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10… “Acompanhavam-no os doze e algumas mulheres… Maria… Joana… Susana… e muitas outras que os serviam com os seus bens” Lc 8,3


“Bendito sejais, Senhor,
porque não me criaste pagão,
nem me fizeste mulher,
nem ignorante.”
Rabi Yehudá

Esta prece de um mestre judeu diz tudo do modo como era considerada a mulher neste povo, apesar de, há mais de 2000 anos atrás, este povo ser também capaz de ver na mulher (como podemos constatar num dos relatos do Livro das Origens – Génesis), a companheira igual em dignidade ao homem, e os dois juntos como criação muito boa, excelente, a melhor de todas, à imagem do próprio Deus criador.

Pena é que nem todos pensavam e pensam assim, ainda hoje, não só nessa cultura, mas mesmo subtilmente nas mais “católicas” de todas!...

Hoje não estranhamos escutar Lucas dizer que Yeshuah tinha discípulas, e nomeia até algumas delas. Nem sempre temos é a consciência do tamanho do escândalo que Yeshuah provocava com a presença delas entre os seus discípulos… às vezes precisávamos de ser um pouco mais “escandalosos” também, à imagem do nosso mestre, para que a vida hoje se torne mais Reino de Deus…

Embora, nas aldeias daquele tempo, a situação da mulher não fosse tão rigorosa, na cidade as mulheres nunca podiam sair de casa sem estarem acompanhadas do seu marido e com um véu a cobrir o rosto.
Não lhes era permitido falar em público com nenhum homem.
Os seus deveres, nesta sociedade, são os de dar filhos aos seus maridos (de preferência, filhos varões, para assegurar a subsistência da família), e também satisfazê-los sexualmente, cuidar das tarefas da casa como cozinhar e tecer, e lavar o rosto, as mãos e os pés do seu marido a quem deveria chamar “meu senhor”, pois ela se lhe deveria submeter como propriedade dele.
E é claro que a mulher se submetia. É que a Lei permitia ao homem separar-se dela, se lhe apetecesse, se houve alguma coisa nela que lhe desagradasse, e uma mulher sem marido tendo já sido casada ficava completamente desprotegida e sem meios de subsistência, se o pai dela ou filhos varões não cuidassem dela aos quais ficaria novamente a submeter-se.

Uma mulher que fosse vista fora de casa, mais “solta”, sem a vigilância de um homem, ou exercendo alguma actividade reservada aos homens, era mal vista, considerada com má reputação e de honra duvidosa.

E Yeshuah, que posição toma em relação a este modo de tratar a mulher, entre o seu povo?

Vemos nos evangelhos como Yeshuah terá usado tantas vezes o exemplo das mulheres, nas suas parábolas, nesse modo de contar histórias para provocar a aproximação ao mistério que ele sentia dentro dele, que era o Reino do Pai.

O Reino do Pai… do Abba… Para Yeshuah, era um título a atribuir somente não como quem vê em Deus qualquer poder à imagem do poder patriarcal da sua cultura, mas como quem atribui apenas e só a Deus o primeiro lugar em tudo, diante do qual o homem e a mulher são iguais em dignidade.
“… a ninguém chameis pai na terra, porque um só é o vosso Pai: o do Céu” Mt 23, 8-11

Yeshuah corrige a valorização que se faz da mulher, quando lhe querem atribuir como missão suprema o acto de gerar filhos.
E eu, que ainda há dias li declarações papais tão nesta linha… tão a precisarmos todos de ouvir mais a sério este Yeshuah nazareno e, reconhecendo-o verdadeiramente como mestre de vida, aprender dele a reconhecer a verdadeira dignidade de toda a pessoa humana.

Às mulheres não era permitido falar em público, mas as multidões de homens e mulheres que escutavam Yeshuah sabiam que podiam falar abertamente…
… e alguém terá dito:
“Ditoso o seio que te levou e os peitos que te criaram!”
Yeshuah não consegue aceitar tal exaltação…
A maternidade é muito importante para uma mulher, tal como a paternidade o é para um homem, mas gerar filhos não é tudo na vida. e responde:
“Ditosas são antes aquelas que escutam a Palavra de Deus e a cumprem.”
É na capacidade de escutar, acolher e entrar no Reino de Deus que está a maior grandeza e dignidade da mulher… e também do homem.

E vemos como responde a Marta, atarefada com as coisas de casa, Yeshuah mostra-lhe como não é essa a sua principal missão, e não deverá ser a sua principal (pre)ocupação… existe uma “melhor parte” que tem que ver com a escuta das coisas do Reino de Deus.

Era um escândalo nunca visto, mulheres que viajavam pelos campos seguindo este homem, e dormiam ao relento no mesmo grupo de que faziam parte os homens.

Ter-se-ão aproximado de Yeshuah, cativadas pela presença que demonstrava, pelas notícias boas que anunciava a todos, mas não permaneceriam neste grupo se Yeshuah as não tivesse convidado a fazer parte.
É que são doze, os discípulos nomeados, mas são-no somente pela simbologia que o número representa… Yeshuah anuncia de maneira provocadora um novo Israel, um novo povo que havia sido nascido de doze tribos, descendentes, segundo a tradição, dos doze filhos de Jacob.

Não existe a palavra “discípula” naquele tempo, porque a nenhuma mulher era permitido seguir um Rabi.
Mas Yeshuah teve discípulas, sim. Apesar dos evangelhos terem sido escritos por homens, num ambiente cultural profundamente masculino, com a agravante de todo o estudo e interpretação destes escritos, ao longo da História, terem sido quase sempre feitos somente por homens, na sua maioria monges… é um facto que desconcerta como a presença das mulheres, junto do Yeshuah, terá sido tão marcante para que tenha prevalecido.

Até a imagem de Maria de Magdala foi deturpada… é apelidada de prostituta na Igreja ocidental, quando não se encontra nenhuma referência, dizendo isso, nos evangelhos.
Na Igreja do Oriente, pelo contrário, Maria de Magdala é venerada como discípula fiel e testemunha eminente do Yeshuah ressuscitado.
Uma mulher que terá sido a sua amiga mais próxima, que o segue até ao fim, ao mesmo tempo que lidera talvez o resto das discípulas… terá sido a primeira a reconhecê-lo ressuscitado, tê-lo-á anunciado aos companheiros discípulos, mas estes não acreditaram nela, e parece que ainda hoje não reconhecem o seu testemunho,e lhe são negadas formas com reconhecida autenticidade para anunciar o Reino.
Ao mesmo tempo foi vista, em alguns ambientes desses primeiros tempos, como uma mulher que havia compreendido completamente o mistério do Yeshuah.

Yeshuah terá tido amigas muito próximas, como as irmãs de Lázaro, Marta e Maria em cujo lar gosta de se recolher.

Muitas o seguiam e terão sido uma presença forte durante os seus últimos dias de vida, mesmo quando os homens do grupo o abandonaram, elas permaneceram e testemunharam, assim como também testemunham a ressurreição e correm a anunciá-la.
É delas o primeiro anúncio.

Onde estão elas, as “Maria de Magdala”, dos nossos tempos?...



6 comentários:

joaquim disse...

Amigo Anawîm

É verdade sem dúvida a reflexão que fazes e nos dás a conhecer sobre a “condição” da mulher.

Mas, muitas vezes, alguns se servem, por exemplo, dos versículos da Carta aos Efésios, 5, 21-24, para criticar uma possível “visão anti-mulher” em Paulo, esquecendo-se dos versículos seguintes 5, 25-33, que considero, quando lidos com atenção, um lindíssimo hino de amor e respeito pelas mulheres, que eleva esse amor à mais perfeita aliança.

E as mulheres estão aí, onde está a Igreja e muitas vezes até estão onde a Igreja não chega, ou não está.

Elas são na maioria esmagadora das vocações, aquelas que abriram o coração dos homens ao chamamento de Deus.

Abraço muito amigo em Cristo

Mila disse...

Eu conheço algumas,e bem LINDAS!!!
São de uma riqueza interior fantástica e sempre disponiveis a testemunhar e anunciar a BOA NOTICIA...

Inês Monteiro disse...

Estou aqui! Não sou importante, nem muito dotada, mas estou disponível para ser uma dessas "Maria de Magdala" dos nossos dias...

Quero seguir-te sempre meu doce Yeshuah, que a minha vida seja testemunho da tua causa: Reino de Deus.


Um abraço anawim e mais uma vez obrigada por esta caminhada.

anawîm disse...

Amigo Joaquim...
é esta a nossa Igreja, desde o início... aquele que hoje chamamos Mestre foi abandonado pelos seus no momento mais duro da sua vida, morreu sozinho, só as discípulas se mantiveram junto dele.
É esta "linhagem" que nos anuncia o Salvador.

Tens razão, Joaquim, falam tanto de Paulo, e ele agora nem tem como se defender... eheheh... para dizer que isto ou aquilo foi realmente escrito ou acrescentado por ele ou não... falam demasiado nesses versículos, mas não lêem, por exemplo Rm 16,1: "Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia"...
e do "servindo" deduz-se que fosse mesmo diaconisa. E as tantas outras mulheres que Paulo exalta?
Um abraço grande para ti!...

mila...
acredito que uma delas és tu
acredito que a tua alegria, que só tem origem na boa notícia de Jesus, é um anúncio belíssimo, um sinal do Reino de Deus...
agradeço-te muito por ti

Inês,
estás aqui e és muito importante na tua disponibilidade
sinto mesmo que a tua vida é mesmo testemunho vivo da presença do Reino de Deus...
Agradeço muito a tua presença por aqui...
Um abraço forte para ti

For@-da-lei disse...

Muito bem filtrado Anawin, "aquele que hoje chamamos Mestre foi abandonado pelos seus no momento mais duro da sua vida, morreu sozinho, só as discípulas se mantiveram junto dele.
É esta "linhagem" que nos anuncia o Salvador".
Percorrendo o Evangelho de ontem,hoje e de amanhã,as mulheres sempre souberam melhor Amar acolher e servir Jesus nas suas vidas e, é muito simples saber o porquê desse condão...rsr

Se algum cavalheiro passar por aqui ,não quero de maneira alguma "ofender" o machismo que se opõe nesta questão,a qual daria muito pano para mangas, mas o certo é que eles ficam muito além em matéria do AMOR,sobretudo muito pobres em misericórdia e no perdão....

anawîm disse...

fora-da-lei...
devo lembrar que, afinal, João também estava por lá...
... se calhar há algumas boas excepções à regra!... eheh

um abraço grande para ti