Pages

O meu menino



Quando passo a pé naquela rua tenho sempre o cuidado de passar o olhar lá pelo alto, para a sua janela. Quem sabe se não estará por lá, a ver quem passa, chame por mim e eu não oiça, com os ouvidos nos ruídos e silêncios do mundo cheio de gente com sorrisos e lágrimas dentro.

Já há muitos dias não passavam por lá os meus olhos. Naquele dia passaram e lá estava ela, com uma vida nos seus trinta e tais, cheios de rugas bonitas que não lhe dão os outonos que têm.

“Como é que vai o seu homem?”
E o sorriso enorme, embora já não tenha umas quantas mós me responde
“Vai bem, vai bem. Quer subir para o ver?”

Quis pousar os olhos cá embaixo, naquele instrumento que usamos para contar as voltas que a Terra dá ao Sol e sobre si mesma... mas não tive coragem. Pensei comigo “... deixa-te de tretas e sobe”.

Foi a primeira vez, em tantos anos que já passo por ali, que me convidou para entrar na sua casa. É sempre estranha a sensação de entrar num lugar cuja porta conhecemos bem, mas esconde um mundo inteiro dentro, totalmente novo. É perceber, outra vez e outra vez e outra vez como é coisa séria entrar em casa de alguém, como é coisa séria entrar na vida de alguém.

Às vezes, quando entramos, podemos andar pelo mundo fora que nunca mais de lá saímos. Outras vezes acontece entrarmos e andamos pelo mundo fora como se nunca lá tivessemos entrado. São mistérios ou não do coração da gente sempre a fazer-se ou não gente.

O rosto desfigurado pela total ausência de mós impressionava um bocadito, dói-nos nos olhos mas depois passa. Dormia sereno.
“Oh meu menino, acorda... tens uma visita... acorda” e acariciava-lhe o rosto cheio de rugas bonitas, coisa comum lá por casa, está visto. Se ela tinha trinta e tais, ele não podia ter mais que quarenta e tais, apesar dos papéis lhe contarem outros outonos também. Quase sem forças para abrir os olhos, nem voz que se ouvisse clara perguntava-lhe quem era eu... a memória andava fraca como a vista e a voz e o gesto, mas dentro estava mais vivo que nunca.

“Dou-lhe o comer e os remédios por esta sonda, está a ver...” e tinha gosto em explicar tudo, e mostrar a mesinha onde tinha expostos todos os instrumentos do bem amar e bem cuidar.

Com as lágrimas a fugir-lhe dos olhos e a voz amarga contava como aquela enfermeira no outro dia foi cruel a perguntar-lhe, do fundo da cama “Ora diga-me o que é que ele está aqui a fazer? Ele não fala consigo, não lhe faz companhia... que é que ele está aqui a fazer?”
“Eu não o tenho aqui para me fazer companhia. Eu só quero cuidá-lo enquanto puder e tiver forças”

Ela quer dar-se.
Deixem-na dar-se a quem ela ama e deixar-se amar, como pode, por quem é amada!
“Não gosto dessa enfermeira. Ela não trata bem o meu menino. Gosto mais da outra que tem vindo sempre” e enxugou as lágrimas


“Ora pergunte-lhe...” desafiava-me ela “... pergunte-lhe quem é a enfermeira dele... pergunte”

E perguntei

E uma vozita sumida mas convicta saía “É a minha mulher”

Ela não contém a alegria sempre nova de escutar a resposta mais que sabida.


“Arranjou aqui uma rica enfermeira, já viu?”
“Pois é, uma enfermeira que não precisou de diplomas...” dizia, e ria-se feliz feliz feliz....

Mulher sábia e feliz, não sabe sequer assinar o próprio nome e tem a sabedoria e a beleza da vida que os anos insistem em não mostrar como são tantos...

“É o meu menino lindo... é o meu menino lindo”. Quase trinta anos de casados e o carinho é o daqueles que ainda não deram o laço...
“homem e mulher, Deus os fez, e viu que isso era mais que bom, era mesmo muito bom”
Antes de voltar a descer deixei um aperto de mão e um sempre Até já, havemos de nos reencontrar em alguma casa novamente




Até já

Ups...

PAPA ENCONTRADO EM GREVE DE FOME

(artigo do Pe.Rui Osório no semanário da diocese do Porto - Voz Portucalense - baseado no "sonho" do filósofo e escritor Feliciano Mayorga Tarriño entre os dias 17 e 26 de Agosto de 2011 :



O escritor argentino Feliciano Mayorga Tarriño sonhou que o Papa desapareceu do Vaticano. Os noticiários confirmaram os trabalhos dos serviços secretos de todo o Mundo para tentar encontrá-lo. Suspeitava-se de mais um atentado de Al Qaeda.

O Papa acabou por ser encontrado, sorrindo e suado, na Somália. Num campo de refugiados, anunciava que se manteria em greve de fome em solidariedade com a população faminta, enquanto a comunidade internacional não tomasse medidas para acabar com a miséria que assola o planeta.
Na Europa e nos Estados Unidos da América, já não faltava quem acusasse o gesto como "chantagem inadmissível" de um chefe religioso. Temia-se que o exemplo fosso seguido por outros líderes religiosos, pondo em questão a ordem política internacional.

O Vaticano, pressionado pelos governos ocidentais, convocou um conclave urgente e extraordinário. Admitia-se que o Papa tivesse perdido as suas faculdades mentais, razão para ser declarado incapaz de continuar como legítimo sucessor de Pedro.
Os mercados internacionais entraram em pânico. A pedido do Vaticano, esperava-se uma intervenção da NATO para deter o Papa e devolvê-lo a Roma, onde seria sujeito ao diagnóstico de eminentes psiquiatras. Prognosticava-se demência senil e o Direito Canónico admitia a possibilidade de poder ser nomeado um sucessor.

A opinião pública admirava-se que o Papa tivesse mudado de roupa, deixando as vestes pontifícias e cobrindo-se de andrajos. Crescia uma onda de boa vontade e todos se sentiam irmanados com o Papa que se fizera pobre com os pobres. Cresciam como cogumelos as flores e os frutos da fraternidade. O Mundo estava mais florido.

Na iminência do Papa ser capturado, o Dalai Lama, o patriarca de Constantinopla, muçulmanos, judeus e responsáveis protestantes juntavam-se À greve de fome do Papa, além de muitas crianças, mulheres e idosos, todos convencidos que Deus estava com eles e manifestava a Sua opção preferencial pelos pobres.
Filósofos e outros intelectuais defendiam que se o Papa morresse ou vencesse a fome, o seu gesto seria mais importante do que a queda do Império Romano, a descoberta da América ou a derrota do nazismo. Sectores esquerdistas, ateus e liberais mobilizavam-se a favor dos cristãos.
Sonho ou realidade, a verdade 
e que o Papa é dos poucos seres humanos capazes de realizar tão bela quimera.

Estejam atentos. Qualquer dia pode aparecer nos jornais, na Rádio, na Televisão ou nas redes sociais a notícia do desaparecimento do Papa ou que terá sido encontrado em greve de fome, algures no Mundo, para tentar ajudar-nos a preferir a prática da globalização da solidariedade..
Infelizmente, a realidade é tão nua e crua que até nos rouba o sonho!
Pe. Rui Osório





Parece que não, parece que afinal,nesses dias,
o Papa não esteve na Somália ou noutro qualquer país subdesenvolvido.
Restam-nos a nós alguma dessa missão,
tal como diz o Frei. Fernando Ventura,
mesmo sabendo que uma pulga não faz parar um comboio,
pode ser que umas quantas "pulgas" incomodem tanto o maquinista,
que em algum momento ele tenha que parar o comboio para se coçar.

Mais do que religioso praticante
é urgente ser CIDADÃO PRATICANTE 

Ser Poeta










Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

                                   Florbela Espanca




Sabe bem




Sabe bem ver um sorriso sincero
Sabe bem acreditar que é possível a felicidade aqui e agora
Sabe bem sentir que fazemos parte de alguns sorrisos, nem que seja só um bocadito

Sim, há vidas muito duras,
Sim, há gente cruel,
gente que leva escrita no rosto mil histórias cruéis que sofreram
mil histórias cruéis protagonizadas por gente cruel

Mas há dias, muitos, em que...
... sabe bem ver rostos luminosos
olhos que sorriem
abraços que dão
gente das mesmas gentes
mas livres
e mais livres
e mais livres
Sabem quebrar essa corrente, esse condão maldito e diabólico
das mil histórias cruéis que ferem os rostos, os olhos, os abraços
quebram essa corrente que prendem e que não deixam respirar e sorrir

Os Livres são como chuva miudinha ou brisa fresca em dias de demasiado calor

Sabe bem acreditar que sim
SIM! É POSSÍVEL SER FELIZ
E NÃO TER MEDO DISSO!


Às vezes gostaria de ter vivido, nem que fossem uns segundos, perto de ti,
meu Yeshuah, lá por aqueles lados de Nazaré, ou junto ao Lago...
Mas verdade verdadinha, não sei se nesses dias eu saberia entender-te
ver realmente quem tu eras
porque cada vez mais vou percebendo que ÉS cada vez mais neste AGORA que vivo
A Ruah, essa seiva de vitalidade que deixaste a correr nas tuas veias deste Corpo que somos
tu e eu
alimenta-me a vida e o olhar
e vou vendo como tu estás hoje mais que nunca na beleza,
no sorriso,
e também na dor e no absurdo,
e ainda mais quando se assume tudo isso como oportunidade de crescimento e superação
somos sempre mais do que somos
e sei que é assim que tu e o Pai, que são Um, nos vês
Somos sempre o que ainda não acabámos de ser

E estás
estás sempre
sempre no hoje e no agora

É Hoje que a Vida está a acontecer a manifestar-se,
não ontem ou amanhã
Quase me apetece dizer da Vida o que disseste tantas vezes do Reino do Abba
A Vida de Deus está próxima...
... e que sabor delicioso tem esta expressão...

A Vida de Deus está próxima
está perto.
A Vida de Deus está próxima, e já chegou...

A Vida de Deus é como um homem que saiu a semear...
A Vida de Deus é como uma semente de mostarda...
A Vida de Deus é como o fermento que a mulher usa...
A Vida de Deus é como um pai de família que plantou uma vinha...
A Vida de Deus é como um pedaço de tecido novo...
A Vida de Deus é como o vinho novo...
A Vida de Deus é como um juiz injusto e uma viúva persistente na esperança...
A Vida de Deus é como um campo...
A Vida de Deus é como um tesouro escondido...
A Vida de Deus é como um negociante que procura...
A Vida de Deus é como uma rede que é lançada ao mar...
A Vida de Deus é como um pai que tinha dois filhos...
A Vida de Deus é como um pastor que deixou as 99 ovelhas no deserto para ir buscar a que perdeu...
Dificilmente um rico entrará na Vida de Deus...
A Vida de Deus é como um proprietário que saiu para contratar...

Felizes os de mãos abertas para acolher e para dar... porque deles é a Vida de Deus
Felizes os que sofrem a injustiça... porque deles é a Vida de Deus
Pelo caminho, proclama que a Vida de Deus está próxima
... enviou-os a proclamar a Vida de Deus e a curar os doentes...
A Vida de Deus não vem de maneira espetacular. Ninguém poderá afirmar: 'Está aqui' ou 'Está ali', porque a Vida de Deus está entre nós
Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar na Vida de Deus

E a Vida de Deus acontece diante dos nossos olhos...
Suplico-te que escrevas em mim este evangelho, esta boa notícia tão tua!

É sempre Hoje que tudo começa
















E agora deixa-me só cantar-te esta música baixinho, Yeshu...
debaixo de uma árvore baobá qualquer
... e deixa-me escutá-la de ti também

Mais que nunca




Ontem perguntaram-me onde andaria eu... se ainda existiria
Sorri, dentro e fora, por causa da certeza do sim
Sou mais eu
Mais que nunca

De coração sossegado parece que as palavras são cada vez mais toscas diante dos gestos
dos abraços
dos olhares
cheio sem nunca transbordar de gentes que se conhecem e amam
se abraçam
se olham
se dão
se recebem
se partilham

no meio de nós brincam crianças e tolos suspiram
a lembrar aos mais atentos como Tu és criança e tola
que dança, suspira, boceja e sorri, e pergunta quando se voltará a cantar
a lembrar aos mais atentos como Tu és criança e tola
LIVRE
tão livre, tão Tu, no meio dos nossos ritos
esses momentos que precisamos tanto
para que a memória não nos vá falhando tanto
de que Tu estás
mesmo quando não Te percebemos
na inquietude ou no sossego de uma criança
se hoje ou amanhã chover não se importa
de alguma maneira sabe melhor que nós que o sol está lá

Ruah minha a quem pertenço,
quase sempre tenho que engolir a lágrima antes ainda que ela role
quando Te vejo dançar livre criança no meio de nós
amo-Te
pertenço-Te



Mãos à obra








Porque a vida se faz assim, dada, aqui vai uma proposta...









...








Tenho saudades Tuas
Sinto a Tua falta como sinto falta do mar
da areia debaixo dos pés,
do sol que encandeia e faz esconder o olhar
e quando vai embora nos arrefece
e o aroma forte do sal
que o vento forte ou fraco sempre traz
e o som das ondas que chegam perto para logo fugir
com o estalar da espuma branca que a areia logo esconde


Tenho saudades de Ti que nunca vi
e gosto
e quando elas me cantam ao ouvido
fazem-me perceber como a vida me corre nas veias,
não nestas veias que os anos levam embora,
aquelas outras por onde quero que só a Ruah corra
livre
que invada tudo como o ladrão que chega sem aviso

de vez em quando


Tenho saudades de Ti
a Ti que vejo no mar
e no sol que teima nele mergulhar
i n c a n s a v e l m e n t e
uma parte de mim vai com ele
e uma parte de mim volta a nascer de novo


Tenho saudades de Ti
naquele sossego que me faz exultar
no silêncio companheiro fiel que tanto desejo
esse que não permites que me falte
esse que nunca me sufoca
nem assusta
é sempre a porta que quero deixar aberta
para entrares e ficares


Tenho saudades de Ti
de Te ver sentar no chão
e Te deixares estar
e eu contigo
tens as brasas prontas para o peixe
e quase nunca reconheço o Teu rosto
mas conheço as Tuas mãos
essas que trazem os sinais de um coração absolutamente aberto ao Teu Deus Abba-Imma
e a Tua voz
e as Tuas palavras
a Tua paz
a Tua serenidade


Onde Tu estás, a paz anda por lá


Tenho saudades Tuas
e gosto




E tal uma boa notícia para começar a semana?





A iniciativa chama-se "underheard in New York" e está AQUI.
Conhecem aquela expressão ter algo "debaixo de olho"? Esta iniciativa é qualquer coisa como "debaixo de ouvido em Nova York".

"Num tempo em que a comunicação nos rodeia por todos os lados, sentimos a necessidade de dar uma voz a quem mais precisa dela"
O objectivo é uma maior sensibilização/chamada de atenção para os sem-abrigo das ruas de Nova York. Para estes que não têm voz, a quem muitos só conhecem a mão estendida e nem lhes conhecem a cor dos olhos ou a voz, foi-lhes dado o Twitter.

O Danny, o Derrick, o Albert e o Carlos vivem nas ruas de Nova York, foram-lhes oferecidos telemóveis com tarifários já pagos, durante o mês têm envio ilimitado de mensagens de texto e uma conta na rede de microblog Twitter.

O objetivo é despertar a consciência das pessoas e mostrar um pouco dos desafios diários de ser um morador de rua em uma grande metrópole. Os criadores da iniciativa ensinaram os sem-abrigo a acessar e usar o serviço para escrever sobre o que quisessem. A iniciativa foi desenvolvida por Rosemary Melchior, Robert Weeks e Willy Wang


Apesar de não ter como meta arrecadar fundos, Weeks espera que as pessoas tomem consciência dos problemas dos que vivem na rua e os ajudem de alguma maneira, realizando trabalhos voluntários ou contribuindo com doações aos abrigos da cidade. Weeks explica ainda que os quatro homens participam de um projeto piloto, que poderia ser ampliado para novas contas na rede e novas vozes pela cidade, caso outros grupos se inspirem e decidam levá-lo adiante.


Os quatro oferecem a possibilidade de pensar sobre a solidão, as dificuldades e a bondade numa grande cidade.

Vale a pena tê-los debaixo de ouvido.
(é em inglês, pois claro, mas para quem não apanhar um pouco de inglês, conhece-se sempre alguém que sabe mais dessa língua e poderá traduzir um pouco. É bom conhecer um pouco os desabafos da vida destes Irmãos)

Cá estão os links para eles:

Boa "ESCUTA"
Boa Semana


Shalom

...











Ocupa o espaço amplo e nu
esse que a música abre dentro
rompe essa capa de que a Humanidade se veste
todas as noites
em que as feridas fecham lugares
fecham amores esquecidos, apagados, feridos, outros nunca nascidos
Vem Ruah, Espírito, Sopro que passa e sempre volta
Faz mais dentro o Teu ninho de pomba mansa
Aninha-Te e sossega “até que o Amor queira”
A minha Humanidade sempre anseia ver a Tua tenda
ganhar os traços que o nosso Tempo gasta
no seu centro
Sossega e desperta
Dá à Tua Humanidade que é minha
os olhos de criança
e as mãos dos velhos
o coração dos jovens
não permitas que nela se apague o sonho de pobre
nem a esperança de quem caminha de pé, de mãos vazias
e a canção da liberdade que leva no peito o que é injustamente perseguido ou sofredor
Toca Tu dentro de mim essa melodia sempre nova
quero escutar de Ti, outra vez e outra vez a história de um homem
um de mim que nasceu, viveu e morreu
esse em quem repousavas, com quem Te encantavas
a quem o Todo-Amor, o Pródigo-Pai, levantou do chão da noite
e o fez para sempre O Coberto, Transbordante de Ti, Ungido… Messias
na minha Humanidade
esse com olhos de menino
com mãos de velhos
o coração forte e vibrante dos jovens
onde pulsam só os sonhos de pobre
e porque tem as mãos vazias estão elas repletas da esperança
caminha, de pé, e no chão dos meus dias
dentro dele murmuras alto e baixinho a canção da liberdade
porque Te deixou nele repousar e ficar





Vem Ruah, Espírito, Sopro que passa e sempre volta
Faz mais dentro o Teu ninho de pomba mansa
Aninha-Te e sossega “até que o Amor queira”
A minha Humanidade sempre anseia ver a Tua tenda
ganhar os traços que o nosso Tempo gasta
no seu centro
Sossega e desperta
Dá à Tua Humanidade que é minha
os olhos de criança
e as mãos dos velhos
o coração dos jovens
não permitas que nela se apague o sonho de pobre
nem a esperança de quem caminha de pé, de mãos vazias
e a canção da liberdade que leva no peito o que é injustamente perseguido ou sofredor
Toca Tu dentro de mim essa melodia sempre nova
quero escutá-la de Ti, outra vez e outra vez













e ser dia















Às vezes as minhas palavras cheias de letras parecem-me demais e

Calei-me para ouvir o teu choro de recém-nascido menino
E só escutei o choro escondido dos que caminham enterrados no chão
e que ainda não nasceram

Procurei a tua estrela entre as estrelas
E só escutei o ruído dos aviões e vi o dedito das crianças que para ali aponta,
sem nunca se cansarem de se encantar: “É bião!?”

Era noite
por isso inclinei-me e encostei também eu o ouvido à Terra
essa sempre grávida de ti
E ouvi o bater do Coração da minha Humanidade inteira
Em harmonia com essa batida incessante do teu caminhar para mim
Continuo a acreditar que a minha Humanidade há-de sempre caminhar por aí Dentro

para nascer

e ser dia








Quando parares de fugir, ver-Me-ás




Vi o sofrimento fazer heróis de alguns dos Meus filhos.
A força com que suportaram a dor é um exemplo luminoso para todos.
Mas por vezes, Meu filho, o sofrimento é só sofrimento.
Parece gratuito.
É um sentimento de vazio.
Não ensina nada.
Não traz recompensa.
É, apenas.
É, apenas, e tu sentes-te só.
Abandonado.
Desamparado.
Pensas que Me fui embora
Por isso foges.
A tua mente desliza para longe da angústia.
O teu corpo retrai-se com a dor:
O teu coração tenta fechar-se ao sofrimento.
Vejo-te fugir.
Não acreditas que estou contigo.
Mas estou aí.
Quando parares de fugir do sofrimento
E te voltares para o enfrentar,
Quando entrares em agonia sem lhe reagires,
Quando encarares o teu sofrimento e lhe conheceres o nome,
Então ver-Me-ás.
Ver-Me-ás no seu âmago, junto de ti.
Não importa o teu corpo devastado pela dor
Ou o teu espírito em turbilhão por entre as dores e angústias.
Quando parares de fugir, ver-Me-ás.
Eu não desistirei de ti.
Não posso abandonar-te.
Não estás sozinho.
Eu estou contigo.
Desmond Tutu e Mpho Tutu









Não existe profundeza onde caias onde Eu não possa chegar





Ouço o teu grito durante a queda.
Tropeças nos teus erros e tombas no poço sem fundo da culpa e da vergonha.
Mas o abismo não existe. É uma ilusão.
Não existe profundeza onde caias onde Eu não possa chegar.
Vivi contigo desde o princípio dos tempos.
Sonhar-te deleitou-Me, o facto de existires enche-Me de prazer.
Há uma escolha a cada instante.
A cada instante é possível crescer e não falhar.
Cada momento é uma riqueza de oportunidades.
Não gravei o trilho que tens de percorrer,
construímos o caminho em conjunto, tu e Eu.
Destinei-te ao bem, e um campo de bondade estende-se à tua frente.
Escuta-Me, e mesmo que o caminho não seja fácil,
cada passo e cada pedra conduzem à alegria.
Se te virares para o lado, atento à voz do tentador,
a hesitação marcará a tua viagem.
Confio em ti, Meu filho.
Mesmo quando tiveres caído, a estrada não acaba.
Podes levantar-te do chão e voltar-te.
Podes arrepender-te e rumar à tua casa em Mim.
Procura-Me.
Encontrar-Me-ás.
Tenho estado aqui desde a eternidade.
Até à eternidade, aqui estarei.
Estou à espera e tu encontrar-Me-ás.
Desmond Tutu e Mpho Tutu










... eu não Me escondi no céu





Ouço o teu bater frenético às portas do céu.
Todas as fúrias do inferno te perseguem.
Todos os medos e desejos gritam através da escuridão.
A bondade que querias escolher desliza para longe,
E o mal parece estar cada vez mais perto.

Meu amado, eu não Me escondi no Céu,
Estou escondido no teu coração.

Não bradarei sobre o ruído dos teus desejos.
Não abafarei o estrondo das tuas maquinações.
Ouvirás se Eu gritar mais alto que os demónios?
Conhecerás a Minha voz se Eu a erguer?

Não, filho, escuta o Meu sussurro.
És livre de fazer essa escolha.
És livre de fugir do turbilhão.
És livre de partir e procurar a paz.

Deixa as mentiras.
São uma prisão
Onde és torturado continuamente pelo tua própria voz.
A violência que cometes ergue muralhas de fúria e alienação
à tua volta.
Cada crueldade é um espinho no arvoredo cerrado que ensombra a tua beleza.
Cada gesto de bondade teu e cada palavra verdadeira
É mais uma chave que te libertará.

Eu não Me escondi no céu.
Não fechei os olhos nem tapei os ouvidos.
Vejo aquela mãe que chora. Amparo-a através das suas lágrimas
lentas e escaldantes.
O seu filho errante é também Meu filho.
Vemos juntos quando ele escolhe o que é mau e errado
Mesmo se lhe mostrámos o que é bom e certo.
Estou à espera com aquele pai desesperado.
Observamos juntos a fúria sombria da sua filha adolescente.
"Paciência", ouvir-Me-á ele sussurrar,
"Ela há-de voltar, ela ama-te muito"
"Ela não sabe ser quem é
Ou em quem se está a tornar"

Filho, ouço-te suspirar, soluçar.
Vejo os teus ombros abatidos pela derrota.
Sempre a tentares, muitas vezes a falhares,
o bem que fazes parece transformar-se em mal.
Meu filho precioso,
Exigir-te-ei contas do que te pedi, de nada mais.
Sê apenas fiel à tarefa que te determinei.
Tenhas êxito ou não, isso não me importa.

Vive como Me ouves a falar em ti.
Vive a verdade que aprendes coMigo.
Depois não importa onde te levará a estrada.
A bondade que vives libertar-te-á.

Desmond Tutu e Mpho Tutu





Verás como eu vejo






Aceita o meu jugo e aprende comigo, porque o meu jugo é agradável
e os meus fardos são leves.
Acerta o teu passo ao meu, imita-me.
És livre de escolher, podes escolher ser como eu.
Onde quer que estejas podes criar beleza.
A cada momento podes criar alegria.
A cada instante podes oferecer bondade.
Agora e sempre podes fazer com que me vejam.
Podes ser como eu te criei para seres,
A imagem visível do invisível.
Verás como eu vejo.
E o teu coração ficará destroçado
Com toda a tristeza do mundo.
Com toda a fome e sofrimento.
Chorarás comigo cada lágrima
Partilharás comigo cada alegria.


Verás cada pardal que cai.
Verás cada folha de relva que morre.
Ouvirás cada choro de criança e o suspiro desesperado de cada pai.
Os gritos de pavor e os gemidos de fome serão tecidos na canção daquilo que és
e o teu coração partir-se-á vezes sem conta.
E então conhecerás um coração de carne e não de pedra.
Estarás vivo!
Desmond Tutu e Mpho Tutu

... a tua vida escondida em mim







Não lutes e não te esforces tanto, meu filho.
Não tens qualquer corrida a terminar, uma razão a provar,
um obstáculo a ultrapassar para ganhares o meu amor.
Já to dei.
Amei-te desde antes do primeiro sopro da criação.
Sonhei-te tal como moldei Adão a partir da lama.
Vi-te molhado quando saíste do ventre.
E então amei-te.


Aceita o meu jugo e aprende comigo, porque o meu jugo é agradável e o meu fardo é leve.
Pára de correr mais depressa que o teu passo;
Acabarás esgotado, sem forças, e consumido, antes de concluída a tarefa.
Avança ao meu ritmo, caminha a meu lado.


Pensas que não sei das exigências da tua vida?
Vejo-te lutares pela perfeição, ansioso por que te aceite.
Vejo-te contorceres-te para te adaptares à imagem que tens de mim.
Imaginas que não sabia quem eras quando te fiz, quando te teci no ventre da tua mãe?
Pensas que plantei uma figueira esperando que florissem rosas?
Não, filho, eu semeei o que queria colher.


Tu és o meu filho preferido.
Procura a tua alegria mais profunda e aí me encontrarás.
Descobre o que te faz ser mais verdadeiramente tu próprio
e fica a saber que aí estarei.
Faz o que te dá prazer
E estarás a trabalhar comigo,
A caminhar comigo,
A encontrar a tua vida
Escondida em mim.


Pergunta-me o que te apetecer.
A minha resposta é amor.
Quando quiseres ouvir a minha voz,
Tenta escutar o amor.
Como podes agradar-me?
Dir-te-ei:
Amor.
Queres conhecer-me?
Anseias por me seguir?
Queres chegar até mim?
Procura e dá amor.
Desmond Tutu e Mpho Tutu

Fiz-te para mim... respiro em ti








Meu filho, fiz-te para mim.
Fiz-te como eu sou.
És para mim um encanto.
Dói-me o coração, apiedado
Quando oprimes a alegria porque a agitação te ataca.
Então, quase não há um minuto
Para parares e escutares o que te digo.


Corres por todo o lado à procura de vida,
Buscando a vida da vida.
Desde sempre aqui estou.
À distância de uma prece
Respiro em ti.


Procuras-me nos prazeres da vida.
As coisas amontoam-se sem parar,
Cada experiência expulsa a anterior,
Os lugares fundem-se numa mancha confusa,
E no entanto não encontras a tal coisa que te satisfaz.
Mas eu estou aqui.
Estou ao alcance de uma prece.
Respiro em ti.


Fiz-te para mim,
Quis que existisses.
Fiz-te à minha imagem,
Fiz-te bom e fiz-te livre.


Escuta! Porque gravei em ti o coração que ouve.
Escuta, e quero que saibas que estou perto.
Estou ao alcance de uma prece.
Respiro em ti.


Antes de dizeres a palavra de desgosto ou de adoração, eu oiço-te.
Antes de cantares a tua alegria ou de lamentares a tua angústia eu falo.
Estou aqui.
Ao alcance de uma prece.
Respiro em ti.


A cada respiração escolho a vida para ti.
Pinto o desenho da alegria no teu coração e aí o deixo para que o descubras.
Construo a estrutura do teu progresso no centro do teu ser e convido-te a procurá-la.
Acendi em ti a centelha da bondade.
A cada respiração atiço a chama.
Estou aqui.
Ao alcance de uma prece.
Respiro em ti.


A cada respiração tu escolhes, meu filho, porque és livre.
Vais respirar comigo o sopro da vida'
Vais assumir a alegria que preparei para ti?
Vais procurar-me e encontrar-me aqui?
Vais sussurrar a oração?
Vais respirar em mim?
Desmond Tutu e Mpho Tutu





Olá Amigos!
Já está perto aquele dia tão especial em que, de alguma maneira, lembramos o nascimento do Yeshu, o início de uma vida que mudou completamente a vida de tantos, o início de uma vida inteira absolutamente confirmada, "assinada" por Deus... Nele e com ele nascemos todos, é por isso, para nós, o nascimento dos nascimentos, o Natal.
Até lá, gostaria de ir postando por aqui, todos os dias, uma oração de alguém que admiro muito muito, Desmond Tutu, em jeito de peregrinação até ao Coração da nossa Humanidade... como quem ficar de ouvido atento à batida do Coração de Deus.
Quem quiser peregrinar comigo, que venha...

É sempre bom lembrar







O reinado de Deus, tal como Jesus o apresenta, representa a mudança mais radical de valores que jamais se pode anunciar. É a negação e a mudança, desde os alicerces, do sistema social estabelecido.
Este sistema, como sabemos bem, baseia-se na competitividade, na luta do mais forte contra o mais débil e no domínio do poderoso sobre aquele que não tem poder.
O reino de Deus é algo que tem que suportar o confronto e a contradição. Porquê?
Todos os que disfrutam e se vêem privilegiados na sociedade presente é evidente que não querem outra sociedade. Por isso a pregação do reinado de Deus é uma coisa que não se pode realizar impunemente porque ameaça directamente contra esta ordem de coisas.
J.M.Castillo


A lógica deste sistema encontramo-la todos os dias da semana nos nossos empregos, e muitas vezes ao fim-de-semana na nossa Igreja (é preciso não ter medo de o admitir)
É só nossa, a missão de ser a "ameaça" provocativa de mudança

Quando lemos, na Boa Notícia segundo Mateus, Jesus a dizer "Não pensem que eu vim trazer a paz ao mundo. Não vim trazer a paz, mas a espada" (Mt10,34), certamente não será para voltarmos ao tempo das guerras violentas que chamámos de santas, de espada em punho, a tirar a vida a todos os "infiéis".
Mas também não se trata da atitude tão espiritual, tão espiritual que se perde no vazio, no ar, tantas vezes com super actividades para demonstrar a nossa fé, e tão simbólicas, tão simbólicas que acabam por não significar nada de concreto, e sem ser atitude provocadora daquela mudança que a urgente emergência do reinado de Deus nos exige.

Sem dúvida que Jesus é o homem mais provocante e ousado que conheço.
Que os seus verdadeiros discípulos continuem sê-lo também.




Tapete

.
.
.
.





Yeshu… de Nazaré
Queria dizer-te mil coisas,
Mas
nem as quereria ouvir dentro de mim









Há dias e pessoas que são como pedras
desses dias que quando os deixamos cair para longe da vista, para o fundo do mar,
são como a areia que se quer escapar por entre os dedos
fazem, às vezes, uma ondulação são invisível aqui
que se torna num maremoto do outro lado… do lado de lá
e me surpreendo a desejar que nunca existissem pedras, nem mar, nem ondas


meu amado Jesus…
quando é que vamos perceber que
cada passo, cada gesto, cada palavra dita ou sentida
pedras pequenas ou grandes
ficarão a ecoar para sempre na História nossa?


Tenho o “tapete” da entrada cá de “casa” estragado
estragado podia ser sinónimo de usado
mas hoje é assim que o sinto… estragado
esse lugar por onde passa quem quer entrar
os amigos, ainda que a alguns não os veja durante anos, nunca passam por ele mais que uma vez
outros, menos amigos, vão gastando o tapete ao saírem
e às vezes dói, porque de alguma maneira saem e conseguem nunca mais acabar de sair…








Mas
confio em ti

deuses e senhores






























Temos desenhados no nosso rosto todos os traços dos deuses e senhores
a quem damos licença para serem os deuses e senhores da nossa vida