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A quem fiz Dono e O Senhor de todos os meus dias


Yeshuah...
Fiz-te Dono e O Senhor de todos os meus dias
Aqueles de antes e os de depois

Também eu quero caminhar em frente,
de costas voltadas para o futuro contigo,
como quem tem os olhos sempre maravilhados com toda a tua fidelidade caminhada comigo
sempre, até ao hoje

É o que sempre levo nas mãos:
os teus dias com os meus dias

Acredito que se eu te levo comigo,
muito mais me levas tu contigo
Se fazes parte da minha história,
muito mais faço eu parte da tua História

Mostra-me essa tua delicadeza
disponibilidade
peito aberto à Ruah de Deus
Diz-me como é respirá-la... sempre...
Quero um pouco da atenção com que Ela atende, escuta, espera, cura
sempre saber reconhecer Apóstolos, Profetas,
Amantes da Família do Abba,
segundo o teu Coração, meu amado Yeshu.

tenho sempre fome e sede de profetas teus

Sem outra palavra




Sem outra palavra para mantimento
Sem outra força onde gerar a voz
Escada entre o poço que cavaste em mim e a sede
Que cavaste no meu canto, amo-te
Sou cítara para tocar as tuas mãos.
Podes dizer-me de um fôlego
Frase em silêncio
Homem que visitas
Ó seiva aspergindo as partículas do fogo
O lume em toda a casa e na paisagem
Fora da casa
Pedra do edifício aonde encontro
A porta para entrar
Candelabro que me vens cegando.

Sol
Que quando és nocturno ando
Com a noite em minhas mãos para ter luz.

Daniel Faria




Desencaixado



No tempo de Jesus, (tal como em todos os tempos) havia várias propostas para alguém se aproximar de Deus.

- Saduceus = Dedicavam-se ao culto e sacrifícios no Templo, e a obras da religião. Deste grupo faziam parte os Sacerdotes.
- Fariseus = Empenhavam-se em seguir e fazer seguir a Lei religiosa, cumprindo-a à letra.
- Essénios = Praticavam a ascese e embora se agrupassem longe das cidades procuravam a salvação individual.
- Zelotas = Procuravam fomentar a revolução pela violência e pela força, imaginavam que só assim era possível devolver o povo ao seu Deus, arrancando-o das garras do poder romano, pelo poder da espada.

Eram estas as autoridades “oficiais” dos assuntos de Deus.

Mas, como é que Jesus, depois de se ter encontrado com João Baptista, sentiu, actuou e se embrenhou na emergência do jeito de Deus já a actuar (o Reinado de Deus)?

Em nenhum momento escrito nos Evangelhos vemos Jesus sozinho, como quem procura a sua própria “salvação”.
Só o vemos sozinho em 2 situações:
- em momentos de oração
- em momentos de tentação
Ainda assim atrevo-me a não desligar os dois momentos porque sempre parecem ligados nos Evangelhos, como se os momentos de tentação que Jesus terá vivido em determinados momentos da sua vida ele terá sentido uma enorme necessidade de solidão para orar.
Orar como uma necessidade permanente de “re-ligação” ao seu Deus a quem chamava familiarmente de Papá, uma necessidade permanente de se descentrar de si próprio para se centrar no Seu Pai e, assim, centrar-se no Coração daqueles que eram os “predilectos” do seu Papá: os não-queridos, os não-amados, os desprezados, os desfavorecidos, os des…
Para isto era preciso renunciar a glórias e manifestações populares das multidões que naturalmente o exaltavam.
Para ficar do lado do pobre era preciso continuar a ser pobre, verdadeiramente, ainda que a “fama” da sua presença, das suas palavras, dos seus gestos, do seu sorriso, do seu abraço animasse os inúmeros desfavorecidos e se espalhasse por todos os povoados e aldeias e o quisessem fazer rei.

Não me admiraria que a multidão esperasse dele um verdadeiro Sacerdote com as mesmas lógicas do Templo mas pronto a interceder e a oferecer incenso e sacrifícios pelos mais frágeis e os “sem voz”

Não me admiraria que a multidão esperasse que ele se tornasse num fariseu influente, benevolente, e que com as mesmas lógicas da Lei, abolisse algumas delas mais ridículas e sem sentido e criasse outras que trouxessem mais justiça aos desfavorecidos.

Não me admiraria que a multidão o importunasse de tal maneira que ele tivesse vontade de fugir para longe e procurasse a sua salvação, a reflexão, a meditação e purificação para sempre longe do sufoco das multidões, numa comunidade sossegada como eram as essénias, no meio do deserto.

Não me admiraria que a multidão esperasse dele um líder político, ou um guerreiro carismático, motivando toda a multidão em massa a pegar numa arma e juntos, finalmente, acabar com todos aqueles que subjugam e escravizam o povo… como verdadeiros zelotas.

Não me admiraria que alguns líderes de cada um destes grupos religiosos do tempo, estivessem no meio da multidão, e vissem nele a vocação perfeita para aderir à sua causa e o tentassem “pescar” para o seu grupo.

A todos estes, Jesus de Nazaré os desiludiu porque não vemos Jesus a pactuar com as lógicas de nenhum Templo (Templo = “lugar” específico onde se afirma que Deus está presente). Diz que a Lei foi feita para o Homem e não o Homem para a Lei. E que o maior mandamento é o Amor, e sem abolir a Lei supera-a. Nunca fugiu da sua missão procurando uma salvação individual. Nunca pegou numa arma para fazer chegar o Reino de Deus pela força, nem permitiu que os seus discípulos o fizessem.

A primeira acção de Jesus naquele tempo que chamamos da sua vida pública foi formar uma Comunidade, formar uma família de irmãos. O objectivo era Caminhar, Viver, Aprender, Partilhar, Curar, Estar Atento e Anunciar juntos o que era isso do Reinado de Deus a chegar.
E porque este anúncio não era uma simples causa ou ideologia e implicava tomar partido por pessoas: Então, Jesus também condena e chama de hipócritas àqueles que praticam a injustiça ou alimentam lógicas de opressão.
Jesus defende, está do lado daqueles que ninguém defende, interessa-se por aqueles a quem ninguém interessa.
Jesus diz em voz alta que o jeito de Deus agir já chegou, que Deus já começou a defender o oprimido e o infeliz, já começou a fazer Justiça.

Não admira que Jesus fosse odiado por tantos “conformados” e tantos “confortavelmente instalados” daquele tempo.

Eu pergunto-me, hoje, que Evangelho/Boa Notícia do Jesus de Nazaré anunciamos e vivemos hoje para que tantas vezes Jesus não seja, hoje, tão incómodo e até odiado por tantos?



Neg-Ócio




O dever do trabalho (o acto, que é mais importante que o produto)

Parece que a dependência moderna pelo trabalho se está a converter numa epidemia da humanidade. Deves trabalhar porque aparentemente a tua simples existência não tem qualquer valor; por isso, tens que justificar a tua vida com base na sua utilidade.

Tens que ser útil contribuindo para o bem-estar de uma sociedade que deixou de ser uma comunidade. Não podes dar-te ao luxo de ser um adorno; tens que ser um êxito. Não se trata só do facto de teres um papel a desempenhar, não se espera de ti que cumpras deveres e responsabilidades na tua vida pessoal; não é uma questão de encaixares ou não num esquema mais ou menos dinâmico, como acontece em grande parte das sociedades tradicionais.

Espera-se que produzas, que faças algo que não és tu, algo que possa ser objectivado, e que, através do dinheiro, possa estar disponível e ser trocado. Tens que ganhar o que consomes, além da tua reputação e privilégios, ou então te olharão como se fosses um parasita inútil. O mendigo é um criminoso sujeito a perseguição judicial.

Nada é gratuito, nada chega como dom ou oferta, as gratificações são um benefício fiscal que é preciso declarar! Tudo tem um preço e tens que ganhar o suficiente para o pagar. Os empregos podem ser muito diferentes, mas aqui todos se tornam iguais na medida em que todos eles são convertidos em dinheiro. O reino da quantidade requerido pela ciência passou a ser o reino do dinheiro no âmbito da vida humana.

Existes e és tanto quanto és um trabalhador e alguém que produz. Não há outro critério para a autenticidade do teu trabalho fora dos seus resultados. Serás julgado pelos resultados do teu trabalho.
A gratuidade é uma palavra vazia. Justiça é o que é necessário. A tua disciplina e o teu ascetismo hão-de ser canalizados para uma melhor produção e a um maior volume de trabalho. Podes relaxar e até entreter-te mas só com a finalidade de poder trabalhar melhor e para render mais.

Podes escolher a tua tarefa, porque se trabalhas com prazer produzirás mais e com menos desgaste. Até às vacas se lhes coloca música.
“O ofício é o culto”. A eficiência é um nome sagrado e a vida se subordina à produção. Até o alimento é uma arma militar, eufemísticamente chamada política.

Certamente, as sociedades tradicionais não estão livres de uma certa compulsão pelo trabalho e até de trabalhar para outros. Não deveríamos idealizar o passado ou outras culturas. Mas há algo específico no dever do trabalho da modernidade. Um pecado capital da moral cristã era a tristeza, o desgosto, a acedia (secura espiritual). Hoje em dia isso tem-se traduzido como preguiça, ociosidade. O ócio, o tempo livre, tornou-se num vício e o neg-ócio, numa virtude. Numa sociedade hierárquica, uma vez que se alcançou a idade adulta, cada qual encontra o seu lugar, o que te pode conferir um sentido de realização. Numa sociedade igualitária o postos mais altos estão supostamente abertos a todos.

O mundo tecnológico moderno tornou-se tão complexo e exigente que, a fim de “desfrutar dos seus bens”, temos que obedecer às suas leis. O trabalho converte-se num fim e tal fim não é a plenitude humana mas a satisfação das suas necessidades. A crença de que cada ser humano não é senão um nó de necessidades e cuja satisfação trará automaticamente a felicidade e satisfação é um mito subjacente que numa outra ocasião qualifiquei de “Estilo de Vida Americano”, um modo de viver que agora mesmo está a ser derrubado no seu país de origem ao mesmo tempo que se estende por todo o mundo como a condição necessária para uma tecnologia de êxito.

Seja como for, o contemplativo encontra-se no extremo oposto de tal discurso. Em primeiro lugar, adopta uma atitude completamente diferente diante do trabalho. A primazia não a tem o produto mas o trabalho, ou seja, o acto em si, de modo que cada trabalho terá que ter o seu próprio sentido. Se um acto não tem sentido em si, simplesmente não se faz. O respeito por cada ser e sua constituição é algo característico da atitude contemplativa.

Cultiva-se uma planta porque o acto de cultivá-la já é significativo em si mesmo: uma colaboração entre as forças vitais humanas e as da natureza, um propósito tanto natural como cultural, e uma espécie de enobrecimento inerente ao próprio acto. Não é a acção de um escravo nem a de um senhor, mas a de um artista.
A segunda intencionalidade ou a intenção do agente será uma prolongação harmoniosa da própria natureza do acto. Cultivas a planta não só porque se realça a beleza e se fomenta a vida mas também porque talvez a queiras comer. Comer pertence à ordem cósmica que representam o dinamismo, influência mútua, crescimento e transformação do universo inteiro.

Em terceiro lugar, a tua intencionalidade tenderá a cristalizar a finalidade do acto em si de modo que as tuas intenções privadas se vejam reduzidas praticamente a nada. O contemplativo renuncia aos próprios resultados do seu trabalho, realizando cada actividade por si só, e não pelo que possa derivar desta. Se o acto em si não é significativo não se realiza. Se já está cheio de sentido, não haveria de ser abordado como o simples meio para algo mais. O contemplativo não faz nada com o objectivo de conseguir algo mais. A arte tem lugar porque descobrimos que cada um dos passos distintos e intermédios já estão cheio de sentido em si, do mesmo modo que os esboços ou a estrutura podem ser, por si mesmos, tão belos e acabados como a composição final. Isso não exclui a consciência de realizar actos parciais tendo em conta a totalidade; mas, tal como sucede na cerimónia do chá japonês, cada acto é uma parte orgânica da operação do conjunto.

O olho contemplativo é o olho atento ao brilho de cada momento, à transparência do mais simples, à mensagem de cada dia. Cabem aqui as actividades concebidas para o futuro porque a causa final está presente desde o princípio e o acto em si é a totalidade de todos os seus aspectos diferenciados.

A obsessão pelo trabalho que se tem hoje em dia, mesmo por aquele que não está encaminhado para a produtividade e que chama com orgulho criatividade, não é capaz de fazer de cada pessoa um autêntico “homem fazedor”, porque o que fazemos não é nem a própria vida nem a própria felicidade, e nem sequer uma colectividade. “Trabalha-se”, isto é, está-se encadeado num instrumento de tortura, a fim de justificar de alguma forma a própria existência diante dos olhos dos outro e, ah!, para muitos hoje, com o objectivo de a justificar diante de si próprios e sob o olhar de Deus.

O contemplativo não é o asceta que se dispõe a trabalhar para si próprio, ou para os demais, ou à espera de fins valiosos. O contemplativo goza a vida porque a vida é gozo e puro prazer de auto-realização, e vê um jardim inteiro numa só flor. É capaz de apreciar a beleza dos lírios silvestres ainda que os campos não estejam arados. O contemplativo tem a capacidade de transformar uma situação espontaneamente pelo mero gozo de ter detectado um ponto luminoso nisso que de outro modo seria apenas o véu escuro dos esperados objectivos humanos.


do artigo intitulado "A TAREFA CONTEMPLATIVA: UM DESAFIO À MODERNIDADE", na revista Cross Currents
(Fall 1981, pp. 261-272)
de Raimon Panikkar





Com quem nos sentamos à mesa, no tempo das casas que não tocam o chão




Às vezes, ao olhar para um prédio pergunto-me…
… Haveria, no mundo todo, espaço para que cada família pudesse habitar uma casa no chão?

Já mil razões existem para que vivamos cada vez mais juntos e como que “por camadas” que, no fundo, é o que acontece com os pequenos ou grandes edifícios.
Cada vez mais juntos fisicamente e “telemovelmente” e virtualmente. Sabemos notícias e “novelas” que acontecem do outro lado do mundo, e não sabemos como correu o dia daqueles com quem partilhamos o mesmo tecto e o mesmo chão.

Parece que naqueles tempos em pisávamos mais vezes o chão de terra, conhecíamos os nomes e sonhos e anseios, alegrias e preocupações dos poucos lá da terra.

Há culturas que ainda fazem as suas refeições quotidianas junto ao chão. Uns sentam-se de pernas cruzadas diante de uma mesa muito baixa, outros reclinam-se à mesa.

E hoje, como em tantos outros dias, apetece-me mesmo saborear a delícia do tão grande número de vezes que encontro o nosso Mestre assim, nos escritos que tocaram os tempos dele. Descalçar-se e sentar-se no chão para comer reclinado e sem talheres, como todos os do seu tempo. Era assim no seu povo e cultura.

Era também o tempo em que a refeição ainda era o lugar privilegiado para o encontro. Era aliás muito comprometedor encontrar alguém como Jesus a reclinar-se à mesa com gente de má fama, ou com senhores doutores também. Tanto escândalo para tantos!

Um dia, estando eu num desses restaurantes de fast-food, sentei-me com o meu tabuleiro no fundo de uma mesa comprida com todos os lugares disponíveis. Entretanto chega uma família que se foi sentando aos poucos conforme iam conseguindo os menus. Primeiro senta-se a avó com os dois netos, teriam eles entre 6 e 8 anos… o rapazito ficou mesmo em frente a mim, ao lado estava a avó, ao meu lado ficou a menina. O rapazito, apesar de estar em frente, não conseguia encarar-me de frente, voltava-se para um lado ou para o outro, nunca de frente. A menina olhava-me de lado muito desconfiada e muito desconfortável no seu lugar, esticava-se toda para falar com a avó à sua frente. A avó conversava animadamente com um e outro enquanto esperavam a refeição.
É incrível como aqueles pequenos conheciam, mal ou bem, a força que tem esse “sentar-se à mesa com”, porque lhes era desagradável estar à mesa com alguém estranho, ainda que fosse num lugar público. De facto, eu senti-me ali a mais, e fiquei contente por isso.
Só nos sentamos à mesa com quem nos fazemos próximos de alguma maneira, na maioria das vezes familiarmente próximos. Conheço também pessoas que não conseguem sentar-se a comer uma refeição, sozinhas.
Isto dá que pensar… a força que tem isto de nos sentarmos à mesa não pode ser um acontecimento que nos passe ao lado!

Na Boa Notícia de Jesus, as refeições são “acontecimentos” frequentemente registados!...
Mesmo depois de Jesus ter sido ressuscitado, era nas refeições daqueles que lhe eram próximos que estes reconheciam Jesus ali presente com eles.

Sem nos maravilharmos com toda esta mística que tem a refeição (universalmente é assim, e não tem que ver obviamente com nenhuma religião) não poderemos apanhar o significado que tem alguém sentar-se à mesa, pronunciar a bênção sobre o pão (que é da grande tradição judaica, ainda hoje) e com este alimento tão comum, tão popular, dizer com ele nas mãos: “ISTO é o meu Corpo”… “Fazei ISTO para que nunca se esqueçam de mim (em minha memória/em memória de mim)”… a memória de Jesus inteiro, com todo o seu Corpo que, em linguagem bíblica, não é um pedaço de pão e sim o que ele ali significa, e um Corpo que, ainda em linguagem bíblica, é muito muito muito mais do que os limites da sua pele.


Então, só para tomar o gosto disto, nos quatro livros do Evangelho segundo Mateus, Marcos, Lucas e João aqui deixo algumas citações breves referentes a refeições:

… Encontrando-se Jesus reclinado (à mesa) na casa de Mateus…

… em casa de Simão, o leproso. Enquanto Jesus estava reclinado (à mesa), aproximou-se dele uma mulher…

… Ao cair da tarde, reclinou-se à mesa com os Doze…

… em Betânia, na casa de Simão, o leproso. Estando à mesa, chegou uma certa mulher…

… Estavam à mesa a comer, quando disse: «Em verdade vos digo: um de vós há-de entregar-me, um que come comigo .»…

… Apareceu, finalmente, aos próprios Onze quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade…

… Levi ofereceu-lhe, em sua casa, um grande banquete; e encontravam-se com eles, à mesa, grande número de cobradores de impostos e de outras pessoas…

… Um fariseu convidou-o para comer consigo. Entrou em casa do fariseu, e pôs-se à mesa…

… certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu…

… Mal Jesus tinha acabado de falar, um fariseu convidou-o para almoçar na sua casa; Ele entrou e pôs-se à mesa…

… “Felizes aqueles servos a quem o senhor, quando vier, encontrar vigilantes! Em verdade vos digo: Vai cingir-se, mandará que se ponham à mesa e há-de servi-los”…

… “Hão-de vir do Oriente, do Ocidente, do Norte e do Sul, reclinar-se à mesa no Reino de Deus”…

… “quando fores convidado, senta-te no último lugar; e assim, quando vier o que te convidou, há-de dizer-te: 'Amigo, vem mais para cima.' Então, isto será uma honra para ti, aos olhos de todos os que estiverem contigo à mesa”…

… Quando chegou a hora, pôs-se à mesa e os Apóstolos com Ele…

… “vede: a mão daquele que me vai entregar está comigo à mesa!”…

… “quem é maior: o que está reclinado à mesa, ou o que serve? Não é o que está reclinado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve.”…

… que comais e bebais à minha mesa, no meu Reino…

… quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho…

… Ofereceram-lhe lá um jantar. Marta servia e Lázaro era um dos que estavam com Ele à mesa…

… levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura…

… Depois de lhes ter lavado os pés e de ter posto o manto, voltou a reclinar-se à mesa…

… Um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa reclinado no seu peito…

… Nenhum dos que estavam com Ele à mesa entendeu, porém, com que fim lho dissera…

Quem quiser as citações de refeições direitinhas encontram-nas no blog DerrotarMontanhas

E mais sobre isto também se pode ler ou reler aqui

Chamo-Te



Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.



Sophia de Mello Breyner Andresen

Um jardim em pleno árido deserto do Sinai

Os beduínos Gabaliya (Gabaliya significa "os da montanha") vivem nas altas montanhas do Sinai, no Egipto.
Este é um pequeno vídeo feito por Oliver Wilkins, em Março, plena Primavera, nos jardins do Hussein, típicos entre os beduínos e cuidados por eles ao longo de gerações.

É um povo que vive na árida zona montanhosa do Sinai...


Hussein's Garden from Oliver Wilkins on Vimeo.

Onde estão os Teus Profetas - III

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Pai…
Deus que és da Paz-Vigilante

Ruah…
Coração Sereno e Inquietante

Filho…
Irmão que cativa, interpela, denuncia, és Voz que anuncia
és Mãos estendidas para a minha Humanidade
fazes de mim o Teu Corpo

Onde estão os Teus Profetas?...

Jesus de Nazaré, Profeta dos Profetas, faz-nos todos Profetas de Deus!
És o Novo Profeta Moisés, o Novo Profeta Eliseu,
por isso Mateus, Marcos, Lucas e João te escreveram a multiplicar o pão,
como esses grandes profetas o haviam feito (2Rs4,42)

És o Novo profeta Eliseu,
por isso te escreveram a curar leprosos,
como esse grande profeta o havia feito.

És o Novo profeta Elias, o Novo profeta Eliseu,
por isso te escreveram a ressuscitar o filho da viúva de Naim,
como esses grandes profetas o haviam feito.

Nazareno, Profeta dos Profetas,
desperta do meio da minha Humanidade os Profetas do nosso Deus!
Tu que, de uma vez por todas lançaste os teus braços à minha Humanidade e dela fizeste Corpo teu, faz de nós Profetas de Deus e Profetas teus…

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Onde estão os Teus Profetas - II

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Pai…
Deus que és da Paz-Vigilante

Ruah…
Coração Sereno e Inquietante

Filho…
Irmão que cativa, interpela, denuncia, és Voz que anuncia
és Mãos estendidas para a minha Humanidade
fazes de mim o Teu Corpo

Onde estão os Teus Profetas?...

Onde estão esses que provocam a mudança no Coração do mundo por estarem tão metidos em assuntos “terrenos”, tantas vezes tão pouco “espirituais”, não com o objectivo de “fazer carreira” ou “subir na vida”, mas presentes aí, de maneira absolutamente livre e por isso libertadora, provocadora e por isso mesmo conflictiva.

Onde estão os Teus Profetas?
Onde estão esses homens, mulheres, adultos ou jovens que não são ingénuos, que não adoptam nem anunciam sonhos utópicos? Se tantas vezes esperam o “impossível” é porque vêem longe, “vêem-Te” a Ti lá à frente, no melhor de nós e dentro de tudo o que faz a pessoa mais humana, verdadeiramente feliz, livre. Sabem como acreditar a sério nisto é poder começar já a vivê-lo, a saboreá-lo, a senti-lo na pele.

Onde estão esses Homens de Deus?
Onde andam esses que denunciam os falsos profetas, tanto aqueles “velhos” de todas as idades que anunciam a desgraça e como está perdido e Velho o mundo, como também aqueles falsos profetas que anunciam falsas esperanças, oferecem créditos envenenados, são causa de divisão e querem agradar sempre aos poderosos, no meio de lógicas de concorrência e famintos de promoções e glórias públicas.
São também os profissionais da mentira, os falsos profetas, que usam o nome de Deus para lucro e prosperidade pessoal.

Deus da minha Humanidade,
Onde estão os Teus Profetas?
Enche-os do Fogo do Teu Querer para que não saibam mais se conter!...
Que não se calem, mesmo sabendo que o Profeta está destinado a fracassar,
a ser perseguido, e tantas vezes por quem Te é aparentemente mais próximo, aparentemente mais crente e fiel.

Hoje também eu digo:
“Jerusalém, Jerusalém,
que matas os profetas
e apedrejas os que te são enviados…” (Mt23,37;Lc13,34)




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Onde estão os Teus Profetas - I

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Pai…
Deus que és da Paz-Vigilante

Ruah…
Coração Sereno e Inquietante

Filho…
Irmão que cativa, interpela, denuncia, és Voz que anuncia
és Mãos estendidas para a minha Humanidade
fazes de mim o Teu Corpo

Onde estão os Teus Profetas?...

Onde estão esses Homens de Deus que têm a desmedida ousadia de falarem em Teu Nome, de Te representar?
De tal maneira Te experimentam, de tal maneira lhes arde dentro a Tua Palavra, a Tua Vontade, a Tua Atenção, o Teu Cuidado pela minha Humanidade, que eles não conseguem calar-se.

Onde estão os Teus Profetas?
Onde está o Abraão dos meus dias…?
O Moisés…
O Aarão…
A Maria…
O Samuel…
Elias
Isaías
Jeremias
Ana
Onde estão eles?...

Porque Te calam, se és Tu mesmo que queres falar pelas suas bocas?

Procuro-os no lugar que lhes pertence,
a rua
a praça pública onde as pessoas passam, vivem, onde o Anúncio é mais urgente, onde a injustiça rói a humanidade das vidas…
É aí que o profeta vive e respira, dentro do mundo PRESENTE, ainda que não tenha aí a sua fonte da vida, nem seja aí que respire fundo.
Ele conhece bem as feridas do seu mundo presente, as suas sedes e desejos e desencantos.
É aí que o Profeta denuncia, em todos os tempos, os excessos, e toda a falsa piedade, falsa religiosidade e todas as maquinações que dividem.

Onde estão os Teus Profetas?...
Onde estão esses que são permanentemente ameaçados pela sociedade denunciada, posta a descoberto nas suas misérias que desumanizam?

Os Teus Profetas chamam-se Homens de Deus e falam do “Novo”
São como o profeta Oseias que falava de uma Nova Entrada em Canaan (Os11,1-11)
São como o profeta Jeremias que falava de uma Nova Aliança (Jer31,31-44)
São como o profeta Isaías que falava de um Novo David (Is9,1-6)




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E se o poema fosse teu?

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Há gestos e vontades impossíveis
que, às vezes, só o sonho sabe agarrar
e por não saber outra coisa senão "esperançar"
faz voar
feliz


E se o poema fosse teu?

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"Dois a dois, lado a lado...
Não cessas de enviar:
-"Sois pescadores de Homens!"
Sandálias nos pés,
farnel de pão e água,
pronto a repartir...
E em cada entardecer,
ao regressar a Casa,
lá onde finda a espera,
a Esperança e o cansaço,
a Pura Poesia lerá todos os Nomes
numa pedrinha branca...porá a Mesa e a todos servirá...
E nesse FIM-de-TARDE,
a Ti, que nos cruzaste no caminho,
reconheceremos, enfim...
no último Pão partido..."
Figlo
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"Numa rede vazia depositei a esperança de pescar o alimento verdadeiro.
Lancei-a ao mar.
Respirei fundo.
Fechei os olhos e uma levre brisa de fim de tarde quente fez-me sorrir.
A rede estava cheia!
Nela cabia o sol... o tempo... o milagre de Vida.
Sabia (a)mar."

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Até já...

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Beleza que arrepia...

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... Beleza que sossega e anima,
refresca e nos descansa



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"Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça..."

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Na sua primeira entrevista como presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Miguel Oliveira da Silva chama a atenção para aspectos preocupantes da aplicação da lei do aborto, alerta para a educação sexual inexistente e diz que, nos hospitais, já há mais prática de não reanimar doentes do que dizem as fichas clínicas.


PÚBLICO - Suponha que alguém tenta suicidar-se e deixa escrito que, no caso de sobreviver, não quer que o reanimem. O senhor está na urgência. Respeita o pedido?

MIGUEL OLIVEIRA DA SILVA - Em primeiro lugar, tento reconstruir a vontade da pessoa com a família mais chegada. Se a família me confirma essa vontade e não houver dúvidas de interpretação, partindo do princípio que é uma primeira tentativa, é boa prática clínica chamar um psiquiatra para quando a pessoa voltar a si. Baseio-me no conhecimento geral de cultura médica de que, em 95 por cento das tentativas de suicídio, a pessoa agradece não morrer.

Então não respeitava o pedido...

Não foi isso que eu disse. Tinha de analisar a situação: aguda ou crónica, se era uma vontade recente ou de há muito tempo...

Centremo-nos no testamento vital [documento em que alguém dá indicações sobre os procedimentos médicos a adoptar, no caso de ficar doente sem poder expressar a sua vontade]...

Falávamos de uma ordem para não ressuscitar depois de tentativa de suicídio. Mas na sequência de doença grave, oncológica, cardiorrespiratória ou degenerativa em que o doente, de forma consciente, sabendo as consequências, faz um pedido para não o ressuscitar, acho que se deve respeitar.

Apesar de ainda não estar legalizada, pode dizer-se que a prática de não reanimar já existe nos hospitais portugueses?

Acontece muito mais vezes do que aquelas em que é escrito na ficha clínica. Quer por iniciativa médica, quer a pedido do doente.

É a favor da legalização do testamento vital?

Claro que sou, desde que estejamos todos a falar da mesma coisa. Pode ser um documento escrito que remeta para o reconhecimento legal. Pode ser a escolha de um chamado procurador dos cuidados de saúde ou as duas coisas. Mas quantas pessoas vão assinar o testamento vital sem perceber o que vão assinar? É preciso que a pessoa perceba o que está a assinar e o documento escrito, por iniciativa própria ou adaptado de uma minuta, funcione como um instrumento de diálogo entre o médico e o doente. Se houver dúvidas relativamente ao testamento vital, o procurador dos cuidados de saúde pode esclarecer as dúvidas de interpretação.

Tem-se pronunciado contra a distribuição de preservativos nas escolas, mas sempre foi a favor da educação sexual...

A distribuição de preservativos nas escolas, só por si, não é educação sexual. Mas não sou a favor nem contra.

Por que é que não é a favor?

Essa medida, só por si, é enganadora. Eu sei que não é por um jovem ter um preservativo no bolso que vai ter relações sexuais, sei que o acesso aos meios contraceptivos não antecipam as relações sexuais, não estou nessa fase. Não estou como aquelas pessoas que dizem: estão a dar pílulas e preservativos, estão a antecipar o início das relações sexuais. Nada disso.

Acho é que só deve haver preservativos dentro das escolas se isso for enquadrado numa educação sexual digna desse nome, que não sei se existe. A questão é saber o que fazer para que a educação sexual avance. Para que haja um declínio de infecções por HIV, da venda da pílula do dia seguinte, do número de abortos em jovens, etc. Isso é que me parece importante. Sobretudo para que as pessoas sejam mais felizes por ter uma vida sexual activa.

O que falta?

Que muitos dos professores envolvidos nessas sessões de formação vivam em paz com eles próprios. Com os seus valores, os seus afectos, com a forma como vivem o amor, a vida. E, se calhar, muitos deles não vivem assim, reduzem as aulas de educação sexual ao ensino da fisiologia sexual e dos métodos contraceptivos. E já não é mau. Porque eu fico assustado quando vejo o número de alunos, génios iluminados que entraram para aqui [Faculdade de Medicina] com 19 e não conseguem identificar a altura certa de uma ovulação. E isto é educação sexual igual a zero. Dir-me-à que educação sexual não é só isto. Mas, sem isto, não há educação sexual. Podemos falar sobre os afectos, a ternura, a fidelidade, o crescimento a dois, mas de que educação sexual estamos a falar se uma mulher não sabe identificar a ovulação?

Três anos depois da lei do aborto, que balanço faz?

Um balanço muito contido. Em termos de saúde pública, há ganhos. As mulheres deixaram de morrer por aborto (até às dez semanas) e as sequelas diminuíram imenso. São ganhos indiscutíveis que ninguém pode contestar. Do ponto de vista da cidadania, as mulheres deixaram de poder ser levadas a tribunal por fazerem um aborto. É um ganho imenso. Estes os ganhos. As preocupações são muitas, muitas.

Nomeadamente...

O estatuto de objector de consciência, a percentagem de mulheres que falta à consulta de planeamento familiar, obrigatória 15 dias depois: cerca de 50 por cento falta. Inquietante.

É um sinal de que vão correr risco de novo aborto?

Não é um sinal, é a certeza e os próprios dados da Direcção-Geral de Saúde indicam isso. Que há mulheres que fazem dois e três abortos num ano. O que nos levanta questões difíceis do ponto de vista ético. Alguns defensores da despenalização do aborto há três anos - médicos, enfermeiros -, questionam-se sobre se o aborto deve ser gratuito nos segundos e terceiros casos. O espantoso é que os partidos que se opuseram à despenalização há três anos se tenham esquecido de falar nisso na última campanha eleitoral. Dão isto como assente, como um dado adquirido? E mesmo os outros, que estão a favor...

Que dúvidas tem sobre o estatuto da objecção de consciência?

As maiores dúvidas de que seja o mais adequado - e isto, aliás, pode vir a aplicar-se, daqui a uns meses, no caso do testamento vital. Em Portugal, o estatuto de objector de consciência diz que quem faz um aborto, tem de fazer todos e quem se recusa a fazer um, tem de se recusar a fazer todos. O que se pretende? Quer-se evitar que o médico recuse, de manhã, fazer um aborto num hospital do Estado e o faça, à tarde, numa clínica privada.

Mas isto faz com que muitos médicos que poderiam aceitar interromper a gravidez em alguns casos (uma mulher que engravida com um dispositivo intra-uterino, ou que tem o azar de que um preservativo se rompa) o recusem, porque sabem que, se forem fazer um, têm de fazer todos.

Há cerca de 80 por cento de médicos obstetras objectores de consciência. Se eu aceitar interromper a gravidez a uma mulher que engravidou com um dispositivo intra-uterino, tenho de aceitar fazer um aborto a uma mulher que não toma a pílula porque não quer e que tem um comportamento permissivo e irresponsável.

Então pensa que a lei devia ser alterada?

Acho que é importante ter coragem de rever aspectos negativos desta lei. E não vejo ninguém com vontade de lhe mexer, nem os que votaram a favor, nem os que votaram contra.

O Conselho de Ética terá alguma iniciativa nesse sentido?

Neste momento não está previsto. Pessoalmente, teria muito gosto em que o Conselho pensasse sobre isso. Mas sou um em 19. Apesar de ser o presidente, não posso impor a minha vontade aos outros 18.

Esta é a sua preocupação, três anos depois da lei do aborto?

Tenho outra inquietação. O número de abortos está a subir. De 12 mil passou para 18 mil em 2008 e para 19 mil em 2009.

Aumentaram os abortos ou a visibilidade do problema?

Está a subir o registo legal do número de abortos até às dez semanas.

Era expectável...

É expectável que isso aconteça durante dois a três anos, porque são muitas mulheres que vêm do aborto clandestino e que deixam de o fazer às escondidas. Mas vamos ver até quando continuarão a subir. Se os números continuarem a subir, a subir, é o total falhanço do planeamento familiar.

Não é preciso mais tempo para perceber?

Pouco mais tempo. No máximo, um ano. Quando tivermos os dados de 2010 em 2011, se a tendência ascendente continuar, alguém terá de ter coragem de dizer que é tempo de pensar sobre isto e que há algo que não está a funcionar em termos de contracepção.

Por ignorância?

Ainda por alguma ignorância, também. Se as pessoas não sabem quando têm a ovulação, se há mulheres que tomam três pilulas do dia seguinte no mesmo mês... Três vezes contracepção de emergência num mês? Ninguém tem três ovulações num mês! É ignorância total, abuso, mau uso. A questão é que, além de muita ignorância que ainda existe, temos de saber se o recurso ao aborto vem, nalguns casos, na sequência de uma política irresponsável de contracepção. Acho que quando tivermos quatro anos de lei do aborto é tempo mais do que suficiente de parar para pensar. Não é para mudar a lei. É para avaliar. E não vejo ninguém a querer fazer isso. É surpreendente.

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Custa um bocado, mas depois passa, já passa…

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Custa um bocado, mas depois passa, já passa…
Ui! Isto vai doer, mas já passa…

Sempre que uso esta expressão, seja lá em que circunstância for, lembro-me sempre do olho negro, à terrorista, com que fiquei… depois de uma aventura em que me meti, sem mais ninguém que me pudesse amparar a queda.
Pensei na possibilidade de que poderia morrer, sim, e sorria com isso.
Até resolvi arrumar o “canto” onde costumo estar mais, para deixar mais ou menos tudo arrumado. No fundo, era exactamente aquela sensação de fazer as malas, é que podia chegar aquela tal hora de partir a sério…
É incrível como nessa etapa da minha vida já não tinha medo... e não era coisa de me pôr assim a pensar no “se”, eu acreditei MESMO nessa possibilidade, e pude constatar mesmo que não tinha medo.
Mas… ao mesmo tempo que queria estar só, e lembro-me que o queria mesmo muito,
também me lembro que estava melhor ainda, comunicando com alguém que me era muito próximo, com meia dúzia de mails que trocámos no espaço de 1h… era como que um “olá” com um “até já”.

Era de noite…
E foi tão bom sentir a força da ausência do medo, numa serenidade que não sei dizer!...
Nessa noite falei tanto com o Dono da Casa…

Amanheceu e eu pensei:
Afinal, ainda não está na hora de ir para Casa,
pronto, não tem mal, espero mais um bocadinho.

Custa um bocado, mas depois passa, já passa…
… já é quase a Páscoa
… já está quase na hora da Festa

Tantos rostos, tantas vidas, tantos abraços, tanta Comunhão conheci depois
e sei que ainda mais irei conhecer/amar
Parece que a Vida é isso de estar ela sempre a transbordar por todos os lados
só é preciso estarmos atentos,
porque é possível deixarmos que ela se escape por entre os dedos quando a tentamos agarrar só para nós

A Vida é mesmo tão bonita e ainda mal começou o melhor dela
é mesmo urgente começar a entrar nela agora, para lhe apanhar o jeito
ganhar balanço e ir
agora
é sempre agora que se começa a viver



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Sim, tem a ver com todos nós

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Reuniões, discussões, ideias "brilhantes", sugestões, especialistas, esperas, prazos, planos, decisões, realizações, culpas e fracassos…
… aqui não sei bem se é para rir ou para chorar

«A BP aceitou criar um fundo de 20 mil milhões de dólares (mais de 16 mil milhões de euros) para indemnizar as pessoas afectadas pela maré negra, desencadeada pela explosão de uma das suas plataformas no golfo do México. O anúncio foi feito após uma reunião dos responsáveis da petrolífera britânica com o Presidente norte-americano, Barack Obama. O dinheiro será gerido pelo advogado Kenneth Feinberg, que foi o responsável pelo fundo de compensação às vítimas dos atentados do 11 de Setembro de 2001.
"É um bom começo", disse Obama numa curta declaração após o encontro com o presidente da BP, Carl-Henric Svanberg, e outros responsáveis da companhia.
(…)
Desde a explosão da plataforma Deepwater Horizon, a 20 de Abril, a companhia petrolífera já gastou mil milhões de dólares (mais de 800 milhões de euros) nos trabalhos de limpeza. E esse custo irá continuar a aumentar, já que se prevê que apenas no final do Verão a fuga fique totalmente selada.
(…)
Além disso, lembrou que esta é já "a pior catástrofe ecológica vivida nos EUA", indicando que "ao contrário de um sismo ou um ciclone, não é um acontecimento pontual que provoca danos em alguns minutos ou dias". Obama comparou a maré negra a uma "epidemia", que terá de ser combatida "durante meses e até anos".
O Presidente espera que este acidente sirva ainda para avançar na nova lei de energias renováveis. "A tragédia que atinge as nossas costas é uma lembrança dolorosa e forte que chegou a hora de adoptar as energias limpas do futuro", afirmou.»

Toda a notícia: clica AQUI



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de silêncio e de vagar

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"Quero que eles se alimentem,
semelhantes a frutos que se realizam,
de silêncio e de vagar.

Quero que eles chorem por muito tempo os seus lutos,
que prestem demoradas homenagens aos mortos,
porque a herança passa lentamente de geração para geração.

O que eu não quero é que eles derramem o seu mel pelo caminho.

Quero que eles sejam semelhantes ao ramo da oliveira,
que sabe esperar.
Quando forem semelhantes a ele,
começarão a sentir o grande balançar de Deus,
que vem como um sopro experimentar a árvore.
Ora os leva ora os traz,
da alba para o crepúsculo,
do Verão para o Inverno,
das searas que medram para as colheitas já enceleiradas,
da mocidade para a velhice,
e depois da velhice para os filhos novos.

Tal como acontece com a árvore,
não podes saber seja o que for do homem
se o desdobras pela sua duração e o distribuis pelas suas diferenças.

A árvore não é semente, depois caule, depois tronco flexível, depois madeira morta.
Para a conhecer é bom não a dividir.

A árvore é essa força que desposa a pouco e pouco o céu.

É o que acontece contigo
(…)
tu nem és aquele estudante,
nem aquele esposo,
nem aquela criança,
nem aquele velho.
Tu és aquele que se cumpre.

E, se sabes ver em ti um ramo que baloiça, bem pegado à oliveira,
hás-de nos teus movimentos gozar a eternidade.

E tudo à tua volta se tornará eterno."

Antoine Saint-Exupéry, Cidadela

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O Deus Familiar

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nessa altura o meu pai amassava o pão com as mãos
batia com fragor a massa contra as tábuas lisas
esticava-a
dividia-a
envolvia-lhe o corpo esquartejado num sudário onde havia de esperar
inchando pelo lado de dentro
o abraço do fogo

e só depois descansava
e só depois o mundo despertava no aroma doce do pão transfigurado

chegava a casa ao despontar do dia
mesmo a tempo de acender o sol que havia de amassar-lhe o sono
batê-lo contra a cama escassa
esquartejar-lhe o sonho
incendiar-lhe uma fogueira por dentro

hoje sei tudo o que se pode saber sobre o pão
e sobre os pais que o tempo levedou à porta da fornalha
e sobre a farinha branca que se impregna na pele e nas sobrancelhas
e o sal e o suor residuais
no cheiro intenso da crosta fumegante

o milagre da transubstanciação

nunca faltou o pão na minha casa graças a Deus
nela habitava o mago que operava prodígios em Seu Nome
como parti-lo em silêncio sobre a toalha branca
e reparti-lo
enquanto a minha pele se esticava atrás do crescimento
para envolver a compreensão do mundo

Carlos Nogueira Fino
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Contas

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Sabe-me bem saborear como o Criador de 1 sem nº de coisas
não sabe fazer contas
nem fazer de conta

Eu, às vezes, é que tenho a mania que sou + que Ele
porque imagino que sei fazer contas
pedir contas
e também prestar contas
e às vezes também sei fazer de conta
e… et cetera

Afinal de contas
vai ser preciso saber fazer – contas
ter – a mania que sou + que Ele
desaprender
e aprender
e deixar-me levar por aquela outra lógica/ outro Reino
que não tem nadinha de matemático…


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