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3 catequeses / 3 relatos da Ressurreição de Jesus escritos para as Comunidades de Discípulos e Discípulas de Jesus



 - No ponto central de cada um dos relatos da ressurreição no evangelho segundo S. Lucas, capítulo 24  (Sepulcro vazio/Emaús/aparição aos discípulos) há sempre um "pregador" que, de alguma maneira vai dizendo: “Era necessário que o Filho do homem fosse entregue nas mãos dos pecadores, que fosse crucificado e que ressuscitará ao terceiro dia”
Este pregador recorda a lógica de Jesus, que rompe todas as expectativas da chegada do Reino por caminho de messianismos gloriosos.
- Estes três relatos (Sepulcro vazio/Emaús/aparição dos discípulos) mostram também o espanto do discípulo, que fica atordoado, incapaz de ver (e até de acreditar) no Senhor presente. O discípulo vê-se obrigado a procurar sintonizar noutra onda.
Quem lê estes relatos espera que no sepulcro as mulheres vejam, mas o que acontece é que elas acabam por escutar uma “pregação”.
O autêntico discípulo não pode esperar aparições, pois terá que lidar com desaparições (como no final de Emaús)
- Estes três relatos são algumas de entre outras catequeses que formam o itinerário feito pelas primeiras comunidades para assimilar o escândalo de contemplar o Senhor, ao mesmo tempo: na maior desonra da cruz; mas que está sentado à direita do Pai, como Filho de Deus e Senhor da História.


1º relato:
As mulheres diante do sepulcro vazio
“Não sabiam o que pensar de tudo aquilo, quando se apresentaram diante delas dois homens com vestidos resplandecentes. Assustadas, inclinaram o rosto por terra, mas eles disseram:
- Porque procuram no meio dos mortos o que está vivo? Não está aqui, ressuscitou. Lembrem-se, como vos falou quando estava na Galileia, dizendo: “É preciso que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos pecadores e seja crucificado, mas ao terceiro dia ressuscitará”.
E elas lembraram-se das suas palavras”

Estavam perplexas, não sabiam o que pensar. Esta catequese quer deixar claro que o sepulcro vazio não provoca a fé. A fé é despertada pelo anúncio do Mensageiro de Deus. Os olhos humanos do “mundo velho”, por si mesmos, não podem testemunhar o “mundo novo” de Deus. A experiência de Jesus como Homem Novo não a podem provocar os sentidos do nosso corpo mortal; só a Força de Deus é capaz de nos colocar em sintonia com o Mundo Novo.
O relato conta que as mulheres receberam o anúncio da Boa Nova, não por “ver”, por verem o túmulo vazio, mas por “escutar” a mensagem, e mais que isto, por se “recordarem/fazerem memória” das palavras de Jesus.
Ainda que o testemunho de uma mulher naquele tempo e cultura não valesse nada, elas não o puderam calar, tornando nas primeiras pregadoras da Boa Notícia.


2º relato:
Emaús
“Naquele mesmo dia, iam dois deles para um povo chamado Emaús, que fica a 11km de Jerusalém, e conversavam entre si sobre tudo o que tinha acontecido”

É o regresso a casa. Da grande esperança à desesperança. Desde a gloriosa subida a Jerusalém, ao virar costas à cidade da cruz da vergonha, da ilusão.
Assim o Reino não é possível. Voltemos então ao mundo pequeno e raquítico, seria ingenuidade pensar em grande, em mundos Novos... estes discípulos ficam desiludidos com a comunidade e afastam-se de Jerusalém. Em atitude de cobardia ou desistência, abandonam a zona de conflito. São gente derrotada e profundamente desiludida. Tinham começado a dar a Jesus o papel de pai todo poderoso, e isso era consolador e com gosto participavam da sua grandeza. Mas o que aconteceu destruiu-lhes a segurança imatura, foi-lhes arrancada a sua pequena fé infantil.

Mas Jesus continua a ser a presença de Deus peregrino no meio do seu povo, solidário com as suas dúvida e dores e a fazer-se próximo. E conversam com aquele estrangeiro que se põe a caminho com eles, que também vem de Jerusalém. Os dois, tão interessados na própria frustração, só sabem falar disso. E têm os dados todos como o demonstram ao estrangeiro, mas não sabem o que fazer com toda essa informação. E repassam ponto por ponto as grandes etapas da vida de Jesus. Sabem tudo, relatam os seus próprios sentimentos, até fazem memória...
mas o problema é que “a ele não o viram”.
Obcecados pelo sonho imaginário de um Messias poderoso, não podem acreditar nas mulheres nem reconhecer um Messias diferente daquele que eles mesmos criaram à sua imagem e semelhança. Não podem admitir o confronto, a debilidade e a morte. Não podem compreender um Messias desde a cruz, desde o não poder.

E novamente o “era preciso” que já escutámos no sepulcro. É o eco, nesta catequese de Lucas, da lenta e difícil conquista do enigma da cruz pelas primeiras comunidades cristãs.
Voltando ao relato:
“Oh insensatos e lentos para acreditar em tudo o que disseram os profetas! Era preciso que o Messias passasse por isto para ter credibilidade, para que a sua vida tivesse peso!
E, começando por Moisés e continuando por todos os profetas, explicou-lhes o que havia sido escrito sobre ele em todas as escrituras”

Só quando o deixam falar, depois de tanto se queixarem, é que começam a abrir-se ao mistério deste outro, se tornaram capazes de ouvir.
O messianismo de Jesus encarna a realidade débil da história. Estes discípulos falavam de um messianismo judeu: nacionalista e poderoso. Agora é hora de mudar para o messianismo de Jesus que é feito de universalidade e debilidade.
E começa a arder-lhes o coração.
No fim do dia, o convidado à mesa, torna-se no senhor da mesa, e ao partir e entregar o pão não se dá uma aparição, mas uma desaparição. Os discípulos não o veem, mas sim reconhecem-no. Já não é necessária a presença física: fica-lhes a entrega, a partilha feito memorial entre discípulos.
A partir de agora entendem como não se trata de VER, como nos dias da Galileia, mas de RECONHECER a presença de Jesus na entrega do pão partido/partilhado e na releitura da Escritura, e RECONHECER a presença de Jesus em todos os injustiçados e martirizados da História. Descobrem Jesus com um rosto novo, o de Senhor de toda a História.
O que experimentaram fez deles testemunhas, e depois de desandarem caminho para longe, voltam ao caminho para Jerusalém, porque não conseguem guardar isto só para si.


3º relato:
Aparição aos discípulos
Mesmo no mundo fechado em que os discípulos se encerraram, o Mundo Novo irrompe inesperado e imprevisível.
Jesus dá-lhes o SHALOM e mostra-lhes as mãos e os pés. É um sobrevivente dos infernos do nosso mundo, um martirizado publicamente. As suas feridas nunca desaparecerão porque são as feridas dos torturados de todos os tempos. As de Jesus já não lhe causam dor, em vez disso têm poder curador, não são fonte de ruptura. Podem curar porque nos dizem que todos temos fracturas, que somos vulneráveis. As pessoas feridas e reconciliadas, como o Senhor, são reconciliadoras, porque entendem as feridas dos outros. É por isso que a cruz se tornará no agente do mundo reconciliado, porque o Senhor pode dizer com toda a credibilidade que a cruz não é a última palavra.

Mais uma vez, escutamos a mensagem:
“Eu disse-vos quando estava convosco: É preciso que se cumpra tudo o que está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos acerca de mim”.
E ajudou-os a entender as Escrituras...”

“É preciso”, não porque Deus quisesse, ou por uma necessidade teológica. Mas uma necessidade histórica, por causa dos homens, da sua condição pecadora. O discípulo deve compreender que, se alguém neste mundo quer romper as dinâmicas da morte para oferecer uma alternativa de vida tal como Deus a sonha, terá que pagar por isso. É como se lhes dissesse: “Não entendem que era impossível libertar este mundo, dar-lhe valores alternativos do Reino, sem que os poderes reagissem tratando de matar?”. É o “grão de trigo que há-de morrer para dar vida”, e “quem quiser ganhar a vida, há-de perdê-la”

E agora entendem, ou vão aprendendo a entender este “é preciso”, e que como Jesus, também eles hão-se ser ministério de reconciliação.
Entendem também que a presença de Jesus, no meio deles, não é questão de VER, mas de PRESENÇA, não de aparição, mas des-aparição. Como podemos ler no relato mais adiante.
“Jesus levou-os para próximo de Betânia e, levantando as suas mãos, abençoou-os. E enquanto os abençoava, separou-se deles e foi levado para o céu. Eles, depois de se prostrarem diante dele, voltaram a Jerusalém com grande alegria. E estavam sempre no Templo a louvar a Deus.”


(Reflexão baseada no capítulo 24 do Evangelho segundo S.Lucas
com a ajuda do livro "Los últimos y los primeiros días de Jesús, el Señor", de Francesc Riera i Figueras,sj)








Deus de Jesus,
queremos ser e viver como habitantes da Tua Casa
onde se vive e se ama ao Teu jeito
Queremos conhecer sempre mais o teu Jesus
porque ele sabe bem como é ser filho em Tua Casa
tornaste-o vivo, entre nós
e por isso queremos dizer bem de Ti

Quero dizer bem de Ti
porque ao levantares Jesus da morte
o tornas misteriosamente presente
na minha vida, nos meus caminhos
vivo da Tua Vida,
sempre com um novo rosto.
Quero dizer bem de Ti
porque ao levantares Jesus da morte
me levantaste de todas as minhas mortes
Não apagaste nunca as feridas do teu Jesus
para que eu saiba sempre que as minhas interrogações e dores
não têm a última palavra
Ao levantares Jesus da morte
deste o teu NÃO definitivo ao mal que provoco ou do qual sou vítima
Ao levantares Jesus da morte
Deste o teu SIM definitivo ao bem da minha partilha,
da minha alegria, da paz  e do perdão que dou gratuitos
Ao levantares Jesus da morte
obrigas-me a levantar-me
e obrigas-me a levantar outros das suas mortes
porque só és Bom
porque só me queres Feliz
porque só me queres com outros, irmãos,
na Tua Casa de Pai e Mãe









O que tem Jesus a dizer na nossa crise







Olho para Jesus de Nazaré no meio desta crise que não para de agravar. Não porque pense que ele – e muito menos a fé cristã – seja a única alternativa, nem sequer necessariamente a melhor. Simplesmente, cada um tem as suas raízes, e as minhas estão em Jesus, a ele amo e sigo. Mas as raízes conduzem-nos ao mais profundo, a água e o húmus que a todos nos nutre, o Fundo sem nome, à Misericórdia sem fundo, onde somos Um.

Olho, pois, para Jesus, nesta crise global que padecemos, e em todas as crises profundas que padece o nosso pobre coração. Nele busco mais que em nenhum outro aquele “gozo que enxuga as lágrimas e reconforta nas dores”. Nele exploro minúsculas chispas de luz que permitam vislumbrar outro mundo possível e dar pequenos passos para ele.

Olho para Jesus feito de carne em cada um dos rostos que choram, em cada uma das vítimas que padecem o desemprego e a pobreza crescente, pois ele disse uma vez: “O que fizerem a um destes meus irmãos pequenos, estarão a fazê-lo a mim”. Todo o governante deste país ou de qualquer um que se diga cristão deveria perguntar-se “Negaria eu cuidados de saúde a um imigrante porque não tem papéis, se fosse Jesus?”. E os grandes senhores da especulação financeira – que são, por muito que digam, os maiores responsáveis dos piores males e que não sei como podem chamar-se cristãos -, se atreveriam a afundar na miséria, com as suas políticas de preços e as suas transações de capitais, a quase todos os habitantes dos países mais pobres e às espécies de seres viventes em perigo de extinção, se fossem Jesus? Pois o são. Cada um é Jesus. “A mim o fareis”. E não sei como o papa e os bispos não se lembram da voz gritante todos os dias a todas as horas.

Olho para Jesus e ouço-o. Ouço dos seus lábios aquelas palavras de luz e de consolo, de graça e libertação, que proclamou na Galileia há dois mil anos e que continuam a ter toda a sua atualidade. São palavras certeiras que desmascaram a raiz primeira desta crise planetária, que é a cobiça, e traça o horizonte de outro mundo possível, realmente fraterno, com outra economia.

Que disse Jesus? Começou a dizer o principal de tudo: “Alegrem-se: o Reino de Deus está aí”. Eram tempos de dura crise política, económica, cultural, religiosa na Galileia e Judeia. E Jesus disse-lhes: “Alegrem-se!” Como que “alegrem-se”? Sim, alegrem-se, porque está aí o “Reino de Deus”, que é o mesmo que dizer: um mundo justo, bom e feliz.

Que disse Jesus aos pobres camponeses, pescadores e artesãos, afundados no desemprego e na miséria? Disse-lhes: “Felizes vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus”, ou seja: porque tudo vai mudar, porque deixareis de sofrer a miséria, e porque está nas vossas mãos transformar a situação.

Que disse Jesus aos que sofriam por medo – sofremos – e aos que por medo faziam – fazemos sofrer – tanto? Disse-lhes insistindo uma e outra vez: “Não tenham medo”. Olhem para as flores do campo e as aves do céu, como são felizes com pouco. Olhem para a poderosa semente que cresce. É possível. O poder do bem é sempre maior, apesar de tudo. Vós podeis. Deus pode em vós.

Que disse Jesus aos ricos proprietários, aos ricos do campo e das cidades, aos ricos do palácio e do templo? Disse-lhes severamente: “Não podem servir a Deus e ao dinheiro”. Aí estava a chave, e aí continua ela. O Dinheiro: essa divindade em cujo altar se sacrifica a vida, tudo o que faça falta. Pois bem: ou a Vida ou o Dinheiro. Decidam se querem servir a Vida ou as finanças, os Bancos, o Mercado com os seus ajustes e crescimentos. Sirvam a Vida.

Que disse Jesus a uns e a outros, aos tentados pelo desalento ou pela violência num mundo desumano? Disse-lhes, e assim se resume: “Sejam compassivos, como o vosso pai do céu é compassivo”. Sejam compassivos como o Mistério daquele de quem tudo provém, onde tudo se funda. Só a bondade cria. Só a compaixão cura. Só a compaixão liberta. Só a compaixão é verdadeiramente subversiva e poderosa.

São palavras que concordam com o ensino inspirado dos profetas e profetisas de todas as religiões ou fora de toda a religião. São palavras que indicam o caminho para criar um mundo novo das cinzas deste mundo violento.

Uma reflexão de José Arregi





Joana









Naquele dia estava já tudo preparado para nos pormos a caminho novamente, com a caravana, quando o Manahen foi convocado para mais um daqueles banquetes inesperados e fúteis que me esgotam. Apesar de ter crescido, e ter sido educada na corte, toda a minha vida, o meu sangue, gritou com saudades do deserto. É só lá que eu respiro, é lá a minha “casa”, quando montamos a tenda num vale aberto ou no cimo de uma montanha.

Era do meu pai, este negócio das sedas que trazemos das terras longínquas onde nasce o sol. Herodes, amigo de infância, que era como que irmão do Manahen, achou conveniente juntar as nossas famílias porque a minha é de muitas posses e o Manahen é o seu administrador, um alto cargo.

Nunca pensei que pudesse viver outra vez, e mais dolorosamente ainda o que vivi naquele banquete.

Apesar do Manahen não gostar muito na altura, eu fui várias vezes escutar aquele que fazia outros mergulhar no rio, o João. Fui poucas vezes porque ainda ficava longe de Tiberíades. Perturbava-me, inquietava-me, feria-me até, tudo o que ele falava alto daquela margem. Juntavam-se sempre uns poucos ali a escutá-lo e muitos eram os que se faziam lavar, mergulhar, pela sua mão. Falava de um tempo novo, que chegaria para quem estivesse disposto a abraçar esse novo. E eram assustadoras as acusações que fazia daqueles com quem eu mesma me reclinava à mesa nas refeições da corte. Que ousadia a dele!... Uma mistura de afronta com coragem desmedida que chamava os meus pés e ouvidos àquela margem.

Cheguei a convidá-lo a ir ao palácio, e Herodes ficou também assustado e ao mesmo tempo fascinado com aquele João.
Um dia fui escutá-lo novamente e já não estava lá. Herodes tinha mandado prendê-lo como quem quer guardar só para si uma ave exótica demasiado rara e demasiado perigosa... não fosse alguém dar-lhe ouvidos e isso chegasse a Roma... Aquela mulher terrível, Herodíades, com quem ele partilhava as ambições e podridões fê-lo calar de uma vez para sempre a Voz que falava no deserto deste povo. Não bastava cortar-lhe a língua, todo ele era uma ameaça provocante. Vestia-se com peles de animais e nunca ía ao mercado comprar alimento, procurava e comia o que lhe dava o deserto: mel e gafanhotos. Era um homem livre de tudo e de todos... não bastaria cortar-lhe a língua, era preciso cortar-lhe a cabeça porque todo o seu corpo, todo o seu viver, todo o seu sangue falava alto demais e incomodava.

Depois daquela noite senti que o coração do Manahen mudou em relação a Herodes. Apesar de tudo, Manahen também aceitava que João fosse chamado de profeta... Há dezenas de anos que o povo não chamava a ninguém de profeta. Este João era uma Voz. Manahen já tinha escutado rumores acerca de “limpezas” criminosas ordenadas por Herodes, mas isto era demasiado. E se João era mesmo profeta, e se falava em nome de Deus?...


Mais tarde ouvi dizer na corte que andava a aparecer por aqueles mesmos lados da margem do Jordão um outro jovem, cheio de vida, feliz, de palavras fortes, sempre com um olhar iluminado de esperança que cativava multidões para o escutar.

Fiquei com vontade de o procurar, mas estava na hora de partir e tinha acabado de dar à luz o meu menino, o Lucas.
Meses depois, quando regressámos, a Susana falou-me dele novamente. Esse jovem, Yeshua, já não andava com multidões, nem ficou ali pelas margens do Jordão. Começou por andar por todos os povoados da Galileia, a sua terra natal, e estranhamente começou a caminhar com alguns poucos que o seguiam, para sul.

Depois de o ter escutado não voltei a ser a mesma. Decidi segui-lo. Deixei a corte. O Manahen nunca se opôs, ele mesmo andava inquieto com o pouco que se dizia do nazareno, mas não podia deixar a administração, Herodes jamais o permitiria.

Segui o nazareno, fui com a Susana que já andava com os chamados “Doze” (nome simbólico para significar “Novo Povo”) e colocava os meus bens à disposição sempre que era necessário uma vez que andavamos de povoado em povoado sem nunca nos chegarmos a instalar por muitas semanas. Eu estava habituada à vida nómada... mas isto era outra coisa.

... até àquela noite, em Jerusalém, em que alguns de nós tentámos que ele saísse connosco da cidade, porque já era perigoso andar de dia pelas ruas. Todos os religiosos o conheciam e já se sabia que o queriam prender e castigar.

Naquela noite, mais uma vez, comemos a ceia, recostados à volta daquela grande mesa. Parecia que estava tudo bem, e ao mesmo tempo não estava. O rosto do rabbi era mais grave e seguia todo o ritual da ceia mais devagar, como que a querer fazer tudo novo, com significados fortes. Queria colocar ali tudo o que estavamos a viver. Somos, todos juntos, aquele pão. Um pão, um corpo dele, que se parte e parte e parte, para que não falte a ninguém, e todos sejam um, aquele pão, aquele corpo... dele.

Estavamos preocupados.
“Onde é que tudo isto nos vai levar a nós?” repetiam eles.
O rabbi estava irredutível, daquela loucura insistente que não chegavamos a entender, recusava-se a voltar para trás, e o que mais nos causava medo é que se recusava a parar e a calar.
Depois da ceia foi tudo tão rápido, e tão dolorosamente lento ao mesmo tempo.






Tremi vezes e vezes sem conta cada vez que o contava ao Lucas, o meu menino de olhar fino e coração doce e inteligente. Nunca se cansava de me escutar, sempre a pedir-me para voltar a contar, ele queria gravar tudo dentro dele, como se aos poucos entrasse dentro do tempo e se pusesse lá, a caminhar com o rabbi, lá nesses lugares e nesses tempos que agora me parece que não ficaram lá.

O Lucas não se enganou quando me dizia que um dia escreveria tudo isto, para que esta notícia chegasse a muitos deste tempo e de outros tempos.


E escreveu mesmo, enquanto o Manahen, que se fez discípulo, presidia servindo a comunidade dos irmãos de Antioquia.







"Jesus andava em cada cidade e aldeia,
a dar a notícia do Reino de Deus
e os Doze com ele
e algumas mulheres
que tinham sido curadas de maus espíritos e de doenças:

Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios;
Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes;
Susana
e muitas outras,
que os serviam com os bens delas."
Lucas 8, 1-3



O Yeshua foi assassinado.
“Julgado” sem julgamento.
Condenado injustamente à pena de morte num poste e trave horizontal.
Assassinado fora da “santidade” da cidade santa.
Em pleno caminho de entrada na cidade, na véspera da maior festa do ano.
Naquela tarde, multidões passavam por ali para ir celebrar a Festa.
Ele era mais um entre tantos castigados mortalmente, para servir de exemplo,
os da religião diziam de alguma maneira:
“é assim que tratamos os rebeldes e desobedientes,
os que têm a ousadia de chamar a Deus de ‘papá’
os que põem em causa os nossos primeiros lugares
os que duvidam que sabemos tudo sobre o que Deus é e o que Ele quer
é assim que tratamos os falsos profetas e os outros também
porque para nós são todos falsos e incómodos
esses que têm a mania de defender os interesses do povo mais pequeno.
Fazem muito barulho
é preciso calá-los...”
E despiram-no deixando-o completamente nu
e deixaram-no assim exposto diante das multidões que passaram ali
(ora aqui está verdadeiramente o Yeshua, o santíssimo, verdadeiramente exposto)
e riram-se dele, mas de longe,
porque aquele lugar era demasiado impuro para as suas vestes imaculadas
“Falamos em nome de Deus, sabemos que é isto que Ele quer”
não se cansavam de o repetir ali, e ainda os ouço agora dizê-lo.
E para o afirmar melhor, e desacreditar esse nazareno parolo lá do norte
Fizeram questão que fosse no poste, de braços esticados na longa trave,
que fosse como dizem as sagradas escrituras: “Maldito aquele que está suspenso no madeiro”
A declaração fiel de que esse Yeshuah é um amaldiçoado por Deus.
O fracasso total de uma vida nada pacífica
e tão avisada pelos religiosos
“cuidado, não podes fazer isto... não podes fazer aquilo,
não podes fazer bem às pessoas
e dar-lhes esperança
e escutá-las
e criar ‘famílias’ que se apoiem e entreajudem,
é mau para os nossos ‘negócios’
e não andas a cumprir a Lei”

Todos os amigos fugiram, aqueles homens ‘fortes’
dos que ele chamava de amigos, irmãos,
ficaram os mais fracos... as mulheres
Como não rir diante de um profeta que afinal nem deixa discípulos homens
que mestre ridículo, as multidões que te seguiam, desiludidas, ou fogem ou te gozam


E morreu com a pergunta nos lábios “Meu Deus porque me abandonaste?”
porque era nos irmãos que Jesus via Deus, e não nas estrelas ou nos ares vazios.
E morreu entregue,
ainda assim a acreditar que Deus não se podia calar.

Morreu......

Acredito que a Terra inteira se calou naqueles instantes
Todos os pássaros e todos os riachos se calaram com o Deus calado

MAS....

Deus
escutou, viu e amou
Então Deus desceu e levantou-o
e jamais Se cala na voz dos que esperavam e dos que seguem esse
o que veio de Nazaré
é para lá que eu quero ir também
e começar tudo de novo sem deixar de olhar para trás
atrás do rabbi








"No primeiro dia da semana
de madrugada bem cedo,
as mulheres foram ao sepulcro,
levando os aromas que haviam preparado.
E encontraram removida a pedra da porta do sepulcro e,
entrando, não encontraram o corpo do Senhor Jesus.
Estando elas perplexas com isto,
apareceram-lhes dois homens em vestes resplandecentes.
Como elas ficaram com medo e voltavam o rosto para o chão,
eles disseram-lhes:
'Porque procurais entre os mortos o que vive?
Não está aqui, mas foi ressuscitado!
Lembrem-se de como vos falou, quando ainda estava na Galileia,
(...)
Lembraram-se das suas palavras.
Voltando do sepulcro, foram contar tudo isto aos Onze e a todos os restantes.

Eram elas Maria de Magdala,
Joana
e Maria, mãe de Tiago.
Também as outras mulheres que estavam com elas diziam isto aos Apóstolos;
mas as suas palavras pareceram-lhes um desvario,
e eles não acreditaram nelas."
Lucas 24,1-11