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Dia do Fiéis Defuntos



Celebrámos, há dias, o Dia dos Fiéis Defuntos.
E sobre este dia tenho uma vontade enorme de partilhar o que senti sobre uma entrevista feita num pequeno noticiário argentino, já há alguns anos atrás, feita ao Pe. Ariel Valdes, especialista em Escritos Bíblicos.

Antes de mais coloco duas importantes citações que falam claro sobre este assunto.
Diz-nos a Boa Notícia escrita por Marcos que, numa ocasião, os saduceus, um grupo de judeus que não acreditava na ressurreição, colocaram a questão a Jesus de uma mulher que enviuvara sem dar descendência ao seu marido com um filho, e que, segundo a Lei, o irmão do falecido deveria casar com a mulher para garantir a descendência do irmão… mas este morrendo também, coube ao irmão seguinte casar com ela… e eram 7 irmãos… a questão que colocam é «“Finalmente morreu a mulher. Na ressurreição, de qual deles será ela mulher?” Disse-lhes Jesus: “Não andareis enganados por não conhecerdes as Escrituras e o poder de Deus? Quando ressuscitarem de entre os mortos, nem casarão, nem se darão em casamento, mas serão como anjos nos céus. E, acerca da ressurreição dos mortos, não leram do livro de Moisés, no episódio da sarça, como Deus lhe falou, dizendo. Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob?
Não é Deus de mortos, mas de vivos.”»
Mc 12, 22-27

Os mortos não existem!
Soa-nos estranha esta afirmação, para muitos de nós.
Existe o momento da morte, existe uma ausência daqueles que morrem… mas…
Não existem mortos!

Talvez ainda mais escandalosa é a afirmação de que, ao morrer o corpo, também morre a alma, se quisermos usar estes termos… e é assim o Corpo inteiro que é corpo e alma que é ressuscitado no momento da morte.

Diz Paulo:
“Todos os dias morro pela glória que de vós tenho em Jesus Cristo.” 1Cor 15,31
Faz-me pensar que é agora que continuamente morremos até nada mais restar deste Corpo. E no momento em que se der a morte, então Deus nos ressuscita para nunca mais morrermos, e viveremos fora de todos os limites do tempo que passa.
É curioso o modo como Paulo, a essas primeiras comunidades seguidoras de Cristo, longe de Jerusalém, fala da primeira Humanidade e da segunda Humanidade… o primeiro Adão, e o segundo Adão…:

“Semeia-se corpo natural e ressuscita-se corpo espiritual.
Se há corpo natural, também o há espiritual.
Por isso, está escrito: «A primeira Humanidade, Adão, foi feita corpo que recebeu de Deus o sopro da vida de Deus;
O último Adão foi feito corpo dado por Deus que dá o sopro da vida de Deus».
Mas não é o espiritual que vem primeiro, é sim o natural; o espiritual vem depois.”
1Cor15,44-45
Se quisermos usar os termos corpo e alma, então eu digo que, no momento da morte, morre a pessoa inteira que é corpo e alma… O corpo morre e a alma morre.
Inteiramente é ressuscitada por Deus no momento da morte.
Por isso, os mortos não existem, como já referi.

Durante muito tempo nos foi ensinado que o corpo morria, e a alma subia para um lugar qualquer à espera de ser julgada, e depois no fim dos tempos, no dia da ira e do juízo final, então o corpo ressuscitaria e assim se poderiam juntar o corpo e a alma, voltando a viver. Mas, com que corpo, afinal?

Esta foi a resposta que a Igreja encontrou para esta questão, há muito tempo atrás, influenciada pelo pensamento do filósofo Platão que afirmava que o corpo era a causa de todos os males e doenças, ao contrário da alma que era a causa de toda a bondade e virtude. Era preciso então desprezar, castigar este corpo por ser causa de pecado e de afastamento de Deus, que aprisionava a alma, bloqueando-a de praticar livremente o bem e a afastava da relação com Deus.

Hoje a Igreja procura dar uma resposta diferente… sempre em busca e mais de acordo com a Verdade.
Todos sabemos que é com o corpo que agimos, falamos, abraçamos, sorrimos, amamos, animamos, ajudamos… e por isso este não pode ser totalmente mau. Se quisermos usar a linguagem do corpo e alma, então que o entendamos como 2 características do ser humano que jamais se poderiam separar porque simplesmente deixaríamos de ser nós próprios e passaríamos a ser uma outra coisa qualquer.

No momento da morte é a pessoa inteira que morre!...

Com que corpo afinal, nesse instante da morte, ressuscita?
Por exemplo, no caso de transplante de órgãos, o órgão que é doado vai fazer parte do corpo ressuscitado de quem, do doador ou daquele a quem foi doado?
E se o corpo e alma morrem, e no momento da morte ressuscitam, o que está então nos cemitérios?

Os cientistas dizem que em cada minuto perdemos milhares de células que o nosso corpo renova continuamente, em quase todos os nossos órgãos.
Em cada 2 semanas renovamos metade das nossas reservas de hidrogénio, sódio, fósforo.
Em cada 2 meses renovamos toda a reserva de carbono no nosso corpo.
Em cada ano renovamos 98% cada um dos componentes de quase todo o corpo.
Em cada 5 anos, cada um de nós já não tem praticamente nada do que foi anteriormente.
Ou seja, em termos práticos, se uma pessoa morre com 10 anos, então teve 2 corpos ao longo da vida. Se morre aos 20 anos, então teve ao longo da vida 4 corpos.

Se morre aos 50 anos, então teve 10 corpos diferentes. No momento da morte, qual destes 10 corpos irá ressuscitar? Será com o último? Ou será com o penúltimo enquanto ainda tive muita saúde, ou aquele com o qual terá praticado mais boas obras, ou com aquele com o qual foi mais feliz e fez mais felizes os outros?
No caso de alguém que morre aos 50 e tal anos, não irá ressuscitar nem com o corpo nº1, nem com o corpo nº2… nem com o 10º… Irá ressuscitar com o corpo nº 11, que é o Corpo glorioso, definitivo, que não morre, que não está sujeito às leis do tempo, um Corpo transparente porque absolutamente verdadeiro, dado por Deus.
E, tal como durante a vida, a pessoa não se apercebe da renovação de todas as células do seu Corpo, também será um pouco assim no momento da morte, recebendo de Deus o Corpo final, a pessoa sentirá que é um Corpo pleno da sua própria identidade única e irrepetível. O corpo que fica no cemitério é apenas o último de todos os que tivemos ao longo da vida sujeita ao tempo.

É a pessoa completa, inteira que morre, e inteiramente é ressuscitada por Deus nesse mesmo momento.
O nosso Deus é um Deus de vivos!

3 comentários:

Fora-da-lei disse...

Para além de partilhar do mesmo sentido acerca do "salto" para a outra margem,gosto de pensar nestes temas e de ler sobre eles,existem muitas suposições acerca do que acontece ao nosso corpo,assim como em relação à alma,sendo esta logo julgada assim que morremos e, depois outra vez julgada no fim dos tempos(?).
Acerca de tantos julgamentos coloco as minhas dúvidas,porque ao longo da vida fomos diversas personagens encarnando vários papéis...
Apesar de tantas e variadas questões,quero crer que Jesus está do outro lado de lá atento pronto para nos receber e estender a Sua mão, ao contrário do Catecismo que infundou na alma de muitos crentes o pavor da morte.
Que os bons vão logo para o céu e os maus para o Inferno.

Anawîm disse...

fora-da-lei,
eu acho não precisamos de esperar o "salto"... sabes bem que Jesus está já cá deste "lado"... e também já está cá o "céu" e o "inferno"... assim como os "bons" e os "maus", que se calhar cada um de nós é um pouco.
E era tão fácil começarmos a etiquetar agora: estes para o céu e aqueles para o inferno... quando nem sabemos bem o que haverá depois. Se calhar é só uma mesa posta e, só se senta à mesa quem quiser, e quem conhecer nela alguém cujo "salto" não matou o amor verdadeiramente comungado. Acredito que o "céu" é feito de gente e de comunhão.
Acredito que o "inferno" é feito de solidão e de ressentimento teimoso... E já temos muito disto por cá.

E tal como temos muito de "inferno" por cá, também há já muito de "céu". O Amor Comungado, Unido a alguém, como quem se une a um Corpo chamado Humanidade cuja Cabeça e Coração é Jesus, é "céu" e já se vive aqui. Os "petiscos" de entrada do banquete já estão servidos, só os "irmãos mais velhos" ficam lá fora a remoer vazios e se auto-excluem da festa.

E o Juízo Final... esse temível "bicho-papão"... só pode ser o final do tempo da nossa própria vida sujeita a ele.
Deus é bom, é muito Pai... se nós conhecemos alguns pais tão humanamente bons, que são capazes de perdoar vezes sem conta os seus filhos que cometem asneiras atrás de asneiras(às vezes muito graves, mesmo) sem os julgar, pelo infinito respeito que lhes têm e pelo amor que sentem, quanto mais Deus, que é infinitamente melhor que qualquer pai ou mãe...
Um abraço grande para ti, fora-da-lei...

José A. Vaz disse...

sobre este tema temos muitas perguntas e poucas respostas, mas quando as questões são postas assim, ficamos com mais matéria (e espírito)para dar respostas às nossas inquietações últimas. afinal, se não acreditarmos na ressurreição...