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de silêncio e de vagar

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"Quero que eles se alimentem,
semelhantes a frutos que se realizam,
de silêncio e de vagar.

Quero que eles chorem por muito tempo os seus lutos,
que prestem demoradas homenagens aos mortos,
porque a herança passa lentamente de geração para geração.

O que eu não quero é que eles derramem o seu mel pelo caminho.

Quero que eles sejam semelhantes ao ramo da oliveira,
que sabe esperar.
Quando forem semelhantes a ele,
começarão a sentir o grande balançar de Deus,
que vem como um sopro experimentar a árvore.
Ora os leva ora os traz,
da alba para o crepúsculo,
do Verão para o Inverno,
das searas que medram para as colheitas já enceleiradas,
da mocidade para a velhice,
e depois da velhice para os filhos novos.

Tal como acontece com a árvore,
não podes saber seja o que for do homem
se o desdobras pela sua duração e o distribuis pelas suas diferenças.

A árvore não é semente, depois caule, depois tronco flexível, depois madeira morta.
Para a conhecer é bom não a dividir.

A árvore é essa força que desposa a pouco e pouco o céu.

É o que acontece contigo
(…)
tu nem és aquele estudante,
nem aquele esposo,
nem aquela criança,
nem aquele velho.
Tu és aquele que se cumpre.

E, se sabes ver em ti um ramo que baloiça, bem pegado à oliveira,
hás-de nos teus movimentos gozar a eternidade.

E tudo à tua volta se tornará eterno."

Antoine Saint-Exupéry, Cidadela

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O Deus Familiar

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nessa altura o meu pai amassava o pão com as mãos
batia com fragor a massa contra as tábuas lisas
esticava-a
dividia-a
envolvia-lhe o corpo esquartejado num sudário onde havia de esperar
inchando pelo lado de dentro
o abraço do fogo

e só depois descansava
e só depois o mundo despertava no aroma doce do pão transfigurado

chegava a casa ao despontar do dia
mesmo a tempo de acender o sol que havia de amassar-lhe o sono
batê-lo contra a cama escassa
esquartejar-lhe o sonho
incendiar-lhe uma fogueira por dentro

hoje sei tudo o que se pode saber sobre o pão
e sobre os pais que o tempo levedou à porta da fornalha
e sobre a farinha branca que se impregna na pele e nas sobrancelhas
e o sal e o suor residuais
no cheiro intenso da crosta fumegante

o milagre da transubstanciação

nunca faltou o pão na minha casa graças a Deus
nela habitava o mago que operava prodígios em Seu Nome
como parti-lo em silêncio sobre a toalha branca
e reparti-lo
enquanto a minha pele se esticava atrás do crescimento
para envolver a compreensão do mundo

Carlos Nogueira Fino
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Contas

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Sabe-me bem saborear como o Criador de 1 sem nº de coisas
não sabe fazer contas
nem fazer de conta

Eu, às vezes, é que tenho a mania que sou + que Ele
porque imagino que sei fazer contas
pedir contas
e também prestar contas
e às vezes também sei fazer de conta
e… et cetera

Afinal de contas
vai ser preciso saber fazer – contas
ter – a mania que sou + que Ele
desaprender
e aprender
e deixar-me levar por aquela outra lógica/ outro Reino
que não tem nadinha de matemático…


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