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Joana









Naquele dia estava já tudo preparado para nos pormos a caminho novamente, com a caravana, quando o Manahen foi convocado para mais um daqueles banquetes inesperados e fúteis que me esgotam. Apesar de ter crescido, e ter sido educada na corte, toda a minha vida, o meu sangue, gritou com saudades do deserto. É só lá que eu respiro, é lá a minha “casa”, quando montamos a tenda num vale aberto ou no cimo de uma montanha.

Era do meu pai, este negócio das sedas que trazemos das terras longínquas onde nasce o sol. Herodes, amigo de infância, que era como que irmão do Manahen, achou conveniente juntar as nossas famílias porque a minha é de muitas posses e o Manahen é o seu administrador, um alto cargo.

Nunca pensei que pudesse viver outra vez, e mais dolorosamente ainda o que vivi naquele banquete.

Apesar do Manahen não gostar muito na altura, eu fui várias vezes escutar aquele que fazia outros mergulhar no rio, o João. Fui poucas vezes porque ainda ficava longe de Tiberíades. Perturbava-me, inquietava-me, feria-me até, tudo o que ele falava alto daquela margem. Juntavam-se sempre uns poucos ali a escutá-lo e muitos eram os que se faziam lavar, mergulhar, pela sua mão. Falava de um tempo novo, que chegaria para quem estivesse disposto a abraçar esse novo. E eram assustadoras as acusações que fazia daqueles com quem eu mesma me reclinava à mesa nas refeições da corte. Que ousadia a dele!... Uma mistura de afronta com coragem desmedida que chamava os meus pés e ouvidos àquela margem.

Cheguei a convidá-lo a ir ao palácio, e Herodes ficou também assustado e ao mesmo tempo fascinado com aquele João.
Um dia fui escutá-lo novamente e já não estava lá. Herodes tinha mandado prendê-lo como quem quer guardar só para si uma ave exótica demasiado rara e demasiado perigosa... não fosse alguém dar-lhe ouvidos e isso chegasse a Roma... Aquela mulher terrível, Herodíades, com quem ele partilhava as ambições e podridões fê-lo calar de uma vez para sempre a Voz que falava no deserto deste povo. Não bastava cortar-lhe a língua, todo ele era uma ameaça provocante. Vestia-se com peles de animais e nunca ía ao mercado comprar alimento, procurava e comia o que lhe dava o deserto: mel e gafanhotos. Era um homem livre de tudo e de todos... não bastaria cortar-lhe a língua, era preciso cortar-lhe a cabeça porque todo o seu corpo, todo o seu viver, todo o seu sangue falava alto demais e incomodava.

Depois daquela noite senti que o coração do Manahen mudou em relação a Herodes. Apesar de tudo, Manahen também aceitava que João fosse chamado de profeta... Há dezenas de anos que o povo não chamava a ninguém de profeta. Este João era uma Voz. Manahen já tinha escutado rumores acerca de “limpezas” criminosas ordenadas por Herodes, mas isto era demasiado. E se João era mesmo profeta, e se falava em nome de Deus?...


Mais tarde ouvi dizer na corte que andava a aparecer por aqueles mesmos lados da margem do Jordão um outro jovem, cheio de vida, feliz, de palavras fortes, sempre com um olhar iluminado de esperança que cativava multidões para o escutar.

Fiquei com vontade de o procurar, mas estava na hora de partir e tinha acabado de dar à luz o meu menino, o Lucas.
Meses depois, quando regressámos, a Susana falou-me dele novamente. Esse jovem, Yeshua, já não andava com multidões, nem ficou ali pelas margens do Jordão. Começou por andar por todos os povoados da Galileia, a sua terra natal, e estranhamente começou a caminhar com alguns poucos que o seguiam, para sul.

Depois de o ter escutado não voltei a ser a mesma. Decidi segui-lo. Deixei a corte. O Manahen nunca se opôs, ele mesmo andava inquieto com o pouco que se dizia do nazareno, mas não podia deixar a administração, Herodes jamais o permitiria.

Segui o nazareno, fui com a Susana que já andava com os chamados “Doze” (nome simbólico para significar “Novo Povo”) e colocava os meus bens à disposição sempre que era necessário uma vez que andavamos de povoado em povoado sem nunca nos chegarmos a instalar por muitas semanas. Eu estava habituada à vida nómada... mas isto era outra coisa.

... até àquela noite, em Jerusalém, em que alguns de nós tentámos que ele saísse connosco da cidade, porque já era perigoso andar de dia pelas ruas. Todos os religiosos o conheciam e já se sabia que o queriam prender e castigar.

Naquela noite, mais uma vez, comemos a ceia, recostados à volta daquela grande mesa. Parecia que estava tudo bem, e ao mesmo tempo não estava. O rosto do rabbi era mais grave e seguia todo o ritual da ceia mais devagar, como que a querer fazer tudo novo, com significados fortes. Queria colocar ali tudo o que estavamos a viver. Somos, todos juntos, aquele pão. Um pão, um corpo dele, que se parte e parte e parte, para que não falte a ninguém, e todos sejam um, aquele pão, aquele corpo... dele.

Estavamos preocupados.
“Onde é que tudo isto nos vai levar a nós?” repetiam eles.
O rabbi estava irredutível, daquela loucura insistente que não chegavamos a entender, recusava-se a voltar para trás, e o que mais nos causava medo é que se recusava a parar e a calar.
Depois da ceia foi tudo tão rápido, e tão dolorosamente lento ao mesmo tempo.






Tremi vezes e vezes sem conta cada vez que o contava ao Lucas, o meu menino de olhar fino e coração doce e inteligente. Nunca se cansava de me escutar, sempre a pedir-me para voltar a contar, ele queria gravar tudo dentro dele, como se aos poucos entrasse dentro do tempo e se pusesse lá, a caminhar com o rabbi, lá nesses lugares e nesses tempos que agora me parece que não ficaram lá.

O Lucas não se enganou quando me dizia que um dia escreveria tudo isto, para que esta notícia chegasse a muitos deste tempo e de outros tempos.


E escreveu mesmo, enquanto o Manahen, que se fez discípulo, presidia servindo a comunidade dos irmãos de Antioquia.







"Jesus andava em cada cidade e aldeia,
a dar a notícia do Reino de Deus
e os Doze com ele
e algumas mulheres
que tinham sido curadas de maus espíritos e de doenças:

Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios;
Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes;
Susana
e muitas outras,
que os serviam com os bens delas."
Lucas 8, 1-3



O Yeshua foi assassinado.
“Julgado” sem julgamento.
Condenado injustamente à pena de morte num poste e trave horizontal.
Assassinado fora da “santidade” da cidade santa.
Em pleno caminho de entrada na cidade, na véspera da maior festa do ano.
Naquela tarde, multidões passavam por ali para ir celebrar a Festa.
Ele era mais um entre tantos castigados mortalmente, para servir de exemplo,
os da religião diziam de alguma maneira:
“é assim que tratamos os rebeldes e desobedientes,
os que têm a ousadia de chamar a Deus de ‘papá’
os que põem em causa os nossos primeiros lugares
os que duvidam que sabemos tudo sobre o que Deus é e o que Ele quer
é assim que tratamos os falsos profetas e os outros também
porque para nós são todos falsos e incómodos
esses que têm a mania de defender os interesses do povo mais pequeno.
Fazem muito barulho
é preciso calá-los...”
E despiram-no deixando-o completamente nu
e deixaram-no assim exposto diante das multidões que passaram ali
(ora aqui está verdadeiramente o Yeshua, o santíssimo, verdadeiramente exposto)
e riram-se dele, mas de longe,
porque aquele lugar era demasiado impuro para as suas vestes imaculadas
“Falamos em nome de Deus, sabemos que é isto que Ele quer”
não se cansavam de o repetir ali, e ainda os ouço agora dizê-lo.
E para o afirmar melhor, e desacreditar esse nazareno parolo lá do norte
Fizeram questão que fosse no poste, de braços esticados na longa trave,
que fosse como dizem as sagradas escrituras: “Maldito aquele que está suspenso no madeiro”
A declaração fiel de que esse Yeshuah é um amaldiçoado por Deus.
O fracasso total de uma vida nada pacífica
e tão avisada pelos religiosos
“cuidado, não podes fazer isto... não podes fazer aquilo,
não podes fazer bem às pessoas
e dar-lhes esperança
e escutá-las
e criar ‘famílias’ que se apoiem e entreajudem,
é mau para os nossos ‘negócios’
e não andas a cumprir a Lei”

Todos os amigos fugiram, aqueles homens ‘fortes’
dos que ele chamava de amigos, irmãos,
ficaram os mais fracos... as mulheres
Como não rir diante de um profeta que afinal nem deixa discípulos homens
que mestre ridículo, as multidões que te seguiam, desiludidas, ou fogem ou te gozam


E morreu com a pergunta nos lábios “Meu Deus porque me abandonaste?”
porque era nos irmãos que Jesus via Deus, e não nas estrelas ou nos ares vazios.
E morreu entregue,
ainda assim a acreditar que Deus não se podia calar.

Morreu......

Acredito que a Terra inteira se calou naqueles instantes
Todos os pássaros e todos os riachos se calaram com o Deus calado

MAS....

Deus
escutou, viu e amou
Então Deus desceu e levantou-o
e jamais Se cala na voz dos que esperavam e dos que seguem esse
o que veio de Nazaré
é para lá que eu quero ir também
e começar tudo de novo sem deixar de olhar para trás
atrás do rabbi








"No primeiro dia da semana
de madrugada bem cedo,
as mulheres foram ao sepulcro,
levando os aromas que haviam preparado.
E encontraram removida a pedra da porta do sepulcro e,
entrando, não encontraram o corpo do Senhor Jesus.
Estando elas perplexas com isto,
apareceram-lhes dois homens em vestes resplandecentes.
Como elas ficaram com medo e voltavam o rosto para o chão,
eles disseram-lhes:
'Porque procurais entre os mortos o que vive?
Não está aqui, mas foi ressuscitado!
Lembrem-se de como vos falou, quando ainda estava na Galileia,
(...)
Lembraram-se das suas palavras.
Voltando do sepulcro, foram contar tudo isto aos Onze e a todos os restantes.

Eram elas Maria de Magdala,
Joana
e Maria, mãe de Tiago.
Também as outras mulheres que estavam com elas diziam isto aos Apóstolos;
mas as suas palavras pareceram-lhes um desvario,
e eles não acreditaram nelas."
Lucas 24,1-11




Auquele que não foi curado

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Parece que há histórias assim… vidas… aparentemente destinadas a não ter um “Happy end”, da minha muitos poderiam dizer isso.
Alguém me tinha falado dele, esse que era de Nazaré, um povoadozito mal conhecido do Norte. Diziam, ao falar do Nazareno, que finalmente o Coração dos Céus de Deus se havia aberto novamente depois de centenas de anos fechado. Abriram-se os Céus com o dom deste grande profeta, grande em palavra e obra.

Para quem a vida nunca foi muito favorável não é muito fácil acreditar nestas conversas. Porque raio esse Deus Se haveria agora de lembrar de nós?... Não terá Ele mais que fazer?
Seria bom demais acreditar.
Mais certo será que isso seja boato começado por uns quantos fanáticos que gostam de ver e imaginar o que não existe.

Duvidei de mim próprio, e disse a mim mesmo:
“Matias, põe-te a caminho… sabe-se lá se…”

Se deambulava por aí algum profeta a falar e curar em nome de um qualquer deus eu não perdia nada em acreditar que era possível curar-me da minha cegueira. Ou seria uma esperança em vão?... Enquanto acreditasse seria feliz…

Coloquei-me a caminho

Coloquei-me a caminho, atrás desse nazareno. Por três vezes, sempre no meio de grande multidão, quase me aproximei, quase lhe toquei, quase lhe falei, quase deixei que me curasse.

Quase…
Não gosto particularmente de multidões. São como muros que me impedem de procurar, encontrar e falar.

Sou o Matias, aquele que, no meio da multidão, não foi curado pelo nazareno da sua cegueira. Talvez tivesse tentado aproximar-me mais vezes, mas em pouco tempo os Grandes mataram-no.
Vi que ele nem fugiu, nem formou exércitos com as multidões de homens, mulheres e crianças que o seguiam para todo o lado. Cá estava um grande sinal, sofreu a mesma sorte de todos os profetas. Mas ele era mais que profeta…

Quando o nazareno, ao ser morto, deixou de ser um, passou a ser vivo em muitos, foi então ele que se aproximou de mim, me procurou, encontrou e falou.

Hoje, com mais oito ou nove irmão, irmãos pelo Espírito de Deus, vivo a partilha, a esperança, a comunhão, a fé, o amor num Deus que acredito ser meu Pai, salvo do meio de multidões, numa família de irmãos que se conhecem pelo nome e se olham nos olhos uns dos outros.

Sou o Matias, aquele que não foi curado pelo nazareno no meio da multidão.



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Via em mim reflectido o seu rosto

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Via em mim reflectido o seu rosto
Se o fundo de mim estava sereno…
… o seu rosto era o presente,
se o fundo de mim estava agitado, por me levar ou me tratar com pressa…
… o seu rosto aparecia-lhe desfigurado
no fundo de mim

Cuidam de mim com cuidado, mas já sou velho
Passo de mão em mão
As contínuas idas e vindas gastam-me, desgastam-me
fora de mim já se notam os traços dos meus anos
fora de mim já se podem ver os traços daqueles que me possuíram
e dos que igualmente me “despossuíram”
Levado com ansiedade até ao poço
Sou trazido de lá, como peso que custa levar
já saciei gerações diferentes com a água que consigo levar em mim,
jovens, crianças e velhos, jovens crianças e velhos…

Sou um cântaro
Sou aquele que permite a alegria de saciar
mas também sou o grande peso daqueles que em mim pegam vezes sem fim
Sê-lo-ei até me quebrar todo, e já não for possível um conserto

Gosto de recordar como aquele meio-dia foi diferente.
Quando o sol abraça tudo com toda a força que consegue, eu quase estalava de tanto calor.



Eu e ela vimo-lo já de longe, como estava sentado à beira daquele poço para onde vezes sem conta sou lançado
e vezes sem conta regresso a transbordar de água fresca
Era aí que ele estava sentado, debaixo da árvore que oferece a sua sombra a quem por ali pára.
Não era de cá. Trazia nas sandálias o pó de caminhadas intermináveis.
Estava só… mas parecia esperar alguma coisa ou alguém. Ao vê-lo, ela parou de cantarolar como fazia sempre. Senti a surpresa no seu olhar curioso e escutei-a dizer baixinho:
“Ah… mas parece judeu!...
Que fará um judeu sozinho por aqui?!”

Mais surpreendida ficou quando meteu ele conversa. Coisa estranha demais porque, os judeus, acham-se os mais puros lá do sítio e quem não viver e rezar lá à moda deles não presta.

“Dá-me de beber!” foi o que ele pediu.

A conversa foi longa, do género de conversa que os cântaros não entendem muito. Só uma coisa sabemos, nós os cântaros, é que quando um jovem e uma jovem se encontram junto ao poço (que é coisa quase sempre combinada entre eles) quase sempre acaba em união das Famílias… em Aliança.

Ele começou a conversa pedindo:
“Dá-me de beber!”
E parece-me que depois terminou, para começar de novo de outro jeito quando já ela lhe disse:
“Dá-me de beber!...
… Quero ver-me no Teu rosto,
na Tua vida
Quero ver-me reflectida na Água que és e que dás…”


Samaritana,
naquele dia deixaste-me junto ao poço, esquecido,
quiseste levar as mãos livres,
a tua sede era agora outra.
Correste porque transbordavas de uma água que nunca eu levei,
eras tu cântaro
a transbordar tanto que não conseguias guardar toda essa Água só para ti.
Nesse dia uniste a tua família à Família d’Ele.




“Jesus, cansado da caminhada, sentou-se, sem mais, na borda do poço. Era por volta do meio-dia. Entretanto, chegou certa mulher samaritana para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-me de beber.»”
Jo 4,6







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Gracchus

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«Senhor, eu não sou digno de que estejas debaixo do meu tecto; mas diz uma só palavra e o meu servo será curado. Porque eu, que não passo de um subordinado, tenho soldados às minhas ordens e digo a um: 'Vai', e ele vai; a outro: 'Vem', e ele vem; e ao meu servo: 'Faz isto', e ele faz.»
Mt 8,8-9

Eu tinha falado ao meu centurião deste homem. Chamavam-no de nazareno, os chefes deste povo, era quase sempre em tom irónico, como quem revela a sua origem “saloia”. Mas, para o povo sem nome, ele era carinhosamente chamado por muitos de Yeshu… eu mesmo vi o jeito encantado com que pegava nas crianças ao colo ou qualquer catraio que corresse ao seu encontro… via-se bem como ele não estava nada preocupado em seguir essa lei absurda que os judeus têm sobre a impureza das crianças.
É. Estou há tantos anos destacado aqui neste fim de mundo, que começo a saber de que se ocupa esta gente, que deuses são os deles, e que regras e leis têm entre eles.
Demorei algum tempo até conseguir dominar a língua dos hebreus, mas, talvez por ser tão tagarela, acabei por aprender. Parecia que o meu pai já adivinhava a minha inclinação para a conversa espontânea, dando-me o nome de Gracchus…

Foi por causa de João, a quem conheci primeiro, que soube deste Yeshu. Estive tantas vezes sentado na margem daquele rio, a tentar perceber do que falava com tanta persistência aquele homem, João, até que me fiz baptizar por ele. É, deixei que ele me agarrasse e me fizesse mergulhar ao mais profundo de mim, dentro daquele rio de águas douradas, cor de terra, e deixei que ele me ajudasse a erguer de novo, firmando bem os pés no chão que não via, na terra que não conhecia nem entendia, numa pátria que não é a minha, por alguém que não era da minha cor, em nome de um Deus que só nesse momento desconfiei que era meu também. Este homem tinha palavras que eram como fogo, faziam queimar por dentro tudo o que eu queria lavar, limpar, purificar.
Este João dizia sempre que é preciso estar preparado, eu entendia bem o que ele dizia, porque eu fui treinado para estar sempre preparado… ele falava para estarmos atentos ao que estava para vir.

Já te falei que a vida de um soldado romano como eu, por aqui, é dura demais?
Tenho saudades do lugar onde nasci e cresci. Tenho saudades do abraço da minha Pérola… e sei que já nem conheço os meus filhos, nem eles tão pouco se lembrarão de mim, tão pequenos os deixei.
Aqui, todos nos desprezam, o ambiente entre “colegas” não é propriamente animador, ninguém vem para este fim de mundo por querer, fomos destacados para aqui e tivemos de obedecer aos nossos superiores. Grande parte de nós já sente que esta guerra é absurda.
Obviamente somos odiados por estas gentes daqui, só nos respeitam ao olhar o punhal que sempre trazemos connosco. E, das crianças um bocado mais atrevidas e educadas desde cedo neste ódio mortal pela nossa presença, é chuva de pedritas e insultos que nem sabemos de onde vêm.
Tenho saudades de casa, onde me respeitavam pelo que sou, onde me chamam pelo meu nome e nunca me apelidam de “cão” num dialecto estrangeiro.
Sou o Gracchus, só de João ouvi o meu nome, e parece-me que nasci de novo, ainda que só por instantes.

Mas João foi apanhado e assassinado, como acontece com todos aqueles que são perigosos para os grandes de qualquer terra.

Foi depois que João foi preso que o vi pela primeira vez, ao Yeshu. Houve breves momentos em que não me sentia longe de casa… era quando me sentava discretamente, no meio da multidão para escutá-lo.

A ele o povo chamava-o de “moreh” (homem sábio) porque ele não falava da religião, de leis ou de obrigações a cumprir segundo o culto dos hebreus. Nada disso. Ele falava de coisas que até eu entendia, da minha terra… da semente no campo, da vinha, do salário, da casa feita na areia ou na rocha, da mulher que com fermento faz o pão, da candeia no melhor lugar, da pérola preciosa e do tesouro.
Que homem apaixonado pela vida!...

Calhou-me em sorte um centurião bom. Também ele desejoso de regressar ao calor do seu lar partilhava comigo e os outros subordinados a dureza desta missão que parecia nunca mais terminar. É um homem bom que cuida dos servos como gente da sua própria família, como seus próprios filhos. Quando o pequeno Bali caiu de cama tão enfermo, o meu superior não largava a sua cabeceira, e então falei-lhe do Yeshu, como eram bálsamo as suas palavras, de tal modo docemente poderosas dentro de cada ouvido que o escutava, que toda a escuridão do desespero serenava para só reinar o sol da esperança e da paz.
Fiquei espantado quando o vi, de um salto, perguntar-me por onde andaria esse tal Yeshuah, que correria ao seu encontro.
Que grande foi a festa!... No mesmo momento em que o meu centurião falava com o moreh Yeshu, o pequeno Bali ergueu-se da cama, como se nada fosse, com um sorriso nos lábios e uma fome de bradar aos céus. Não sei a que deuses agradeci eu naquele momento, mas certamente Aquele a quem o Yeshu chama de Pai tantas vezes não me saiu do pensamento.
Mas que homem é este?!

A última vez que o vi estava a ser julgado. É que as palavras dele não eram como as de João… as dele queimavam por dentro e por fora também.
Ninguém que se aproximasse dele poderia continuar a viver indiferente à sua presença. A uns “levantava”, erguia… outros sentiam-se ameaçados, rebaixados. Colocar os olhos nele era como contemplar um lago de águas límpidas e profundas, nele vemos inteiramente aquilo que não somos, vemos o que somos, e o que seremos.
Nunca conheci ninguém que me provocasse assim, que me impelisse com tamanha força a dar um salto para o alto. E sem jamais querer fazê-lo sozinho, mas ligado por laços que não entendo, a outros.

Assassinaram-no aqueles que não queriam ver-se nele…
Derrubaram, arrancaram-lhe a vida que ele tanto amou
Atiraram-no ao chão… e o Pai dele levantou-o

Yeshu… Yeshu… o teu Pai tem-te vivo, levantado,
quero ver-me em ti
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Mosheh, aquele que foi salvo das “águas”

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“Havia uma festa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Em Jerusalém, junto à Porta das Ovelhas, há uma piscina, em hebraico chamada Betzatá. Tem cinco pórticos, e neles jaziam numerosos doentes, cegos, coxos e paralíticos.
Estava ali um homem que padecia da sua doença há trinta e oito anos. Jesus, ao vê-lo prostrado e sabendo que já levava muito tempo assim, disse-lhe: «Queres ficar são?» Respondeu-lhe o doente: «Senhor, não tenho ninguém que me meta na piscina quando se agita a água, e…”
Jo 5,1-17

… e perguntas-me o que quero e ainda hoje não te sei responder… nem sei bem o meu próprio nome, acho que deixei de ter um, há tanto tempo!...
Sou um desses velhos por dentro e criança por fora. Apodrecido por dentro com as coisas que desejo possuir, e criança por fora pela minha inconstância no agir, na irresponsabilidade das minhas palavras e dos meus gestos, sem querer nada que implique compromissos meus, qualquer coisa que exija de mim ser quem sou, e dar-me assim a alguém.
E quem sou eu?
Deixo-me estar aqui sentado à sombra de um destes cinco pórticos… estou doente, mas já nem sei de quê…
Tu, estrangeiro, que a tantos incomodas, chegas e fazes uma pergunta tão simples… e eu não te sei responder. De algum modo estranho, sinto-me seguro, aí sei com o que conto.

“Queres ficar são?”

Pois… eu sinto ser urgente explicar-te muito bem como é que funcionam as coisas por aqui, no meu mundo, à sombra do meu pórtico. É que nenhum doente, cego, coxo ou paralítico tem a vida mais complicada do que a minha.
Repara como todos se adiantam à procura de ser salvos, e se atiram à minha frente!
Estrangeiro, que vens lá do Norte, da Galileia, que sabes tu da minha vida complicada?
Já tenho ouvido falar de ti, não preciso que tu mesmo me fales de ti. Dizem-me que és o Filho de Deus… ora, ora, e que sabe Deus e o seu Filho da dureza da vida como eu sei?
E mais uma vez perguntas:

“Queres ficar são?”

Seguro mesmo é estar por aqui, mesmo que as águas estejam podres de tão paradas.
Sou um sem nome entre tantos a gemer e aqui ninguém me pede que eu seja mais do que o nada que sou.
Mas sou o que mais sofro entre todos, que não restem duvidas disso a ninguém.
Chegaste, ó estrangeiro, e não me perguntaste o meu nome, nem de onde sou… só me perguntaste se queria ser são, ser salvo, ser curado.
Eu vi-te, no outro dia, fazer a mesma pergunta a outro ali debaixo do outro pórtico… e dele, diante do pouco que dizias, só lhe ouvia o “Pois! Está bem… essa notícia é muito boa, mas não me serve para nada… precisava de ter ouvidos, olhos e pernas para a escutar e acolher na minha vida, como não tenho nada disso, nada feito”
E ainda lá está.
Vias-me distraído e voltaste a perguntar:

“Queres ficar são?”

Estou aqui de olhos tão mergulhados nas águas paradas de mim que já nem me lembro do que é viver fora daqui.
Ó estrangeiro? É mesmo comigo que falas?
Sabes… estou aqui sozinho, ninguém me ajuda a fazer o que é costume, para que eu fique curado. E assim sozinho, sei que não consigo, mas vou continuando à espera que as águas se agitem… no fundo, no fundo… estou mesmo à espera que as águas à minha volta se agitem, se mexam de tal maneira, mudem, que se moldem à minha medida. Que bom vai ser quando o meu mundo for exactamente como eu quero. Então, nesse momento entrarei nele. Pois claro!
Agora não sei viver nele, isso é coisa só dos salvos, dos curados… dos felizes…
Olha bem para mim! Achas que tenho alguma coisa que preste, para nele viver?
Estavas quase a ir embora, dizias que precisavas de continuar o teu caminho… mas ainda perguntaste mais uma vez

“Queres ficar são?”

E nem ouviste mais o que eu pensava… e foste dizendo
“Levanta-te! Pega no que és… e anda!”

Acho que precisaste de o dizer mais umas quantas vezes, até eu desistir de não escutar.
Rendi-me.
Levantei-me, sem que ninguém me tivesse dado a mão. Tu estavas comigo, e ao levantar-me pude ver atrás de ti uma multidão de gente que não me deixaria jamais voltar a dizer que estava sozinho.
Peguei no que era, no que sou… e fui
E não voltei a ser o mesmo

De vez em quando passo por ali, por aquela piscina de Bethzatá… significa “Casa da Misericórdia”… e a algum sem nome que por ali se lamenta da vida e espera a mudança de águas, também eu lhe digo

“Queres ficar são?”
“Levanta-te! Pega no que és… e anda!”

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0 - Porque não soubeste esperar... des-esperaste... Judas, que és 30

«Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que ele tinha ressuscitado dos mortos.
Ofereceram-lhe lá um jantar.
Marta servia e Lázaro era um dos que estavam com Ele à mesa.
Então, Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragrância do perfume.
Nessa altura disse um dos discípulos, Judas Iscariotes, aquele que havia de o entregar: “Porque é que não se vendeu este perfume por trezentos denários, para os dar aos pobres?” Ele, porém, disse isto, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e, como tinha a bolsa do dinheiro, tirava o que nela se deitava.
Então, Jesus disse: “Deixa que ela o tenha guardado para o dia da minha sepultura! De facto, os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim não me tendes sempre.”
Um grande número de judeus, ao saber que ele estava ali veio, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que ele tinha ressuscitado dos mortos. Os sumos-sacerdotes decidiram dar a morte também a Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, os abandonavam e passavam a crer em Jesus.»

Jo 12,1-10


Beth-anî… (Casa do Pobre)… foi em tua casa que o vi falar dos pobres.
Ela derramou sobre os pés do nosso Moreh Jesus… o nosso Mestre de vida… aquele aroma de nardo puro, também Rute se havia perfumado, e se havia deitado sob o manto com que Booz cobria os seus pés. (Rt 3,3-5)
Dava vontade de seguir os passos do Mestre, em busca daquele forte e suave aroma que levava no seu passo firme.
A cabeça dela recebeu aquela mesma unção, quando quis enxugar-lhe os pés com os seus longos cabelos… uma mulher a receber tal unção… nem imaginávamos, no momento, o que isso poderia significar senão depois.

Beth-anî… a tua casa encheu-se com o perfume que ele levava no seu passo, e a unção que ela levava na cabeça.
Marta servia, e Lázaro, o que estava renascido, estava à mesa com o nosso Mestre, e nós também. E mais uma vez o banquete. O Banquete era, para o nosso Mestre, um sinal tão importante… esse estarmos todos sentados à mesa… o lugar da festa, da alegria, da comunhão onde todos têm lugar, onde todos comem do mesmo prato e bebem do mesmo vinho.



Entre nós estavas… estás… Judas
Judas o teu nome diz-te… diz o que és, diz-te 30.
Sempre te vi afastado de nós. Parecia que fazias questão de, muitas vezes, não te dizeres um de nós… éramos para ti uns pobres ignorantes, uns quantos pescadores e uns outros quantos traidores como cobradores de impostos ao nosso povo. Todos mudámos de vida, todos mudámos de nome… só tu quiseste permanecer com o teu nome… 30.
Quem era o nosso Mestre, para ti, senão alguém meio analfabeto, mas com muito jeito para reunir multidões? Quantas vezes nos disseste que ele era perfeito para a causa da restauração do povo, mas só por aí, por atrair muitos a si…?
Multidões… Multidões… só com elas te alegravas, porque nelas te perdias e te encontravas sozinho. Vi-te connosco, mas nunca senti connosco. Não paravas de murmurar de nós… do Mestre… do que dizia, para onde ía, com quem falava… achavas sempre que eras tu o maior, tu é que sabias sempre tudo o que haveria de ser ou não ser. E depois amuavas quando nenhum de nós te dava ouvidos… como um menino de peito faz birra e se afasta.
Judas… querias tu ensinar o nosso Mestre de vida a salvar o nosso povo? Querias?
Judas… eras culto no meio de nós, sabias ler e escrever… e de que te valia isso, se não sabias ser fiel na comunhão connosco?
Judas… sempre te vi só, contigo próprio a murmurar contra tudo e contra todos… Tornaste-te fechado dentro de ti mesmo, como uma ostra envenenada.
Não percebeste o tesouro que leva em si o entendimento da semente que precisa de morrer para germinar… e como tudo isso leva tempo, os tempos que são só de Deus
Porque não soubeste esperar… des-esperaste… e preferiste vender-te, tu que te chamas 30, por trinta moedas, entregando a tua Vida… entregando o nosso Mestre… pelo preço de um escravo.

Muda de nome dentro de ti… nasce de novo, das “entranhas” do Alto. Nasce de Deus!

Ainda te vejo hoje deambular por tantas ruas, e dentro de tantas casas… fazes-te filho da divisão, da discórdia, da desunião, vejo-te bem porque o que se colhe da tua presença é um clima de aridez nas palavras, ressentimento no mais íntimo, rispidez nos gestos… continuas a pensar que é à força de braços e de umas quaisquer conquistas tuas que hás-de fazer chegar o Reino… e ainda não aprendeste, em 2000 anos, a esperar que seja o Mestre a levar adiante as coisas como só ele intui, como só ele sente, como só ele o ora, o conversa com o Abba.

Ainda não aprendeste?

Não são as tuas forças, nem os teus muitos saberes, que conquistam o Reino da Família de Deus… o Reino é puro Dom que se acolhe mais ainda do que se constrói, com irmãos, como quem espera amorosamente que a semente germine e cresça.
E tanto te queria dizer… tanto… mas calo-me diante do mistério que é este nosso Deus e o Seu Reino/Família que só Ele torna nosso/a

O nome dela

(Isto tem andado um bocado parado por aqui... É a vida!... Já agora aproveito para vos desafiar a propor temas que possamos "conversar" por aqui, se quiserem. Entretanto deixo aqui mais um "encontro imaginado". Um abraço a todos!)
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“Um fariseu convidou-o para comer consigo. Entrou em casa do fariseu, e pôs-se à mesa. Ora certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. Colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; enxugava-os com os cabelos e beijava-os, ungindo-os com perfume.
Vendo isto, o fariseu que o convidara disse para consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que lhe está a tocar, porque é uma pecadora!»
Então, Jesus disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa para te dizer.» «Fala, Mestre» - respondeu ele. «Um prestamista tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro, cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?» Simão respondeu: «Aquele a quem perdoou mais, creio eu.» Jesus disse-lhe: «Julgaste bem.» E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, e ela ungiu-me os pés com perfume. Por isso, digo-te que lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa pouco ama.» Depois, disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados.»
Começaram, então, os convivas a dizer entre si: «Quem é este que até perdoa os pecados?» E Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz.»

Lc 7,36-50

Cada vez que sinto o aroma de nardo, lembro-me dela, e do que aconteceu durante aquela refeição. A delicadeza com que quebrou a ponta do frasco entre os dedos e derramou o seu precioso conteúdo, sem deixar escapar uma única gota no chão da minha sala… e derramou-o sobre os pés do nazareno.
Depois daquele dia nunca mais a vi deambular pelas ruas do nosso povoado, nem de rosto abatido.
Conheço alguns que, de dia a ignoravam e até a maltratavam, mas de noite procuravam-na. Pobre mulher… Dizem que perdeu o marido numa dessas epidemias que ninguém sabe como aparecem, depois de uma vida complicada em que pelo peso dos impostos acabaram por perder o único pedaço de terra que possuíam… Depois de já ter sido casada dificilmente algum homem a quererá como esposa, encontrou naquela vida o modo de dar pão aos seus dois filhos, recusava-se a ser escrava de alguém.
O nosso Deus amaldiçoou-a, castigou-a com toda a sorte de desgraças por algum mal que ela ou algum dos seus antepassados fizeram. Deixou de ser mulher… uma pessoa e passou a ser uma espécie de gente porque toda a infelicidade lhe bateu à porta. Tocar nesta espécie de gente é tornar-se uma espécie de gente com ela. Jamais me aproximarei de alguém assim. Sou fariseu, filho de fariseu e os meus filhos seguirão o meu caminho de rectidão.
As maldições de Deus são como doença contagiosa.
Sigo tanto a rectidão que não me misturo com espécies de gente que não é tão recto como eu.

É verdade que não me lembro do nome dela… e o nazareno Yeshuah também não o mencionou, mas tenho a certeza absoluta que lho conhece. Entendi pelos olhares que trocaram, quando ela entrou, que ele a conhece bem. Como se terão conhecido? O que terão falado?
A pureza dos olhares que trocam deixam-me confuso, assim como o jeito desajeitado com que ele permite que ela lhe perfume os pés com óleo perfumado de nardo
Não era suposto ele permitir que ela o tocasse… que ousadia a dela… que raio de ousadia!... Como se atreve a tocar naquele que acreditamos ser talvez algum profeta de Deus, tantas são as multidões que o seguem.
Convidei-o a sentar-se à minha mesa, uma vez que se tornou tão conhecido, tão falado entre o povo… acreditei que poderia honrar a minha casa sentando-se à mesa comigo. Tinha esperança de talvez o motivar a seguir o nosso grupo, tal é a sua capacidade de comunicar… mas todos os meus intentos falharam.
Falharam todas as minhas intenções que levava já preparadas porque não sei quem é este homem. Não sei quem é porque, na verdade, não conheço ninguém com quem ele se associa, não conheço aqueles do lado dos quais ele toma partido… como esta mulher a quem lhe conheço os maus caminhos, mas não lhe conheço o nome.
Os que estão comigo dizem perplexos: «Quem é este que até perdoa os pecados?», mas o nazareno parece que não está “deste lado”… e parece nem ouvir. Está com ela e por isso lhe diz para ir em paz com a certeza de que está salva.
Quem é este homem, também eu pergunto… quem é este homem que dá certeza, a quem quer que seja, de que está salvo?
Quem é este homem?...



Assumiu tanto "aquele" lado que o vi mais tarde, num gesto semelhante, lavar os pés dos seus próprios amigos... como quem deixa um testamento, uma imagem para se gravar no mais íntimo e se procurar viver sempre. E não acabo de lhe entender o significado. Porque se aquela mulher muito pecou, o nazareno parece nada ter feito de condenável para que demonstre assim o reconhecimento de um grande amor, fruto de um grande perdão gratuito.
Quem é este homem?

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Diz-me com quem andas...

“Chegam sua mãe e seus irmãos que, ficando do lado de fora, pediram a alguém que o chamasse.
Ele estava sentado junto da multidão, quando alguém lhe disse:
«A tua mãe e os teus irmãos estão lá fora, e vêm buscar-te»

Ele respondeu: «Quem são a minha mãe ou irmãos?»
E, percorrendo com o olhar os que estavam sentados à volta dele, disse:
«Estão aqui a minha mãe e os meus irmãos
, porque quem fizer o que Deus quer, esse é o meu irmão e irmã e mãe.»” Mc 3, 31-3

Ele sempre foi o mais alegre de nós… eu e o André, talvez por sermos da mesma idade, éramos muito unidos, mas quando nos zangávamos é que era… Ninguém nos segurava, com a fúria que nos dava até de querermos fazer um olho negro um ao outro, coisas de miúdos, o sangue fervia-nos mesmo a sério…
Quando isso acontecia só ele, o Yeshu, é que conseguia parar-nos… quem estivesse por perto já nem tentava separar-nos, chamava logo pelo Yeshu. Mas ele nem sempre estava em Nazaré, ia muitas vezes às povoações vizinhas com o pai, procurar trabalho.
É que quando ele estava por ali, eu e o André, até fazíamos as pazes um com o outro. E no final até já ficávamos a rir-nos a valer do motivo da zanga. Eu desconfio que sei como é que o Yeshu conseguia sossegar-nos, ele amava-nos, e ficávamos nós mais aflitos era por deixá-lo preocupado connosco, embora nestas alturas ele se aproximasse de nós sempre em ar de brincadeira.
Parece que ainda o ouço, depois de uma gargalhada, dizer-me: “Isaías… tens o mesmo fogo que o grande profeta… só ainda não percebeste onde estão os ídolos contra os quais queres lutar…”

Quando o Yeshu estava em casa, era sempre uma festa, até parecia que as paredes ganhavam cor. Nada nele era diferente de nós… mas era o nosso irmão mais velho… sempre o amámos tanto! Ele era mesmo amado por todos os que o conheciam, pelo menos nesse tempo era assim.
Agora já não sei… parece que já nem conheço o Yeshu. Desde que correu lá por Nazaré a notícia de João, como era tão diferente a sua presença comparada com a dos sumo-sacerdotes do Templo Sagrado. João, todo ele, respirava a busca da Verdade.
Desde que ouvimos falar de João, o Yeshu deixou de ser o nosso Yeshu.

A mãe já se pergunta se foi por culpa dela… tudo isto… o modo estranho como deixou a nossa casa. Eu e o André só saímos quando arranjámos mulher e casámos… ainda assim, as nossas casas, construímo-las ao lado. Nem saberíamos como fazê-lo de outro modo… é assim, entre o nosso povo.
Mas o Yeshu foi em busca de si próprio, como ele dizia, sem saber bem o que procurava mesmo.
Todo ele respirava alegria e serenidade… mas depois desses dias em que soubemos de João, havia nele uma inquietação permanente, como se intuísse que havia alguma coisa muito importante a fazer, um caminho a seguir, um conjunto de decisões a tomar, uma urgência em assumir alguma coisa muito importante.
Deixou a nossa terra… e agora anda de povoação, não em busca de trabalho, mas em busca de pessoas que tenham fome de liberdade, que tenham fome de dignidade, que tenham fome de amor, que tenham fome… de pão…

Nós só não entendemos porque tem que ser deste modo!!!
Correm rumores que os chefes, de Jerusalém, o querem prender, nem entendo porquê!

O nosso Yeshu, deixou de ser só nosso, lá de Nazaré… e agora, pelo toque de todos é daqueles que o seguem, e se deixam libertar, curar, e se deixam amar, e se deixam saciar, em vez de se tornar ele mesmo impuro, parece que todos eles ficam iluminados por dentro, libertos, curados, amados, saciados.

Oh… mas porque é que ele não vem para casa?...
Porque nos deixa ele assim tão preocupados?
Temos medo que o prendam… temos medo do pior, como fizeram a João. Amamo-lo demais para sequer imaginar que alguém lhe queira mal.
Nós bem observámos como andam a rondá-lo, a vigiá-lo, aqueles do Templo. Eles andaram por Nazaré a fazer perguntas sobre o Yeshu, sobre a mãe e o pai, sobre a existência de rabinos na região e o que com eles tivesse aprendido.
Mas o Yeshu era todo do povo, era todo da vida que se vive todos os dias, com os pés assentes na terra, os braços sempre prontos para o abraço amigo, o olhar sempre atento a quem precisava de uma ajuda, e o Coração cheio de sonhos de liberdade para o nosso povo… e um sorriso, um sorriso inconfundível tem este meu irmão.
Nunca o vi aos pés de um mestre de Leis. O Yeshu sempre foi um judeu cumpridor, a mãe procurava que fosse, mas havia coisas que ele dizia ser absolutamente inúteis e até obstáculo para o milagre do Amor. Vi-o, antes, atento à sabedoria da vida vivida pelos anciãos da nossa aldeia... que ternura tinha por eles!...
É por causa da grande multidão dos que seguem e escutam o Yeshu que os chefes de Jerusalém o andam a espiar… é por causa dessas companhias com quem ele anda… aqueles pescadores rudes e incultos, perigosos também, porque noutros tempos andavam armados e aderiam aos movimentos de libertação do nosso povo, pelo uso da espada. Outros são cobradores de impostos, gente infiel do nosso povo que colabora com o império romano que nos domina. Outros são pagãos, outros cegos, paralíticos, coxos, mudos, surdos… leprosos, prostitutas, e mulheres simplesmente mulheres… todos esses que levam feridas tão profundas dentro de si, que são considerados, julgados, impuros segundo esta nossa Lei tantas vezes injusta…

Yeshu… volta para a tua casa, para a tua terra… volta!...
Ficamos aqui à porta… nós e a mãe não queremos entrar por esta casa dentro, entrar pela tua vida dentro assim
Ficamos aqui à porta, ainda que a multidão se acomode para que entramos.
Não viemos para ficar… queremos que venhas connosco e esqueças esta loucura toda.
Não queremos que ninguém te magoe…

Os pães e os peixes


“Seguia-o uma grande multidão, porque presenciavam os sinais que ele realizava em favor dos doentes.
Subiu ao monte e sentou-se ali com os seus discípulos.
Estava a aproximar-se a Páscoa, a festa dos judeus.
Erguendo o olhar e reparando que uma grande multidão viera ter com Ele, Jesus disse então a Filipe:
«Onde havemos de comprar pão para esta gente comer?»
Dizia isto para o pôr à prova, pois Ele bem sabia o que ia fazer.
Filipe respondeu-lhe:
«Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho.»
Disse-lhe um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro:
«Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?»
Jesus disse:
«Fazei sentar as pessoas.»
Ora, havia muita erva no local. Os homens sentaram-se, pois, em número de uns cinco mil. Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os pelos que estavam sentados, tal como os peixes, e eles comeram quanto quiseram. Quando se saciaram, disse aos seus discípulos:
«Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca».” Jo 6,1-14

Naquela madrugada, eu e os meus pais fomos à procura daquele homem admirável de quem tantos falavam. O meu pai estava doente e a minha mãe era de idade avançada, por isso fui eu quem levou o farnel preparado pela minha mãe que me dizia cautelosa: “Nunca se sabe quando tempo escutaremos o Mestre, nem até onde o seguiremos na esperança de que, no meio das multidões, ele nos olhe e cure o teu pai… é melhor precavermo-nos e levarmos alguma coisa para comer.”

Lá fomos, e como já era habitual, era eu quem levava a sacola.
Ouvimos falar que estava do outro lado do mar da Galileia, no cimo de algum monte como fazia habitualmente com aqueles que estavam sempre com ele.
Ele contava-nos sempre muitas histórias… falava-nos da semente no campo, de donos da vinha e dos que nela trabalhavam, falava-nos do vento, dos lírios, dos pássaros que não semeiam nem colhem, do fermento que as mulheres usam para o pão…
… falava a nossa “língua”, andava no meio de nós, tocava-nos a todos com as palavras e com os abraços… deixava-nos fascinados, eu ainda era miúdo e parecia-me entendê-lo tão bem, o jeito que ele tinha de viver era tão diferente dos doutores do Templo que nos impunham regras e só nos falavam do livro da Lei, do livro da Lei, do livro da Lei.

Yeshuah falava-nos de cura, enxugava as nossas lágrimas de povo encurvado e triste, falava-nos de alegria, de festa, vivia dentro das nossas casas, falava-nos dentro da nossa própria vida. Ele era verdadeiramente um de nós, e nunca o vi misturar-se com os “grandes” de Jerusalém… escutei-o uma vez dizer que todo o poder, o dinheiro e os palácios construídos pelo ser humano, prendem o Coração e não o deixam ser quem é… livre. Foi por isso que o vi afastar-se, fugir mesmo… depois do que aconteceu naquela tarde.

Ficávamos maravilhados com tudo o que falava porque nos dava a Notícia de que Deus, afinal, estava connosco e não fechado dentro do Templo… Dizia-nos que a Sua presença é como a de um paizinho que não consegue afastar-se de nós por tanto nos amar e desejar ardentemente que construamos Comunhão entre nós, com Ele…
Havia quem dissesse que já o tinha escutado a falar com Deus, e que ele mesmo o chamava de Abba… Abba… da mesma maneira e com o mesmo carinho como eu chamo o meu papá.

Nunca nos cansávamos de o escutar… até nos esquecíamos de comer, a fome que íamos sentindo no estômago confundia-se com a fome que o nosso Coração tinha de o escutar mais e mais… e ele também parecia que se perdia a falar, sobretudo quando queria com todo o Coração dizer-nos como sentia ele o Reino… esse Reino que todos esperávamos, o nosso Reino, encabeçado pelo Rei ungido pelo próprio Deus do nosso povo. Não o entendíamos, mas ele dizia-nos que esse Reino já estava presente, mas seria pleno não agora e não aqui.

Num certo momento escutei os discípulos, afastados dele, muito atrapalhados porque o Yeshuah lhes tinha pedido para irem ver o que poderia haver de comer…
Estávamos longe da cidade mais próxima… e ainda aí, poderia não haver pão que chegasse para todos comerem. Eu fiquei espantado porque eles queriam arranjar pão para dar a todos… para todos, como era possível? Eles sabiam que era impossível, era preciso muito dinheiro. Eu não entendi porque não pediram eles a colaboração do povo.

Foi um gesto tolo, se calhar, hoje penso muito nisso… mas fui ter com eles e dei-lhes tudo o que tinha na sacola… os cinco pães e dois peixes que a minha mãe tinha cuidadosamente arranjado para comermos no caminho. Aborreceu-se comigo, a minha mãe, no primeiro instante… mas depois serenou, estávamos com o Yeshuah, o que poderia faltar-nos? Era um homem que fazia grandes sinais.

O André que andava sempre com ele, em tom de gozo, foi dizer ao Yeshu o pouco que eu oferecia. Mas o Yeshu mandou chamar-me, e entreguei nas mãos dele o que eu tinha, o olhar dele brilhava encantado comigo. Senti que eu estava a ser tão importante para ele.
Ele pegou no pão e deu graças, ao jeito do nosso povo quando se senta à mesa da refeição. Ao verem o meu gesto houve um momento em que todos queriam dar o que tinham ao Yeshu, para que fosse ele mesmo a pronunciar a bênção sobre tudo o que houvesse, e ele e os seus discípulos o distribuíssem. Mas ele não quis assim.
Pediu, antes, a todos, que se sentassem em grupos como quem se senta para um banquete… já era tarde, já escurecia… muitos não entenderam o que se passou, mas ninguém ficou com fome, porque o pouco que cada um guardava o partilhou no seu grupo e ainda sobrou.

O que antes chamávamos de multidão, no momento em que partilhávamos o pão, deixámos de o ser assim… sentados na relva, enquanto comíamos e os discípulos do Yeshu iam passando por ali, a cuidar para que ninguém ficasse com fome, falávamos maravilhados uns com os outros, olhos nos olhos, o que tínhamos escutado nas palavras daquele mestre encantador.

Que grande sinal realizou! Que grande sinal!...
Nesse dia não podíamos imaginar que fosse a primeira de tantas refeições partilhadas ao mesmo jeito, entre aqueles que amavam o Yeshu, e se amavam entre si, unidos nesta esperança do Reino já presente, a construir-se já aqui na comunhão de todos os que se unem ao Yeshu…

Ele morreu. Mataram-no os “grandes” porque se tornou uma presença incómoda e libertadora de Corações… os “grandes” do nosso povo não o suportavam.
Mas acredito que ele está vivo, o nosso Abba levantou-o. Sempre que hoje nos reunimos, fazemo-lo assim, em eukharistia (EÚ=bom e KHÁRIS=graça, dom gratuito), e falamos sobre tudo o que o Yeshuah nos ensinou sobre a nossa Comunhão e o Reino. Vivemos de novo este deixar de ser multidão anónima, para ter um nome e um olhar, e vivemos o milagre da partilha do pão que é de todos, que nos faz UM.

E ele, o Yeshu, está connosco… sempre. Ele é o Primeiro de nós, connosco.

O pastor de Nazaré

“Qual é o homem dentre vós que,
possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas,
não deixa as noventa e nove no deserto e vai à procura da que se tinha perdido,
até a encontrar?
Ao encontrá-la, põe-na alegremente aos ombros e,
ao chegar a casa,
convoca os amigos e vizinhos e diz-lhes:
‘Alegrai-vos comigo,
porque encontrei a minha ovelha perdida.’”
Lc 15,4-6


Estava eu, de passagem, por Cafarnaum, e tive mesmo que me aproximar porque não podia acreditar naquilo que os meus olhos viam.
Era mesmo ele, tinha o mesmo sorriso e a mesma vivacidade de sempre.
Ainda me lembro tão bem como aquele rapaz ainda de palmo e meio tanto barafustou com a mãe porque teimava em vir comigo numa daquelas tantas madrugadas. Tantas vezes já, eu tinha conseguido demovê-lo, que desta vez já não sabia como fazê-lo.
Estava eu a abrir a porta da cerca do meu rebanho de cem ovelhas e cabritos, antes ainda de espreitar o sol, espreitavam já aqueles olhitos ensonados da janela da Maria do Ti José. Ainda pequenito corria a agarrar-me na manga da túnica a perguntar-me onde ia eu, tão de noite ainda…

Mas daquela vez tanto teimou que acabei por aceitar trazer o rapaz uma vez ou outra… “Mal não lhe faz…” dizia a Maria “… pode ser que se canse com a caminhada!”, e riamo-nos enquanto me colocava nas mãos um farnel para comermos a meio da tarde. Mas não eram trabalhos para um rapaz tão cheio de vida como ele era. É que eu não sou muito dado à conversa.
E eu gosto da vida de pastor, não o nego… mas é tarefa dura.

Mas o Yeshu tinha qualquer coisa de especial, que encantava. O raio do miúdo fazia-me sempre cada pergunta!... Coisas em que eu nunca tinha pensado, não sei onde ia buscar ele tanta pergunta. Diante daquele olhar o mundo inteiro parecia-lhe um mistério que o empurrava para a frente, o desafiava a descobri-lo e a conhecer-lhe os segredos mais íntimos, as razões de ser e existir mais profundas.

Parecia que a caminhada até às pastagens nunca o cansava. E é que tínhamos ainda que subir e descer uns quantos montes… mas ao chegar àquele alto da serra é que era um regalo vê-lo a percorrer com o olhar toda a paisagem em redor… de cada vez que ali chegava parecia ser sempre a primeira, e bebia com os olhos, sem pestanejar, tanta beleza que ali se pode contemplar, e respirava tão fundo que parecia querer conter o ar inteiro da serra.

Das perguntas que mais me desconcertaram, foi quando uma vez quis perceber se eu me sentia como uma mãe a cuidar dos filhotes. Era um rapaz esperto, e eu bem via como ele estava atento ao cuidado extremo que eu tinha com as ovelhas.
Esta vida é muito solitária… passam-se dias, às vezes semanas, em que não vejo ninguém… mas se acontece passar dois ou três dias longe delas, é bem verdade que já lhes sinto a falta.
Ganhei um carinho por todas elas que nem sei explicar. É verdade que as conheço muito bem a todas… são todas tão diferentes para mim.

Algumas delas ainda me dão um bocado que fazer, é mesmo preciso, às vezes, de um salto, encaminhar três ou quatro das mais novitas que teimam em meter-se nas silvas.
Tenho uma dezena delas que é preciso ter muita calma, já não andam tão depressa como as outras. Outras são tão apressadas que tenho que estar sempre a assobiar-lhes e a fazer-lhes sinal com o cajado porque senão vão por aí sem rumo…
O pior ainda é quando andam por lá os lobos… há épocas em que é assim. É nessas alturas que tenho que redobrar os cuidados, para as ter juntas o melhor possível, para que não as perca de vista e porque com o rebanho bem unido assim, os lobos já não se atrevem tanto.

É bem verdade que amo muito as minhas ovelhas… nunca perdi nenhuma delas… venha o lobo que vier, tem que me fazer frente, porque do meu rebanho não leva nenhuma.

Mas houve uma ocasião, em que o rapaz tinha vindo comigo, o Yeshu, e o tempo tinha arrefecido nesse dia, caiu um nevoeiro como é raro ver por aqueles lados. E foi mesmo no dia em que tive que seguir mais adiante nas pastagens porque já não havia pasto por ali. Já estava na hora de comermos o farnel e dei-me conta que faltava uma ovelha. Não havia sinais de lobos por ali… e imaginei logo que ela se tivesse perdido do rebanho.
Fiquei de Coração nas mãos a pensar em como estaria ela assustada, se estaria ou não ferida, se estaria aflita, presa em algum silvado, sozinha, exposta ao perigo dos lobos. Não sei descrever como fiquei, só tinha certeza de uma coisa… não conseguia de maneira nenhuma deixá-la para trás. O Yeshu só me olhava com aqueles olhos, como quem quer ajudar sem saber como…
Arrisquei tudo… confiei nas minhas ovelhas a ponto de as deixar sozinhas… em grupo estavam menos expostas, corriam menos perigos do que a minha ovelha que estava perdida não sei onde. Pobre ovelha… parecia que a imaginava na sua aflição, porque nunca se tinha visto assim sozinha no meio do monte.
Arrisquei tudo… confiei que as minhas outras 99 haveriam de ficar por ali, enquanto eu me atirei numa corrida a ir procurar a minha ovelha… onde estaria ela…?
Procurei e corri o mais depressa que pude, por ela, e pelas que deixei no prado. Procurei, procurei sem desistir, eu só queria encontrá-la…
E por fim, encontrei-a, gemia desconsolada, aflita… estava ferida nas patas de tanta corrida que deve ter dado, depois de ter caído da aventura de algum penhasco que tentou subir, já a vira algumas vezes a tentar fazer dessas peripécias… fiquei tão emocionado ao vê-la que a abracei e carreguei com ela até junto do rebanho para lhe tratar das feridas.

O rapaz corria comigo o tempo todo… por momentos nem me preocupava com ele, acompanhava-me bem. Mas hoje vejo como viveu intensamente a minha aflição desse dia…

Oh... isto nem parece meu, ouvi-lo agora a falar da nossa ovelha perdida, fez-me recordar tudo e emocionou-me.. Ouvir o Yeshu, tão homem já, ali, no meio daquela gente que o ouve com tanta atenção e admiração… a contar-lhes a nossa história…
Agora entendo, sim…
Agora percebo melhor porque me comparava ele a uma mãe cuidadosa com os filhos… andava ele a descobrir quem era o nosso Deus, andava a descobri-l’O e a saboreá-l’O.

Parece que ainda foi ontem que vi este rapaz andar, uma vez ou outra, comigo pelos montes, e as ovelhas todas… naquela serra imensa onde se respira um ar tão diferente de tudo, onde nos parece que num abrir de braços agarramos todos os montes… aí onde o silêncio é tão cheio, tão pleno de vida, tão pleno de toda aquela vasta imensidão que nos faz saborear as melodias do vento. Onde o sol queima e escurece a pele, e quando o frio nos apanha e nos obriga a encontrar ou construir abrigo e em que o calor fogueira é o que apetece e sabe bem ao final do dia…
Tudo isto porque é preciso levar todas as ovelhas às melhores pastagens.

Ele bem pode dizer hoje que é um bom Pastor porque o que dele se ouve, enche-nos o Coração, como quem leva um rebanho incontável de ovelhas, umas feridas, outras assustadas, outras desprezadas por outros pastores, outras sozinhas, outras perdidas… as une sempre e as leva a comer e beber em prados do melhor que se pode conhecer…

É Deus, assim, um Pai tão meigo, como uma mãe tão cheia de cuidados e atenções… como um pobre pastor, como eu… que tão amorosamente cuido do meu rebanho…?

Yeshu… Yeshu…





(As fotos são do documentário "Ainda há pastores"do realizador Jorge Pelicano, um filme que vale bem a pena saborear)

Nicodemos



“José de Arimateia, que era discípulo de Jesus,
mas secretamente por medo das autoridades judaicas,
pediu a Pilatos que lhe deixasse levar o corpo de Jesus.
E Pilatos permitiu-lho.
Veio, e retirou o corpo.
Nicodemos, aquele que antes tinha ido ter com Jesus de noite,
apareceu também trazendo uma mistura de perto de cem libras de mirra e aloés.
Tomaram então o corpo de Jesus
e envolveram-no em panos de linho com os perfumes,
segundo o costume dos judeus.”
Jo 19,38-40

Aqueles dias ficaram gravados em mim de um modo que nunca saberei explicar bem.
Ainda hoje penso… que poderia eu ter feito? Que esperaria ele de mim?...
Era um galileu aparentemente iletrado, mas de uma sabedoria e de uma lucidez como eu jamais vira em alguém.

Eu tinha muito, demasiado a perder.
Era, por aqueles dias, um dos 71 do Concelho, um desses mais importantes entre o povo, nesta cidade que é o Coração da Fé do meu povo… Jerusalém, minha amada Jerusalém.
Foi-me dado um justo lugar que os meus muitos anos de fidelidade a todas as nossas Leis, a todas as nossas Tradições, e uma incansável dedicação pelo nosso povo, me fizeram merecer tal honra…ou talvez não… talvez mais peso tiveram as terras e bens que possuía, já não sei. Mas estava lá escrito o meu nome, entre os grandes: NICODEMOS…


Poderão todos pensar que um lugar de destaque assim traz somente privilégios, confortos, mas, todos os dias, rodeado de tanto luxo sentia-me também aprisionado, sufocado, como quem vive escravo de um número incontável de regras, de procedimentos, de rituais… muitos dos quais já nem eu tinha consciência do seu significado ou simbolismo.
De uma coisa, hoje, estou certo… enjoam-me as honras, o poder, e ser reconhecido pelo que tenho e pelo lugar que ocupo sem muitas vezes conseguir discernir quem são verdadeiramente os meus amigos. Se lhes agrada a minha companhia e os meus interesses, ou se estão a maquinar um jeito de conseguir algum privilégio através das minhas influências e das pessoas poderosas que conheço. Estou cansado de teatros.

E surgiu este galileu, que tantos reconheceram como verdadeiro profeta, e fez tremer dentro de mim todas as certezas, todas as verdades que eu conhecia.
Foi José de Arimateia, que me falou dele pela primeira vez. José, também membro do Conselho, mais novo que eu, parecia sempre mais pronto a acreditar em alguma libertação do nosso povo do poder que nos dominava.
E, um dia, fez-se discípulo daquele Yeshuah galileu. Tantas vezes o avisei para não se deixar envolver com essa gente inculta, mas parecia-me deslumbrado, quase fora de si quando me falava do que ele ensinava, e da presença dele… A própria mãe do José já o seguia. Ele falava-me de tal maneira dele que eu mesmo quis buscá-lo e entender que espíritos possuíam esse homem. Já muitos outros falavam dele também. As suas palavras pareciam cativar os que nada possuíam… e muitos dos que tinham muito poder desprezavam-no.
Parecia que conseguia mesmo fazer vir à superfície a verdade mais profunda do que ia no Coração de cada homem. Vi tantos, pelos palácios que eu tantas vezes percorria, perder a compostura, quando se falava na última novidade provocada por este homem.
Eu já não sabia o que pensar dele. Se ele praticava o bem, porquê tanto rancor no olhar de tantos, porquê tanto encantamento no olhar de outros?
José estava diferente, já não estava presente tantas vezes nas reuniões do Conselho… a não ser naqueles dias antes da Páscoa… quando Yeshuah foi julgado por alguns dos nossos.

Já ouvira a muitos dizer que nada nele havia de violência, não andaria armado. E foi então que me decidi.
Fui ter com ele, numa noite…
Era noite também dentro de mim, porque toda a vida busquei a verdade e parecia-me não a ter encontrado ainda. Tantos anos que dediquei ao estudo das Leis… à procura do Coração do nosso Deus, à procura dos mais pequenos desejos d’Ele, para os satisfazer.
E fui ter com esse galileu, numa noite, cheio das perguntas que as noites fazem crescer dentro de nós… nessa noite eu ainda não o sabia, mas queria muito ver o rosto dele... eu já me tinha cruzado de longe com ele, quando o vi sentado à entrada do Templo, com alguns que passavam e se deixavam ficar a escutá-lo, com palavras que entravam pelo Coração dentro, umas doces, outras duras… Queria muito escutá-lo, queria entender, queria conhecê-lo, mas sem colocar em risco a minha honra, por isso fui de noite ter com ele.

Encontrei-o sentado a colocar uns galhos na fogueira diante da qual estava sentado, o seu olhar parecia tão longe dali… nessa noite não poderia sequer imaginar no que pensaria, só mais tarde eu poderia entender o momento que estava ele a viver. Só mais tarde eu entenderia melhor a razão dos olhares mais amedrontados que o meu, daqueles e daquelas que o cercavam.
Finalmente estava eu ali diante dele, e podia fixá-lo olhos nos olhos… nada nele exalava nenhuma espécie de medo… pareceu-me que não haveriam cadeias que lhe prendessem o pensamento ou aquele olhar… ou o Coração.
Vi que era um homem livre… dessa liberdade que eu silenciosamente desejava no meu íntimo e ainda não conhecia.

Vi nele um judeu como eu, tão igual e tão diferente, tão humilde no modo de vestir e de estar, e no entanto exalava uma dignidade e uma presença tão forte como a de um rei de pés descalços… um olhar tão meigo como o de um familiar irmão e ao mesmo tempo com a dureza própria de um homem da sua idade, nada alheio à maldade que existe nos Corações humanos.
Um único olhar seu, tão expressivo, tão repleto de uma paz inquietante, parecia dizer mais do que muitos livros. Antes mesmo que ele dissesse uma palavra já era inexplicavelmente agradável estar ali com ele.
Não era um homem vulgar, qualquer coisa nele me impeliu a chamá-lo de mestre, ao jeito do nosso povo… “Rabbi…”
De início ele olhou-me, desconfiado… afinal de contas, as minhas vestes denunciavam a minha posição, as minhas mãos cuidadas, e os meus pés bem tratados e bem calçados mostravam bem qual era o meu “ofício”… e apressei-me, interiormente relutante, a sentar-me também diante da fogueira, ali mesmo no chão.

Queria fazer-lhe tantas perguntas!... Eu que era mestre reconhecido pelos grandes deste mundo, fiz-me discípulo de um galileu nazareno, por uma noite.
Falou-me na urgência em nascer de novo, sem que eu soubesse entendê-lo, parecia ler-me o Coração inteiro… nascer de novo, começar e aprender a viver outra vez, como?
Falou-me em nascer, não do ventre das mães, mas do ventre da Água e do Espírito…
Falou-me da liberdade do vento que apenas se ouve, mas ninguém sabe de onde vem, nem para onde vai… e que é assim que acontece com quem nasce de novo.
Da minha vida cheia de seguranças e do meu futuro estável e sem sobressaltos, perguntei-lhe como poderia ser isso assim.
Falou-me da luz, eu que o procurei na noite.
Falou-me de quem prefere a noite, para que as suas obras não sejam conhecidas.
Falou-me de quem se aproxima da luz, por praticar a verdade, para tornar claros os seus actos segundo a vontade de Deus.
Falou-me tanto de mim próprio, sem dizer o meu nome. Parecia que nas suas palavras trazia tantos nomes de tantos rostos… não falava de multidões, mas de pessoas. Não falava de normas, mas de vida. Não falava de fardos, mas de liberdade. Não falava de tronos ou poderes, mas num lugar em que todos são irmãos, todos… não apenas os do nosso povo, mas todos os povos. Não falava de guerras ou domínios, mas de uma outra cidade em que Deus tem já preparado um banquete e está à porta, à espera para servir quem chega. Como um pai, desejoso de nos dizer: “Ardia em desejo de te abraçar e de te sentar à minha mesa, comigo!”
Perguntava-me vezes sem conta como poderia ser isso…
Fiz-me discípulo daquele galileu por uma noite.

Outros, do Sinédrio, mandaram os guardas do Templo ir prendê-lo… mas os guardas regressaram, sem saber como prender tal homem, estupefactos, tanto quanto também eu já andava… ainda retorqui: “Porventura permite a nossa Lei julgar um homem, sem antes o ouvir e sem averiguar o que ele anda a fazer?”. Eu tinha já um fogo dentro de mim que não podia calar completamente. Esperava que também eles o buscassem e o escutassem como eu fiz… mas tinham os Corações endurecidos.

Até que chegou aquele dia tenebroso em que os nossos o apanharam e o quiseram julgar, eu, o José de Arimateia, e poucos mais, não concordámos com a sentença e a decisão final… mas eles prosseguiram, com o apoio de Pilatos condenaram-no à morte. Acabariam assim com o estorvo que lhes causava este homem.

Que mais poderia eu ter feito?...
Ainda hoje me faço esta pergunta… como fiz na tarde daquele dia enquanto segurava nos meus braços o corpo sem vida deste homem. José de Arimateia teve a coragem que eu não tive de falar com Pilatos, secretamente, para retirar o corpo do Rabbi, da cruz, e lhe dar uma sepultura digna de um judeu.
Levei mirra misturada com aloés em tal quantidade que só é digna de um rei.
Só estavam connosco a mãe do José, e uma outra discípula do galileu Yeshuah… a Maria que era de Magdala, uma mulher que se dizia ter bebido das palavras dele como ninguém.
Foi ela que, no dia seguinte, disse que o Rabbi estava vivo…