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Em dia de Quinta-Feira Maior




Há semanas inesperadas, e há a Semana Maior de todas que, se se torna inesperada, transforma-se num desafio Maior...
- Procurar converter estes dias em algo bom de viver...
Às vezes é assim, experimentam-se na pele, as vivências de cegos, samaritanas e lázaros. E é coisa que nos pede para nos desmembrarmos, nos descolarmos, desbloquearmos...
... DESINSTALANDO-NOS

Sim, pode parecer estranho (eu estranho), que não sinta a mínima inclinação para receber o pão que trazem os ministros extraordinários da comunhão... um conforto para alguns doentes, talvez outra coisa qualquer para outros.
Não consigo, nem sequer pensar no assunto, sobretudo depois de ouvir aquele tom solene e grave com que fazem as orações preparadas do seus livritos. E admiro a disponibilidade e a dignidade que tanto querem dar a estes momentos...mas aquelas criaturas tornam-se esguias e mais altas do que são, por ficarem de pé, e tornam os pobres débeis prostrados em cadeirões ou camas, criaturas ainda mais pequeninas. E saem dali uns louvores e graças ao Senhor, sem gracinha nenhuma e ironicamente com aquela "melodia" de fundo dos concursos portugueses da TV. É a vida! dizem...

Tenho mesmo que me surpreender. Talvez devesse aceitar a boa vontade destas criaturas, poderiam ser Deus na figura de anjos consoladores, ou que trouxessem boas notícias... tal e qual como aqueles 3 estrangeiros comeram o pão feito pela Sara, depois de Abraão lhes ter lavado os pés, coisa tão comum naqueles desertos.

Se calhar era isso... seria preciso que se sentassem comigo, que nos lavássemos mutuamente os pés, com todo o significado que isso possa ter de acolhimento, dom, entrega...

Se calhar era preciso que partilhássemos o mesmo pano de tenda sobre as cabeças. Que, de repente, nos sentíssemos verdadeiramente todos peregrinos...

Tive ontem a Comunhão da Quinta-Feira Maior, sim.....o tal sinal da Ceia... E pude saborear essa Comunhão com todo o paladar que tenho e todo o sentido que possa ter. Chegou-me na forma de uma cavaca, que me foi estendida pelas mãos doces de uma menina de 12 anos que antes havia já dado uns passitos de dança, como uma liturgia toda de gente... E ao ver estendida das suas mãos aquela cavaca para mim, quase lhe respondi "Ámen".

Afinal de contas, aquela família sentou-se ali em volta do seu querido ente mais débil e entre sorrisos e conversas, abrem uma caixa e petiscam umas cavacas que partilham entre todos, "são caseirinhas, pode comer à vontade!"
E como se pode recusar o que caseirinho é de casa, o que é feito com mãos humanas, fruto da terra e do trabalho de uma mulher?
"AMÉN!"

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