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2... depois do povoado dos pescadores…



… há mais gente a rodear aquele grupo, e aquele estranho torna-se sempre tão próximo, o olhar dele parece amar-nos inteiros por dentro com um respeito impossível de descrever… mas o que dizia, era sempre estranho… hoje, parece-me entender um pouco, mas noutros tempos não era assim.

Eram irmãos, os pescadores, e aquelas mãos pesadas nunca tinham desenrolado nenhum dos rolos da Lei, mal conheciam os caracteres escritos, e as gentes “da religião” sempre lhe pareceram homens pouco homens, que de trabalho e vida saberiam pouco, nunca as aquelas mãos finas e delicadas se viam sujas de lama, ou calejadas de trabalho…
Mas não eram só pescadores, os do grupo… havia outros, aqueles nunca bem vistos pelo nosso povo, que ajudam aqueles outros que nos oprimem e ajudam-nos a cobrarem-nos os impostos que inventam, para que o pobre seja mais pobre… e os ricos com a mesa mais farta ainda!...
E há outros ainda, nesse grupo.

O estranho, diz-se, é de Nazaré… consagrado a Deus…
atrai multidões, cativa olhares, e muitos não gostam do que afirma com tanta convicção, tanta autoridade…
Em criança frequentou a escola como o fazem todas as crianças de judeus justos e cumpridores das Leis, sabia por isso ler e escrever… mais tarde, vi-o ganhar o seu pão, com o trabalho de carpinteiro…
Que palavras são essas de que ele fala?
Quem é esse Pai que ele afirma ser o nosso Deus Altíssimo?
O que é essa Casa eterna onde se prepara como que uma festa, um banquete para nós, seus convidados?

Ele curou-me, sim… tocou-me e curou-me…
Olhou-me nos meus olhos, e disse-me:
“Amo-te, sê quem és, como eu te vejo…! Vive por mim, comigo!”
A todos o diz de maneira tão pessoal… tão única… tão especial… mas só os que se sabem doentes o buscam, só esses podem ser curados

Há multidões sem nome que o seguem, mas ele não conhece a multidão.
Vejo-o subir ao monte, antes ainda do sol nascer, parece-lhe que lá daquele alto quase pode abraçar o mundo inteiro, parece-lhe que lá daquele alto quase pode abraçar o céu inteiro… o céu, essa imagem tão bela que se pode comparar ao nosso Deus.
O cimo do monte é o ponto onde a terra e o céu se tocam!

Tantas caminhadas fazemos, o grupo daqueles homens vai sempre com ele… parecem sempre ávidos de o escutar, como eu… muitas vezes tudo parece fazer sentido, outras, parece-me estarmos sempre tão longe de entender…
Tantas caminhadas fazemos… não há tempo de parar porque há nele uma urgência qualquer, uma emergência, como se algo estivesse mesmo prestes a nascer e é preciso fazer nascer com toda a força das palavras de que é capaz.

A tantas mesas nos sentamos… já se tornou conhecido… até os ricos sentem orgulho que ele se sente à mesa.
Nunca o vi mudar o jeito de estar… de igual maneira come e bebe, ri e conversa na mesa dos ricos, ou na mesa dos pobres

Os pobres veneram-no, os ricos criticam-no…
Nunca o vi a defender a causa de um rico, nunca!...
Por toda a parte por onde passamos, e onde nos sentamos a cear há olhares escondidos de inveja, ciúme e desprezo.
Ele sabe…
Ele sempre soube… sabe, vê e conhece-os a todos pelo nome… às vezes até do nada lhes responde às inquietações surdas e mudas que lhes escurecem os Corações.

Há uma urgência que lhe ferve na pele, uma emergência que precisa anunciar…

2 comentários:

rui disse...

Que delícia... Que delícia conhecer esse Nazareno que continua por aí, hoje, a fazer exactamente o mesmo!

...Consagrado a Deus...

Que delícia!!!

Mariazita disse...

"Quem és TU?"

"Quem és TU?"

"Quem és TU?"


HMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM...

Que delícia ler isto hoje!

Obrigado!!! :)