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Os pães e os peixes


“Seguia-o uma grande multidão, porque presenciavam os sinais que ele realizava em favor dos doentes.
Subiu ao monte e sentou-se ali com os seus discípulos.
Estava a aproximar-se a Páscoa, a festa dos judeus.
Erguendo o olhar e reparando que uma grande multidão viera ter com Ele, Jesus disse então a Filipe:
«Onde havemos de comprar pão para esta gente comer?»
Dizia isto para o pôr à prova, pois Ele bem sabia o que ia fazer.
Filipe respondeu-lhe:
«Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho.»
Disse-lhe um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro:
«Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?»
Jesus disse:
«Fazei sentar as pessoas.»
Ora, havia muita erva no local. Os homens sentaram-se, pois, em número de uns cinco mil. Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os pelos que estavam sentados, tal como os peixes, e eles comeram quanto quiseram. Quando se saciaram, disse aos seus discípulos:
«Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca».” Jo 6,1-14

Naquela madrugada, eu e os meus pais fomos à procura daquele homem admirável de quem tantos falavam. O meu pai estava doente e a minha mãe era de idade avançada, por isso fui eu quem levou o farnel preparado pela minha mãe que me dizia cautelosa: “Nunca se sabe quando tempo escutaremos o Mestre, nem até onde o seguiremos na esperança de que, no meio das multidões, ele nos olhe e cure o teu pai… é melhor precavermo-nos e levarmos alguma coisa para comer.”

Lá fomos, e como já era habitual, era eu quem levava a sacola.
Ouvimos falar que estava do outro lado do mar da Galileia, no cimo de algum monte como fazia habitualmente com aqueles que estavam sempre com ele.
Ele contava-nos sempre muitas histórias… falava-nos da semente no campo, de donos da vinha e dos que nela trabalhavam, falava-nos do vento, dos lírios, dos pássaros que não semeiam nem colhem, do fermento que as mulheres usam para o pão…
… falava a nossa “língua”, andava no meio de nós, tocava-nos a todos com as palavras e com os abraços… deixava-nos fascinados, eu ainda era miúdo e parecia-me entendê-lo tão bem, o jeito que ele tinha de viver era tão diferente dos doutores do Templo que nos impunham regras e só nos falavam do livro da Lei, do livro da Lei, do livro da Lei.

Yeshuah falava-nos de cura, enxugava as nossas lágrimas de povo encurvado e triste, falava-nos de alegria, de festa, vivia dentro das nossas casas, falava-nos dentro da nossa própria vida. Ele era verdadeiramente um de nós, e nunca o vi misturar-se com os “grandes” de Jerusalém… escutei-o uma vez dizer que todo o poder, o dinheiro e os palácios construídos pelo ser humano, prendem o Coração e não o deixam ser quem é… livre. Foi por isso que o vi afastar-se, fugir mesmo… depois do que aconteceu naquela tarde.

Ficávamos maravilhados com tudo o que falava porque nos dava a Notícia de que Deus, afinal, estava connosco e não fechado dentro do Templo… Dizia-nos que a Sua presença é como a de um paizinho que não consegue afastar-se de nós por tanto nos amar e desejar ardentemente que construamos Comunhão entre nós, com Ele…
Havia quem dissesse que já o tinha escutado a falar com Deus, e que ele mesmo o chamava de Abba… Abba… da mesma maneira e com o mesmo carinho como eu chamo o meu papá.

Nunca nos cansávamos de o escutar… até nos esquecíamos de comer, a fome que íamos sentindo no estômago confundia-se com a fome que o nosso Coração tinha de o escutar mais e mais… e ele também parecia que se perdia a falar, sobretudo quando queria com todo o Coração dizer-nos como sentia ele o Reino… esse Reino que todos esperávamos, o nosso Reino, encabeçado pelo Rei ungido pelo próprio Deus do nosso povo. Não o entendíamos, mas ele dizia-nos que esse Reino já estava presente, mas seria pleno não agora e não aqui.

Num certo momento escutei os discípulos, afastados dele, muito atrapalhados porque o Yeshuah lhes tinha pedido para irem ver o que poderia haver de comer…
Estávamos longe da cidade mais próxima… e ainda aí, poderia não haver pão que chegasse para todos comerem. Eu fiquei espantado porque eles queriam arranjar pão para dar a todos… para todos, como era possível? Eles sabiam que era impossível, era preciso muito dinheiro. Eu não entendi porque não pediram eles a colaboração do povo.

Foi um gesto tolo, se calhar, hoje penso muito nisso… mas fui ter com eles e dei-lhes tudo o que tinha na sacola… os cinco pães e dois peixes que a minha mãe tinha cuidadosamente arranjado para comermos no caminho. Aborreceu-se comigo, a minha mãe, no primeiro instante… mas depois serenou, estávamos com o Yeshuah, o que poderia faltar-nos? Era um homem que fazia grandes sinais.

O André que andava sempre com ele, em tom de gozo, foi dizer ao Yeshu o pouco que eu oferecia. Mas o Yeshu mandou chamar-me, e entreguei nas mãos dele o que eu tinha, o olhar dele brilhava encantado comigo. Senti que eu estava a ser tão importante para ele.
Ele pegou no pão e deu graças, ao jeito do nosso povo quando se senta à mesa da refeição. Ao verem o meu gesto houve um momento em que todos queriam dar o que tinham ao Yeshu, para que fosse ele mesmo a pronunciar a bênção sobre tudo o que houvesse, e ele e os seus discípulos o distribuíssem. Mas ele não quis assim.
Pediu, antes, a todos, que se sentassem em grupos como quem se senta para um banquete… já era tarde, já escurecia… muitos não entenderam o que se passou, mas ninguém ficou com fome, porque o pouco que cada um guardava o partilhou no seu grupo e ainda sobrou.

O que antes chamávamos de multidão, no momento em que partilhávamos o pão, deixámos de o ser assim… sentados na relva, enquanto comíamos e os discípulos do Yeshu iam passando por ali, a cuidar para que ninguém ficasse com fome, falávamos maravilhados uns com os outros, olhos nos olhos, o que tínhamos escutado nas palavras daquele mestre encantador.

Que grande sinal realizou! Que grande sinal!...
Nesse dia não podíamos imaginar que fosse a primeira de tantas refeições partilhadas ao mesmo jeito, entre aqueles que amavam o Yeshu, e se amavam entre si, unidos nesta esperança do Reino já presente, a construir-se já aqui na comunhão de todos os que se unem ao Yeshu…

Ele morreu. Mataram-no os “grandes” porque se tornou uma presença incómoda e libertadora de Corações… os “grandes” do nosso povo não o suportavam.
Mas acredito que ele está vivo, o nosso Abba levantou-o. Sempre que hoje nos reunimos, fazemo-lo assim, em eukharistia (=bom e KHÁRIS=graça, dom gratuito), e falamos sobre tudo o que o Yeshuah nos ensinou sobre a nossa Comunhão e o Reino. Vivemos de novo este deixar de ser multidão anónima, para ter um nome e um olhar, e vivemos o milagre da partilha do pão que é de todos, que nos faz UM.

E ele, o Yeshu, está connosco… sempre. Ele é o Primeiro de nós, connosco.

2 comentários:

figlo disse...

Ainda hoje, todos os dias, cada dia, quando é o amor fraterno a pôr a mesa, chega para todos e sempre sobra.Acontece em nossas casas e deveriamos, como cidadõas ter já percebido que os recursos deste nosso Planeta Terra, o Pai os pôs na mesa para todos e alguns, quais comilões insasiáveis açambarcam...deste modo impedem a realização do milagre da partilha que redunda em multiplicação...e o que há chegaria para todos...e sobrava!

Maria Pires disse...

Amiga querida adoro oseu blg é tão cheio de amor por Deus esse ser tão maravilhoso,que me encanta suas postagens em cada dia que passa amo tanto a Jesus sinto a presensa dele em tudo o que faço.Beijo boa amiga xi do coração.