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5 - Em Belém...


“O Senhor disse a Samuel: «(…) Enche o teu vaso de óleo e vai. Quero enviar-te à casa de Jessé de Belém, pois escolhi um rei entre os seus filhos.»”
1Sam16,1
“Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre as famílias de Judá, é de ti que há-de sair aquele que governará Israel (…) Ele permanecerá firme e apascentará o seu rebanho (…)”
Miq5,1-3

Deus Re-sSuscitou o Yeshuah, porque já o havia Suscitado num primeiro momento.
As comunidades que se foram formando com o testemunho daqueles que tinham acompanhado mais de perto os passos do Yeshuah acreditavam que Deus já sonhava e preparava esta presença do Seu próprio Rosto, tão dentro da Humanidade, através da vida inteira do Yeshuah…
… é sempre a partir daqui que todos os relatos são criados e articulados pelas comunidades.

Era preciso dizer de alguma maneira que o Yeshu tinha nascido em Belém… apesar de ter vivido a maior parte da sua vida em Nazaré, uma aldeola que em nenhum livro das escrituras sequer aparecia, uma terra repovoada por gentes de diversos lugares… tão longe de Jerusalém e do seu Templo, longe do poder religioso e das forças políticas dominantes da época – o Império Romano.
Era preciso dizer de alguma maneira que o Yeshu tinha nascido em Belém, porque havia a certeza de que era ele o Ungido de Deus, o Prometido por Deus ao seu povo, descendente de David…

No relato de Mateus nem sequer há nenhuma preocupação de criar um enredo que explicasse a referência ao Yeshu ter nascido em Belém…
“Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia…” Mt2,1 e segue o relato, sem mais, sobre o lugar geográfico.
O evangelho de Mateus é fruto de comunidades judias, que reflectem e escrevem para comunidades judias…
Para qualquer judeu estava claro o significado desta afirmação, e qual o objectivo dela… é uma forma de dizer que o Yeshuah é aquele mesmo Messias prometido por Deus, anunciado pelos profetas e esperado por todo o povo.

Os relatos do Evangelho de Lucas são fruto de comunidades anteriormente pagãs (sem origem na fé judaica), e são escritos para comunidades sem esses conhecimentos básicos da fé judaica e espera do Messias.
Se pensarmos bem, vemos como seria impensável para um jovem e uma jovem recém-casados, ela já no fim do tempo de gravidez… empreenderem uma viagem de dezenas de kilómetros para, daquela insignificante aldeia de Nazaré cumprirem tão rigorosamente uma ordem de recenseamento por parte do Império Romano (que, aliás, historicamente sabemos que esse recenseamento foi pedido, mas só alguns anos mais tarde do que afirma aqui o evangelho de Lucas), colocando em perigo a saúde de Maria e do filho que trazia no ventre, prestes a nascer.
A cena é descrita por Lucas… e só mesmo por Lucas, de modo seco e directo porque a finalidade é uma só… o Yeshuah é o descendente de David.

No relato elaborado no Evangelho de Lucas vemos Maria e José a não encontrarem lugar para repousar da suposta viagem. E chega o momento de nascer.
O menino nasce, é o primogénito da jovem mulher… é o primeiro nascido da jovem mulher…
Suscitado por Deus é o Primeiro a ser gerado pela jovem mulher.
re- sSuscitado por Deus será o Primeiro a ser gerado de uma Humanidade inteira que nascerá como Corpo dele mesmo, do Primeiro… como tão bem já havia dito Paulo.

Mas ao nascer parece que não há lugar para ele neste mundo imenso.
O evangelho de João dirá exactamente o mesmo…
“Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.” Jo1,11
Não o receberam ao ser Suscitado, e não o acolheram ao ser re-sSuscitado por Deus.

“… e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na sala da casa onde se recolhiam as caravanas em viagem.” Lc 2,7
Foi envolvido em panos, enfaixado ao nascer, ao ser Suscitado por Deus…
… Yeshuah será envolvido em panos, enfaixado no momento de ser re-sSuscitado por Deus.
No séc. II, curiosamente, surgirá a tradição do nascimento na gruta. Mais uma vez, igualmente uma possível alusão paralela ao túmulo escavado na rocha.

Neste relato de Lucas quem são os primeiros a acolher a notícia do Suscitado por Deus?

Este próximo cenário nada tem de bucólico, nem dos românticos quadros de pastoreio primaveril.
Os pastores eram considerados dos mais impuros, dos mais desprezíveis segundo os fariseus, porque os pastores não conheciam a Lei, e ainda que a conhecessem nunca a poderiam viver. Nunca podiam, por exemplo, cumprir o preceito do Sábado, porque todos os dias, sem excepção, era preciso garantir o alimento aos animais… e violavam assim o sagrado descanso do dia de sábado… além disso, os pastores, tinham muitas vezes que lidar com animais considerados impuros segundo a Lei.

É mesmo a estes, os “impuros”, os merecedores de desprezo por parte dos rigorosos cumpridores da Velha Lei, que a Boa e Nova Notícia é gratuitamente oferecida.
A presença de Deus, o Seu Rosto visível no olhar daquele menino, veio para ficar do lado daqueles que ninguém defende, do lado daqueles que são o resto, o lixo da sociedade, os incómodos, os despossuídos de tudo e de todos… os anawîm…




E já agora, isto não aparece nos relatos dos evangelhos, mas é nossa tradição celebrar tudo isto no dia 25 de Dezembro.
Todos gostamos de festejar o aniversário dos nossos grandes amigos… 25 de Dezembro tornou-se no dia perfeito para o fazer porque naqueles tempos os pagãos o festejavam como o dia do Natal do Sol Invicto… o momento em que o sol, a Luz, volta a reinar sobre a Noite… o momento do ano em que os dias começam a aumentar e as noites a diminuir.
Jesus começou a ser celebrado assim, como a Luz, o Sol Nascente que destrói a escuridão da noite.




Daqui a pouco já trago os Magos aqui e também a matança dos inocentes…

1 comentário:

Mila disse...

Estou a adorar Anawim! E de certa forma está-me ajudar a ficar mais esclarecida.