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Aquilo que por fora é... e o que dentro não leva...


Confesso, desde já, que isto não é mesmo nada uma boa notícia… só o poderia ser, ironicamente. É que isto anda aqui dentro de mim e não me deixa calá-lo.

São poucas as notícias das muitas pessoas que se dirigem aos órgãos civis competentes para fazerem justas reclamações sobre a falta de qualidade da água canalizada que (às vezes, com uma cor e cheiro que enoja) recebem nas suas casas… em bairros degradados. São situações de urgência que demoram mais tempo do que deveria levar para resolver. É um exemplo…

Qual não foi o meu espanto quando soube que, essas incursões tão cuidadosas da ASAE (Actividade de Segurança Alimentar e Económica – órgão de polícia criminal), além de todos os restaurantes e cafés e padarias e feiras e tudo o que mais se lembrem… também têm como alvo as Instituições de Solidariedade Social.
Acho bem que aqueles que confeccionam alimentos e os que vendem roupa, etc etc etc, tenham o cuidado de o fazer de maneira correcta para que o consumidor não venha a ficar doente…
Acho bem o cuidado com o que comemos e com o que vestimos…
Mas, quando nos deparamos com Instituições de Solidariedade Social, que sabemos serem compostas, quase sempre, de pessoas que se voluntariam, e que naturalmente têm alguma formação sobre higiene alimentar porque, logicamente, também comem e também se vestem… tenham que ter agora redobrado cuidado com os misteriosos e terríficos Micro Organismos com os quais a ASAE tanto se degladia...

Eu nunca me tinha apercebido da extinção de fontes e bebedouros de água potável que se encontravam nos recantos das nossas praças e jardins… É um problema grave para aqueles que, miseravelmente, vivem na rua.
Quando pequenos grupos de pessoas “arregaçam as mangas” para fazer alguma coisa por eles, é um dos pedidos que mais escutam: “Água”. Curiosamente incrível, não é?!...
Dá mesmo o que pensar...

O que se torna caricatamente chocante é que a ASAE imponha normas às Instituições de Solidariedade Social para a entrega de água aos sem abrigo.
Se as garrafas de água levarem o selo de abertura quebrado, indicando que já poderão ter sido abertas, as ditas garrafas não podem ser dadas com água. É que a água da torneira, dizem, ao fim de dois dias dentro de uma garrafa, torna-se imprópria para beber por causa dos “Adamastores” chamados Micro Organismos que são um monstro implacável que todos devemos combater.

Pois é…
Alguém que vive assim na rua não tem direito, muitas vezes, a um lugar onde tomar banho.
Não tem direito, muitas vezes, a uma refeição quente ao fim de um dia de chuva e frio.
Não tem direito, muitas vezes, aos cuidados médicos mais básicos.
Não tem direito, muitas vezes, a um tecto digno sob o qual se abrigar da noite fria, ou do calor que queima.
Não tem direito, muitas vezes, quando têm doença grave, às medicações, tratamentos, operações porque não há dinheiro que pague as fortunas pedidas para tal.
Não tem direito, muitas vezes, a uma roupa limpa e digna que faça despir aquela que trazem no corpo e se suja no chão onde dorme, no chão que nós pisamos todos os dias.
Não tem direito, muitas vezes, a uma e mais uma e mais uma oportunidade de formação, tendo em conta as suas capacidades… para poder ter a capacidade de exercer alguma profissão.
Não tem direito a uma oportunidade de emprego e mais outra e mais outra e mais outra.
Não tem direito a ser escutado.
Não tem direito, muitas vezes, a uma palavra nossa dada educadamente… a uma atitude nossa mais paciente, não tem sequer direito a um olhar nosso.
Não tem direito, muitas vezes, a entrar em qualquer lugar que seja um lugar de gente…


… mas água com qualidade dentro de uma garrafa?... Ai, isso?… é preciso dá-la bem fiscalizada, para não haver dentro dela Micro Organismos… e assim dá-se sem se dar nada.
E eu penso… Que raio de coisa temos nós na cabeça para andar às voltas com isto???

É assim que nos damos ao nosso irmão, filho da mesma Humanidade de que sou filho ou filha… é assim que nos damos... num invólucro, vazio por dentro quando se sente forçado a cumprir leis.

Por fora cumpre-se uma lei… por dentro tem que ir vazio… dá-se e “eles que encham” com o que não têm.
Isto de leis e normas… tem muito que se lhe diga…

Sabes qual é a minha esperança?... É que cada vez mais, nestas coisas, aprendamos a desobedecer bem.

2 comentários:

Anónimo disse...

Pode-se morrer de fome, nunca com intoxicações.
Pode-se comprar maçãs cheias de agro-tóxicos mas nunca as pousar nas balanças sem ser dentro de um saco impecavelmente limpo. Será para não contaminar a balança?

São os "puros" a imporem-se aos "impuros"?

Muito exagero nas mentalidades "novas".


Isabel

figlo disse...

Cada vez é mais claro que onde a lei cega entra, desaparece a Graça ...
Vivemos actualmente a paranóia da higiene e como tal troca-se o "manusear" por sacos e embalagem de plástico e esferovite...e outras parvoices que enchem os bolsos de alguém , calam a boca a ignorantes e convencem alguns outros de que assim não vão morrer...mas vão matando o planeta, este que é o único que temos para habitar...quanto aos pobres e sem abrigo temos que protege-los de qualquer possível dor de barriga...mas de fome , sede ou frio, podem morrer à vontade...Somos ou não somos um país civilizado!? Um abraço Glória