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nessa altura o meu pai amassava o pão com as mãos
batia com fragor a massa contra as tábuas lisas
esticava-a
dividia-a
envolvia-lhe o corpo esquartejado num sudário onde havia de esperar
inchando pelo lado de dentro
o abraço do fogo
e só depois descansava
e só depois o mundo despertava no aroma doce do pão transfigurado
chegava a casa ao despontar do dia
mesmo a tempo de acender o sol que havia de amassar-lhe o sono
batê-lo contra a cama escassa
esquartejar-lhe o sonho
incendiar-lhe uma fogueira por dentro
hoje sei tudo o que se pode saber sobre o pão
e sobre os pais que o tempo levedou à porta da fornalha
e sobre a farinha branca que se impregna na pele e nas sobrancelhas
e o sal e o suor residuais
no cheiro intenso da crosta fumegante
o milagre da transubstanciação
nunca faltou o pão na minha casa graças a Deus
nela habitava o mago que operava prodígios em Seu Nome
como parti-lo em silêncio sobre a toalha branca
e reparti-lo
enquanto a minha pele se esticava atrás do crescimento
para envolver a compreensão do mundo
Carlos Nogueira Fino
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