acredito que a Ruah de Deus soprou-lhes ao ouvido do Coração o que haveriam de escrever.
E assim começaram…
“No Princípio…”

Já haviam sido as primeiras letras, as primeiras palavras a ser aprendidas na escola, repetidas vezes sem conta até estarem gravadas na memória… as do Livro do Princípio (Génesis)
Começar a escrever uma notícia nova desta maneira é, para um judeu, quase como voltar ao berço e reaprender, reescrever tudo de novo de maneira nova, para que nunca seja esquecido jamais o caminho percorrido até ali.
Era preciso marcar este Novo Tempo da Humanidade ressuscitada com Cristo como quem fala do Tempo da Nova Criação, inaugurado pelo novo Adão.

“No Princípio existia a Palavra.”
Parece fundamental afirmar o lugar que a Palavra tem na nova Criação, porque em toda a História se vêem, agora, sinais da sua presença.
E a presença desta Palavra traz Vida, uma Vida que é como Luz que nenhuma escuridão consegue anular, abafar ou apagar.
E, se mais adiante, encontramos a frase: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” na boca de Jesus, percebemos bem quem é esta Palavra viva.
O poema prossegue, como que a narrar a história desta Palavra que traz em si a Vida e a Luz.





Tal como a Sabedoria dos tempos antigos, a Palavra vem habitar no meio do seu próprio povo, aí monta a sua tenda, e mais que isto, faz-se Carne, faz-se humanidade da mesma Humanidade do seu povo.
Todos aqueles que iriam ler estas palavras iriam entender, cada um a seu modo, a força que nelas traz, tanto judeus como gregos. A Palavra Criadora saída de Deus, a Sabedoria personificada, e também o Logos, tinha-se vestido de Carne, tinha-se feito homem.
E porque esta Palavra é um homem, Jesus de Nazaré, é passível de ser acolhido ou excluído pelos seus.
Aqueles que o acolhem tornam-se com ele Palavra, Vida, Verdade e Caminho, tornam-se filhos adoptivos gerados por Deus. Tornam-se irmãos daquele que está ao colo do Pai. Tornam-se irmãos daquele que é Palavra porque com todo o seu ser diz quem é o Pai.

Mais do que um “veículo de comunicação” entre Deus e aqueles que se deixam gerar por ele como filhos, Jesus é aquele que nos capacita para O acolhermos como Pai, é aquele que reflecte no seu próprio rosto e em toda a sua vida a Luz d’Aquele que o gerou inteiro e plenamente.

E como é que este Jesus-Palavra do Pai O diz?

Jesus fala do seu Pai actuando
- com misericórdia,
- com honestidade,
- em todas as suas opções pelos fracos, pobres e denunciando os opressores
- com a sua fidelidade
- com a sua liberdade para bendizer e maldizer, porque nada pode ser obstáculo para fazer o bem
- com o seu querer o fim da desventura dos pobres e desejando a felicidade dos seus
- no seu acolhimento dos pecadores e excluídos
- com a sua alegria que repetidamente celebra à mesa da refeição
- com os seus sinais e gestos, um jeito modesto de tornar presente, também assim, a dinâmica do Reino de Deus já presente a curar e a libertar
- com a sua confiança num Deus Bom e próximo a quem sente e chama de Pai.

Jesus de Nazaré diz este Pai-Deus com o anúncio do Seu Reino, com a lógica do Seu agir.
Jesus de Nazaré diz este Pai-Deus com a sua Vida Toda, assumindo as consequências de todas as opções e denúncias com que o levaram à morte.
Jesus de Nazaré diz este Pai-Deus com a resposta que recebeu das mãos d’Ele, a resposta que o Pai não sabia calar, a Ressurreição do Filho, confirmando assim e assumindo como Sua, toda a sua vida.

Este homem, esta Palavra de Carne revestida agora de Ressurreição é verdadeiramente uma Boa Notícia.

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As palavras que mais se escrevem por cá

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Olá Amigos.
Estou a preparar, finalmente, o último post sobre os nomes de Jesus
Será para falar de Jesus que é A Palavra.





Para já... deixo-vos esta sopa de palavras cheias de letras, porque encontrei este programa engraçado que "pesca" as palavras que por aqui passam com mais frequência ou menos, e as dispõe de maneira bonita.





Dou-te um abraço Bom e um... Até já!

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