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Para ser grande

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"Para ser grande, sê inteiro
nada teu exagera ou exclui
sê todo em cada coisa
põe quanto és no mínimo que fazes
assim em cada lago a lua toda
brilha
porque alta vive"

Ricardo Reis
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|1| O semeador saiu para semear

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“Jesus falou-lhes de muitas coisas em parábolas: «O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, umas sementes caíram junto do caminho: e vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram sobre as rochas, onde não havia muita terra: e logo brotaram, porque a terra era pouco profunda; logo que o sol se ergueu, foram queimadas e, por não terem raiz, secaram. Outras caíram sobre os espinhos, os espinhos cresceram e sufocaram-nas. Outras caíram sobre a terra boa e davam fruto, uma cem, outra sessenta, outra trinta. Aquele que tem ouvidos, ouça!»”
Mt 13,3-9

Antes de mais, que acontecimento aparece escrito neste evangelho, antes de Jesus contar esta parábola?
Jesus estava a falar às multidões e a mãe e os irmãos esperavam fora para falar com ele. Mandaram recado por alguém para que chamasse Jesus. Porque será que não “entraram”? Deixo a pergunta no ar.

Qual seria o assunto que a família de Jesus queria tratar com ele? Será que já reparámos que a mãe e os irmãos não estavam ali no meio da multidão dos discípulos a escutá-lo? Ficaram “à porta” porque provavelmente queriam chamá-lo à razão, queriam provavelmente levá-lo de volta para casa porque a sua fama começava a espalhar-se por aí como tresloucado ou, demasiado “revolucionário”, estava a colocar em risco a própria vida diante da política e religião dos grandes do seu povo quando denunciava as suas injustiças.

Depois disto:
“Naquele dia Jesus saiu de casa e foi para junto do mar. Juntaram-se a ele multidões”
Junto do mar, Jesus subiu para um barco e afastou-se da margem para que todos o vissem e ouvissem sentados na praia.

Foi neste AMBIENTE que Jesus começou a contar a parábola.
NAQUELE dia, depois daquele acontecimento, SAIU de CASA.
Parece que o escritor nos quer dar uma pista sobre a quem se assemelha o tal semeador que vai aparecer na parábola. Porque é assim que a parábola começa… “O semeador saiu para semear…”

Mas, para que contava Jesus esta parábola?
Jesus usava parábola que, como já vimos, são “aproximações” àquilo que ele quer mostrar. E o que ele quer mostrar sempre é a maneira como Deus “Se mexe”, como actua, do que gosta, como é que Ele Se faz presente, como é que nós O podemos tornar presente.
Aqui Jesus diz que este Agir de Deus é como um semeador que SAI a SEMEAR, e o que é desconcertante é que ele não escolhe o lugar para onde lança a semente.

Ou este semeador é pouco experiente, ou faz-se de pouco experiente nesta tarefa…

Quem trabalha a terra, nem que seja uma pequena horta, sabe bem em que lugar do seu terreno os legumes irão crescer bem.
Porque é que este semeador lança assim a semente para o ar, sem se preocupar com o lugar onde ela cai? Certamente conhecerá bem o seu campo.
Parece que acredita que, mesmo ali, naqueles lugares mais “improváveis” poderá porventura germinar alguma semente.

Não sei porquê, mas imagino este semeador como uma criança divertida a atirar a semente para o ar e a vê-la voar sem se importar com o lugar onde cai. A sua preocupação é lançar a semente.
Alguma há-de germinar, seja lá onde for.

Não devo colocar-me aqui a fazer suposições sobre o que significará a semente, o que significará este ou aquele terreno, o que será o campo todo do semeador, porque eu estaria a retirar-lhe toda a força e a desviá-la do seu objectivo. Deixo-a assim para cada um de nós ficar a pensar, porque esse é um dos objectivos das parábolas…:
- Que o que a Parábola tem de desconcertante nos deixe a pensar.

Que Deus BOM nós temos!
Esse Deus cujo rosto Jesus vai desvendando aos poucos. Só Jesus nos pode dizer como é o Pai dele… e com que encantamento ele fala do Pai!...
A Sua abundância connosco e a Sua esperança em nós é desconcertante.
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|0| Porque é a caminho que se faz caminho

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Vivemos um Tempo em que se sentimos a necessidade de perceber tudo, entender os mecanismos das coisas que acontecem. Percebemos, por exemplo, a razão pela qual há muito gelo numa região, e outra é um deserto árido. E, um dia, até haveremos de encontrar a maneira de fazer nevar onde quisermos, depois de muito investigar, estudar, experimentar…
Quando nos colocamos diante do homem Jesus de Nazaré, colocamo-nos diante de um mistério. Quem disser que o conhece totalmente, que sabe todas as "coisas" acerca dele, é porque na verdade ainda não o conhece bem, podemos apenas ir intuindo através dos testemunhos escritos deixados por aqueles que viveram próximos dele, do Tempo em que a sua vida tinha os mesmos limites que a nossa. E vamos percebendo, tal como na experiência pessoal de cada um, que o conhecer alguém é sempre uma caminhada progressiva, que não pára nunca, se a relação se quer manter.


É preciso algum cuidado ao “olhar” para Jesus, porque ele não é um fenómeno, como a neve ou o gelo, que é preciso estudar e quase se pode prever.
Jesus de Nazaré é, antes de mais nada, uma pessoa que é preciso conhecer.


Como é que se conhece alguém?
Como é que se conhece alguém nas nossas vidas quotidianas?
Sem nos darmos conta o nosso olhar capta imediatamente, tantas vezes inconscientemente, o jeito com que a pessoa se veste, se calça, o cuidado preocupado ou despreocupado com a sua aparência. Observamos o que é que possui: que carro, pc, telemóvel. Que formação académica terá, que profissão exercerá. Quais serão os seus ideais. O que fará nos tempos livres. Que música apreciará. Como serão os seus amigos, que lugares gostará de frequentar com eles, quais serão os principais temas de conversa. Como será a sua família. Como terá sido a sua história pessoal.
E quando nos colocamos diante da pessoa de Jesus de Nazaré parece que nos esquecemos destes nossos “rituais” inconscientes para conhecer alguém.
Se Jesus de Nazaré é uma pessoa, porque não procuramos conhecê-lo um pouco ao nosso jeito tão humano? Sem grandes divagações ou constatações teológicas, antropológicas ou filosóficas, ou linguagens rebuscadas que hoje poucos se dão ao trabalho de tentar perceber. Que tal tentarmos isso?


O que temos para o fazer?
A Boa Notícia escrita com os nomes de Marcos, Mateus, Lucas e João.
Já tenho dito por aqui e volto a sublinhar: Não se pode seguir, aderir, amar a quem não se quer continuamente conhecer.
Podemos tentar conhecer melhor quem é este Jesus de Nazaré, de maneira especial através das parábolas que contava, os lugares ou ambientes onde as contava, porque as contava, a quem as contava, quem as poderia entender ou não…


Parábola, do grego “parábalô”, significa “aproximar-se”, aproximação a algo que se quer mostrar.
De que é que Jesus de Nazaré nos quer aproximar? Que quer ele nos mostrar?
Ao ler uma parábola é preciso o cuidado de não a retirar do seu contexto, ou seja, Jesus conta-a num lugar a alguém enquanto outros escutam, provavelmente depois de alguma pergunta, comentário, acontecimento ou provocação que lhe foi feita.
E ao olhar com atenção começamos a ter a certeza de que não são histórias moralizantes que nos ensinam a sermos bonzinhos, não são receitas para “ir para o Céu”.


As parábolas levam em si uma força de tal modo desconcertante, muitas vezes provocante que, se a sua leitura não nos desconcertar, é porque não a estamos a ler verdadeiramente, por causa da quantidade enorme de vezes que as ouvimos já sem pensar muito nisso.
É preciso lê-la com olhos novos, como se fosse a primeira vez que a lêssemos, porque senão corremos o risco de deixar escapar o seu significado.



É um pouco isto que pretendo fazer… mais uma caminhada… com as parábolas nas mãos.
Todo o contributo da parte de quem estiver por aqui a ler em comunhão, é bem vindo. Nunca é demais a riqueza das vossas partilhas que agradeço sempre.


Um abraço a todos os que por aqui vão passando e vão fazendo parte também deste espaço…
… e parece que já lá vão 3 anos desde que o iniciei.


Até já
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